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Ano V - Nº 94 - Janeiro de 2005

Um recado ao ministro da Educação

Antonio Carlos Sampaio Silveira*

 

Caro leitor, me perdoe a ousadia do titulo deste artigo, mas como cidadão tenho o direito e o dever de assim enunciá-lo.

Este problema que envolve o pretensioso recado, recai sobre minha experiência como cirurgião-dentista, ex-professor universitário e mais de 15 anos a esta data, venho dirigindo operadoras de planos odontológicos. Assim, entendo que passar pela vida e não compartilhar conhecimentos, convenhamos, nos torna quando muito, meros viajantes que não entenderam o motivo de estar por aqui.

Com a chegada de um governo que se repetiu por mais outros quatro anos, assistimos uma gestão por demais liberal , onde a educação passou a “ser livre para as compras”, ou seja, escolas, mais precisamente fábricas de diplomas, apareceram como verdadeiros shoppings, onde por verdadeiras liquidações, se conseguia e até hoje ainda se consegue, obter um diploma de fazedor de conta.

Desculpem o mau humor, mas neste tempo todo assisti verdadeiros dramas de jovens que após sacrifícios próprios e até familiares, se frustraram ao tentar adentrar para o mercado de trabalho.

Detendo-me especificamente na área de Odontologia, recebi com freqüência solicitações de pais que vinham até nós para tentar entender o inevitável. “- Por favor, me explique este pesadelo: Eu e minha família juntamos todas as economias, até com injustiças para com outros filhos, e depois de 5 anos formamos o meu mais velho, comprei um consultório em 60 meses e esperava do João, meu filho, logo após sua formatura, que todos nós teríamos um”Doutor” na família e assim poderia nos oferecer uma vida mais tranqüila economicamente”. Doce ilusão. O jovem, além da frustração profissional, hoje carrega uma pressão de todos seus familiares, que vivem cobrando à espera da recompensa financeira que tanto almejavam.

 - Pai, mas eu não tenho cliente !

Vejam o que este drama representa: Formam-se no Brasil, 12 mil cirurgiões dentistas todos os anos, todos querem ficar nos grandes centros, e assim passam a competir clientes, muitas vezes manchando suas éticas. Como resolver? O mercado saturado já está se encarregando disto. As pseudofaculdades fecham por falta de alunos. Os ex-futuros cirurgiõesdentistas não querem mais se tornar vítimas deste engodo.

Veja caro leitor, o fato de faculdades fecharem suas portas, não apaga tais dramas ou devolvem esperanças; ao contrário, criam verdadeiros jovens depressivos a vagar à procura de oportunidades em outros seguimentos. Quem por acaso não tem um filho de amigo ou parente que ao se formar foi exercer outra atividade ?

Senhor Ministro da Educação, está mais do que na hora de sentar com seu colega da Saúde e traçar uma política conjunta que venha redirecionar esta verdadeira chaga social. Estamos falando de milhares de indivíduos que, somados às suas famílias,  representam milhões de brasileiros que anualmente mudam seus sonhos profissionais e, assim, arrastando um segmento que envolve tantos outros terceiros (fornecedores, auxiliares, clientes), que somados engrossam ainda mais este drama.

Por que o governo não incentiva estes jovens profissionais a fixarem suas vidas no interior do País?  Por que não criar motivações que os façam sair dos grandes centros criando mais chances profissionais, ao mesmo tempo em que estariam levando saúde bucal e qualidade de vida para comunidades menos assistidas?

Navegar é preciso, viver também é preciso...


*Antonio Carlos Sampaio Silveira é cirurgião-dentista com MBA em Gestão de Saúde e diretor da Soesp Odonto. E-mail: acssilveira@soespodonto.com.br. 


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