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Dentista... culto (?) Roberto Beltrán* - Lima (Peru) |
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Não sabemos se devido à nossa humilde origem como netos de barbeiros, sangradores e charlatões, pesa sobre nós CDs, uma conjuração que malevolamente nos encerra entre as quatro paredes de uma vida sem outros horizontes que não os limitados pelo exercício profissional, que para muitos consiste na repetição rotineira de procedimentos tecnológicos. Sim, sabemos que a humanidade, de modo maravilhoso, multiplicou as perspectivas de uma realidade tão bela como a vida, de uma dimensão tão ampla como é o saber e o mistério inefável que é a criação artística e a riqueza espiritual. Sim, sabemos que a sociedade sofre as dores de um parto que não acaba por dar à luz justiça e solidariedade entre os homens e as nações. Que sofre o conflito entre o egoísmo e o amor ao próximo, entre o dar e o reter, entre usar e acumular. A Cobiça parece ser o motor da obsessão competitiva e monopolizadora de acumulação ilimitada. Sim, sabemos que a corrida que levará o planeta à sua extinção já começou. Que a contaminação das terras e dos mares e do ar está crescendo em progressão geométrica. Que a mesma cobiça que turva e destrói a fraternidade entre os homens, terminará por destruir o planeta inteiro. Que aqueles que clamam mostrando o perigo, não são escutados... Quantos de nós, profissionais universitários, pensamos não serem estes os problemas que nos dizem respeito, que nos negamos a ver a realidade e a assumir um posto na linha de combate por uma cultura de solidariedade entre os homens e de respeito à natureza! Nossa formação universitária deveria nos ajudar a abrir nossas consciências e dar força à nossa vontade para trabalhar por um mundo melhor. Deveria preparar-nos para um combate que precisa de coragem, mas também do saber e do ser, desse conhecimento necessário para sobreviver e viver com dignidade, mas também daquele outro, herança imponderável que o gênio do homem criou ao longo dos séculos e que chamamos de cultura. Nossa passagem pela universidade deveria servir para inserir-nos plenamente em nossa cultura e assumir a tarefa infinita de seu enriquecimento, e em conseqüência, trabalhar pelas mudanças que a sociedade necessita. Insisto, crescer com os valores supremos da cultura, significa assumir junto à nossa responsabilidade frente à sociedade, a de responder por nossa própria realização pessoal, incumbência que são ambas inseparáveis e recíprocas. Não são muitas as universidade, e em nosso caso as escolas de Odontologia, que formam algo mais que técnicos com uma base científica "virtual"- segundo a linguagem da moda. Pouco fizeram a maioria delas para criar em seus alunos o supremo projeto de formar homens completos. Dizemos em nossos conclaves que queremos mudar a situação da saúde bucal da população, mas não somos, em medida suficiente, capazes de adquirir o conhecimento que para isso se exige, o Poder que é indispensável para alcançar a mudança. Do que se trata, na verdade, é revisar nosso conceito do que é um bom CD; substitui-lo, para forjar uma nova concepção da Prática Odontológica como prática social que deve englobar, necessariamente, todas as dimensões da cultura, obviamente o político e o econômico do desenvolvimento em saúde. É indispensável que o dentista e a profissão organizada ganhem peso político e com isso possam contribuir às mudanças que a saúde das pessoas exige. Só assim, então, veremos socialmente legitimada nossa razão de existir como profissão independente. Nesse empenho, as instituições universitárias que assumiram a missão de contribuir à formação integral de pessoas cultas no sentido aqui discutido lutam contra as pressões do simples profissionalismo que tende a reduzir a educação superior à capacidade para inserir-se no mercado, acomodando-se a seus mandatos, ao contrário de capacitá-los como cidadãos críticos e criativos dispostos a trabalhar por uma justa distribuição de bem-estar. Se verdadeiramente queremos ser úteis a nossos povos, temos que mudar, passar de homens com um título universitário de cirurgiões-dentistas, para ser Cirurgião-dentista, com o título de homens cultos quer dizer, cultivados para servir. * O prof. Roberto Beltrán docente desde 1955, é professor titular da Faculdade de Estomatologia da Universidade Peruana Cayetano Heredia, da qual foi gestor, fundador e primeiro Decano; consultor da Opas/OMS desde 1967; ex-diretor de Programas da Fundação Kellogg. É também assessor da Presidência da Fola/Oral; autor do livro "Educación en Odontología Manual del Profesor"; co-autor de "La práctica estomatológica en el Perú Encuesta Nacional" e tem em preparação a obra "Aprendizaje intensivo a dedicación exclusiva". |