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| Ano VII - Nº 98 - Maio de 2005 |
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Lula no país do futebol
Armando Stelluto Jr.* |
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Charles Miller, paulista filho de ingleses, trouxe o futebol para o Brasil em 1894. Centroavante em Hampshire, na Inglaterra, onde estudou, Miller despachou o “esporte bretão” da Europa para a América do Sul em duas bolas na mala de viagem. Foi esse o ponta-pé inicial que transformou o Brasil no “país do futebol”. A “pátria de chuteiras” hoje reverencia a modalidade esportiva como a endeusá-la. A “paixão nacional” - expressão como as demais entre aspas criadas pelo pessoal do setor – é a bola rolando. Sem saber, Miller faria um estrago enorme, porque a revolução social que se desencadeou no rastro do futebolismo nunca mais parou. A classe política soube bem se incrustar ao futebol. O presidente Getúlio Vargas, gaúcho de São Borja (RS), foi um dos primeiros a tirar proveito eficiente das “peladas”. Daí pra frente, seus pares não deixaram por menos e não pararam mais. Lula que o diga. Hoje existem até bancadas futebolísticas - e algumas exclusivamente corintianas - em nossos pouco respeitáveis parlamentos. A administração federal petista instalada em Brasília em janeiro de 2003 bate uma bolinha – como se diz no jargão esportivo – aos domingos. Ou seja, todo final de semana tem pelada na Granja do Torto, onde Figueiredo se divertia com seus cavalos, FHC posava de estadista letrado e Sarney provava o fardão. A bola rola solta nos gramados da Presidência. Lula também gosta de futebol, se diz corintiano e se arrisca de atleta gorducho de fim de semana – por isso já andou se estropiando em quedas imerecidas e faltas de adversários desleais. Mesmo fora de forma, Lula insiste, apesar dos alertas médicos contra a atividade física domingueira. Lula veste o uniforme, apaga o charuto e entra em campo. Ah, mas o futebol é a alegria do povo e eu sou o povo! - diria o Presidente. “Viva o povo brasileiro!”, escreveu o baiano João Ubaldo Ribeiro. Isto posto, vamos ao ponto. MUNIFICÊNCIAS LULISTAS O país do futebol nasceu e cresceu ao sabor do trabalho de seus torcedores, não dos clubes e dos atletas. Meu nono costumava dizer em sua grandiosa sabedoria que o futebol era uma coisa muito boa, mas só isso, nada mais. Ou seja, sua utilidade se encerra no entretenimento. Mas, os anos pós-Miller revelaram algo maior e pior. O futebol tornou-se um grande negócio globalizado, como quase tudo o que consumimos. A pasteurização internacionalizada invadiu os campos e transformou-os em mercados bancários, onde a moeda de troca começa por milhões de dólares. Quase tudo que envolve o futebol hoje no Brasil e na Europa se conta aos milhões de dólares ou euros. A diferença é que por aqui o povo morre nas ruas como moscas e índios sucumbem de fome embora subjugados pelo branco usurpador. A grande questão (e é agora que Lula entra na história) se abre exatamente aos pés do torcedor, este infeliz que, sem perceber, é a razão de tudo o que estamos falando. O futebol no Brasil mostra o quanto a nossa sociedade é desigual. Apenas como exemplo, tomemos a dívida dos clubes de futebol com o INSS, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e Receita Federal hoje em torno de R$ 900 milhões, e a de uma empresa pequena que pretende pôr suas contas em ordem. Os clubes continuam jogando, disputando torneios milionários e pagando salários igualmente milionários sem que o fisco os incomode. Já as empresas lutam a duras penas com a fiscalização em seus calcanhares, sob o fogo criminoso de agentes corruptos, e são impedidas de atuar em diversos setores, principalmente em obras públicas. No início deste mês de maio, o presidente Lula criou a Timemania. A nova loteria pretende arrecadar R$ 500 milhões por ano para socorrer os clubes caloteiros. O mini Proer injetará pouco mais da metade desses recursos na podridão das contas de clubes sonegadores. O mais escandaloso dessa MP de Lula é que a cartolagem acha pouco, não está contente com algumas condições criadas pelo governo para recuperar parte das contribuições que os clubes não realizaram. O prazo de 60 meses para pagar o sonegado, com o dinheiro das apostas dos torcedores na Timemania, não caiu de todo no agrado dos clubes, que querem negociar seus crimes de desvio de impostos para seus bolsos junto às bancadas da bola no Congresso. A desfaçatez é tão grande que os clubes revelam pretender “trabalhar” junto com os parlamentares na regulamentação da Timemania, para “ajustarem” alguns pontos da proposta de Lula. Se assim for, teremos os cabritos a cuidar da horta. Os locupletadores do erário público estarão de plantão... LULA NÃO REAGE AOS ACINTESLula não reagiu às intenções dos cartolas sonegadores. Fez ouvidos moucos, como quem não soubesse da MP tipo presente de Dia das Mães dado à cartolagem. O presidente se comportou assim como não reage ao acinte do Movimento dos Sem-Terra (MST), às indenizações milionárias a terroristas assassinos que estão se fartando com o dinheiro público, ao contrabando de armas por nossas fronteiras escancaradas, à guerra civil em que se transformou a criminalidade no País, à indústria dos planos de saúde. No país do futebol, onde Lula prometeu criar 10 milhões de empregos e impor o furado Fome Zero que já nasceu inane, cobra-se pela luz que não existe nas ruas, por túneis suicidas que vão do nada a lugar nenhum. Na pátria de chuteiras, onde o torcedor ainda vive debaixo de cacete sob sol e chuva como há dois séculos passados, Lula procura ser justo com as questões da Previdência Social inócua, na medida em que alardeia ser cobrador implacável de quem deve, mas ao mesmo tempo protege seu ministro previdenciário, o senador Romero Jucá, acusado de falcatruas mil. LULA SABUJA A CORRIOLA DOS GRAMADOSEnquanto mantém os juros nas alturas e com isso aperta o torniquete em nossos bolsos, Lula sabuja a corriola dos gramados, que pouco contribui efetivamente pelas nossas crianças e nossos velhos. Mais uma vez, Lula errou feio, ao comprazer-se com os cartolas e seus asseclas. Com isso, o companheiro demonstra que esqueceu das escolas de lata, do lixo que são os atendimentos da Previdência, da sanha arrecadatória de seu desgoverno, das estradas matadoras pela incompetência de seus assessores petistas e muito mais. Lula perdeu uma grande oportunidade de estampar sua marca contra o crime de sonegação (isto para começar). Mas, ao invés disso criou a Timemania. Preferiu enxugar gelo. Como vemos, atualmente futebol é só isso aí. E deixa a bola rolar! Outros artigos do autor publicados no Jornal do Site Odonto *Armando Stelluto Jr. é jornalista |