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Diagnóstico: base da prática odontológica

Roberto Beltrán* - Lima (Peru)

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Em geral, a formação do CD, tanto ou mais que a do médico, centra-se no tratamento. A obsessão pelo tratamento conduz a cometer um dos maiores erros da prática odontológica, que é o de evitar os procedimentos diagnósticos corretos, tanto em amplitude como em profundidade.

A história clínica quase não existe na prática geral da profissão, reduzindo-se a uma ficha onde se anotam achados e propostas de tratamento. O interrogatório do paciente se faz junto à cadeira odontológica, que, certamente, não é o melhor lugar para realizar uma anamnese suficiente que ilustre o dentista e que deixe ao paciente a impressão favorável de que ele está sendo tratado como pessoa. Esta conduta inadequada que se observa à miúde na prática privada, na consulta pública chega a extremos de desinteresse por quem nesse momento é um ser humano em necessidade. Alí o interrogatório sobre o estado geral do paciente é negligenciado com demasiada freqüência.

Se o interrogatório é sumário, o exame clínico não é muito mais detalhado. De ordinário reduz-se a contar os dentes com lesões cariosas e a determinar as necessidades de Dentística ou Prótese. Os tecidos moles recebem escassa atenção, apenas as gengivas são motivo de interesse quando apresentam sinais evidentes de enfermidade ou são a causa da consulta.

É assim que a consulta odontológica carece das condições que deve ter um verdadeiro serviço de saúde. As orientações que o CD pode dar a seus pacientes sobre sua saúde geral e bucal, baseadas em um bom diagnóstico, podem fazer a diferença entre uma boa ou uma má prática profissional e entre a boa ou má impressão que recebe o paciente do dentista que o atende, pior ainda se esta apreciação se estende à profissão em seu conjunto.

Vejamos qual poderia ser uma correta atuação nesta etapa fundamental de trabalho do profissional da saúde.

Comecemos por afirmar que o reconhecimento do paciente deve ser o mais completo possível. O interrogatório sobre antecedentes e estado de saúde geral pode ser feito em parte mediante um questionário escrito que o paciente responde enquanto espera ser atendido. O odontólogo deve revisar as respostas antes de fazer entrar o paciente. Uma vez no escritório, se completará o interrogatório com aclarações do questionário e com perguntas adicionais que contribuam ao melhor conhecimento pessoal do paciente. Desta parte da história clínica deverá surgir uma primeira impressão diagnóstica sobre a condição de saúde geral e bucal.

Já na cadeira odontológica se realizará o exame sistemático da região oro-cervico-facial. A ordem e a minuciosidade do exame devem ser especialmente cuidadosas quando se tratar de uma primeira consulta. Quando o paciente for conhecido e freqüenta o consultório regulamente, é lógico que o processo seja um pouco abreviado, porém não até o ponto de evitar passos indispensáveis. Sempre se deve manter a atitude alerta própria de uma primeira consulta. Não é raro que com pacientes conhecidos se façam diagnósticos apressados guiados por uma falsa consciência de que em princípio não deve haver maior novidade. Esta conduta pode conduzir a graves omissões em prejuízo de pessoas que confiaram a nós o cuidado de sua saúde. Examinemos bem nossos pacientes e teremos trabalhado em beneficio do paciente e do nosso próprio prestígio profissional.

Duas são as fases do exame especializado que realiza o CD. O exame extra-oral que começa por una apreciação geral do paciente e conclui com a inspeção e apalpação minuciosa da região oro-cervico-facial. Especial atenção merece o exame apalpatório da Articulação Temporomandibular em repouso e em movimento, e da região submaxilar, submentoniana e cervical para o exame dos gânglios ali localizados.

O exame intra-oral deve seguir sempre a mesma ordem para não omitir nenhuma das estruturas que o integram. Preferimos fazê-lo com dois espelhos dentários, porém pode ser realizado também com dois palitos descartáveis. A inspeção assim executada nos levará a reconhecer qualquer sinal de anormalidade, incluindo a observação da qualidade e quantidade de saliva, o aspecto da mucosa bucal com suas variantes de lugar; o exame da língua em repouso e em movimento e a inspeção da oro-faringe. Em seguida, se realizará a apalpação de qualquer parte que apresente sinais de alteração que o requeira. Terminado o exame da mucosa bucal, serão examinadas as gengivas, para terminar com o estudo da oclusão dentária, o exame detalhado dente por dente e face por face e a exploração dos sulcos gengivais.

Os achados deverão se registrar na história e diagramas preferidos. Completados o interrogatório e o exame clínico, se determinará a conveniência de solicitar exames auxiliares, como por exemplo hemograma e radiografías. Em uma primeira consulta convém contar com uma radiografia panorâmica ou com uma série radiográfica periapical completa. Em consultas periódicas, o exame se completará com radiografías de haleta de mordida para a detecção de lesões cariosas novas ou recidivas, especialmente quando se instalaram pontes e coroas e controles periapicais em pacientes que tenham recebido tratamentos de canal. Quando o caso indicar, o exame se complementará com a tomada de impressões para modelos de estudo.

A partir do trabalho que realiza o odontólogo geral, pode surgir a necessidade de interconsultas com médicos ou colegas dentistas especializados. A oportuna referência e contra-referência é um direito do paciente e a adequada apresentação, perante a sociedade, de uma profissão capaz de trabalhar em colaboração para beneficio das pessoas.

Não esqueçamos que um bom diagnóstico garante um tratamento exitoso e contribui para construir o prestígio pessoal do odontólogo e social da profissão.


* O prof. Roberto Beltrán docente desde 1955, é professor titular da Faculdade de Estomatologia da Universidade Peruana Cayetano Heredia, da qual foi gestor, fundador e primeiro Decano; consultor da Opas/OMS desde 1967; ex-diretor de Programas da Fundação Kellogg. É também assessor da Presidência da Fola/Oral; autor do livro "Educación en Odontología – Manual del Profesor"; co-autor de "La práctica estomatológica en el Perú – Encuesta Nacional" e tem em preparação a obra "Aprendizaje intensivo a dedicación exclusiva".

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