Ano VII nº 101 -

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Mas que País é esse?

Armando Stelluto Jr. *

Estamos no ano 2500.

Um estudioso da história mundial descobre, intrigado, que um gigantesco agrupamento populacional de 170 milhões de indivíduos sofrera um duro golpe. Tudo dentro da lei, na moral, como costumavam dizer lá pelos idos de 2005, século 21 da era cristã. O pesquisador vê diante de seus olhos o que textos da época, daqueles escritos em ferramentas jurássicas na época e tidas como computadores, estampavam como um dos maiores golpes políticos já sofridos pela humanidade. Embora circunscrito a uma nação de pouca expressão no cenário mundial, a desgraça que lhe acometeu espalhou o medo por todo o planeta. Nesta era distante daqueles registros históricos, afinal lá se vão quase 500 anos, fica difícil acreditar no que os perseguidos e perseverantes pesquisadores de então perpetuaram com seus escritos.

Ao aprofundar suas buscas, o anônimo investigador ficou de queixo caído, estarrecido mesmo - isso em pleno século 26. Mergulhado na tela on-line de suas poderosas máquinas do tempo, vê que a coisa aconteceu no Hemisfério Sul, lá pelos lados de uma Atlântida perdida, conhecida então por América do Sul. Naquele fim de mundo, se agrupavam povos de diferentes origens, mas quase todos unidos por uma só filosofia.

Eram 12 países, assim chamados na época os aglomerados de pessoas separados por divisórias invisíveis de seus campos de sobrevivência. Embora guiados por seus próprios líderes, que lhes impunham suas vontades sob o manto político então praticado e chamado de democracia, os indivíduos ali encontrados matavam e roubavam uns aos outros. Matavam-se em locais públicos, como em frente a santuários religiosos, casas de saúde e em suas próprias habitações. Roubavam-se também em vias abertas, ou em instituições tidas como oficiais, algumas até dos próprios governos. Descobriu o pesquisador estarrecido que a filosofia deles lhes exigia algo de sobrenatural, de temperamento traiçoeiro, bem distante dos irracionais que ainda povoavam as florestas locais. Embora tidos como civilizados, os líderes de então cometiam crimes que hoje não se consegue imaginar na mente humana. Os registros históricos dão conta de que para eles a lei (um recurso existente no século 21 para regular e disciplinar a convivência humana naqueles campos habitados e governados por hordas de vagabundos) era um ornamento dos compêndios jurídicos de então. Pouco, mas muito pouco mesmo desse regulatório e disciplinador imposto à maioria dos indivíduos valia para a classe formada pelos líderes. Eles obedeciam pela classificação de políticos, embora gostassem de ser tratados como trabalhadores. Eram, isto sim, os genuínos fazedores de leis e regulamentos, que, obviamente, os protegiam e lhes asseguravam direitos horríveis se comparados com os dias atuais deste século 26. Trata-se de algo inimaginável. Em muitos lugares escreviam com as mãos sobre um material bem fino e claro chamado papel. Mesmo assim, deixaram códices bastante confiáveis.

Nessa distante América do Sul, havia uma enorme nação com 170 milhões de ocupantes. Formada e explorada por imperialistas portugueses a partir do século 16, essa colônia composta por indefesos autóctones, depois por negros escravos, foi usurpada pelos ladrões da Coroa até o fundo de suas minas de ouro. Depois, foram formados grupos dirigentes locais, mas a mando de imperialistas de outras nações que não a sugadora Portugal. A partir de 1500, foram quatro séculos de governos e desgovernos, onde um sistema repugnante daquele tempo praticava o que se chama até hoje, mil anos depois, de corrupção.

À medida que tantos fatos escabrosos a história escorria a sua frente, a curiosidade aumentava a cada informação acessada, tal era a magnitude das injustiças e falsidades praticadas contra um só povo. Naquele lugar de gente alegre, de “laisser tomber”, praticava-se o massacre da mais sublime das emoções do ser humano: a esperança. Nem George Orwel conseguiu enxergar tal safadeza.

Foi então que, ao refinar a busca para descobrir em que ponto do mundo acontecia exatamente tantos crimes sob a sombra da lei, ele localizou um vasto território banhado por exuberante costa marítima de pouco mais de oito mil quilômetros. Um lugar de muito sol, vento, alegria, onde as pessoas dançavam nas areias e os políticos roubavam a encher as próprias burras. O Oceano Atlântico a Leste, a fantástica terra amazônica a Noroeste (considerada em 2005 o pulmão do mundo e lugar de ninguém, onde nem linha de trem suportava a força e o abafamento de suas florestas tropicais). Quase todo o restante era uma imensidão de territórios férteis para o trabalho jamais vista no planeta.

Intrigado, perguntou para si mesmo: “Mas que país é esse?”

(Mal sabia que pouco menos de 500 anos depois ele reproduzia uma expressão talhada por uma velha raposa política de linha ditatorial daquele país. Mesmo a viver na sabujice das benesses do sistema, o tal líder não entendia a nação que o bem provia).

Esse país chama-se Brasil. E ainda existe, por incrível que possa parecer. Nem o “laisser faire”, as pragas, as quadrilhas e as múltiplas cambadas de ladrões conseguiram miná-lo a ponto de sucumbi-lo.

*Armando Stelluto Jr. é jornalista/SP

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