![]() |
![]() |
| Ano III nº 33 - Segunda quinzena de janeiro de 2001 |
Odontologia: profissão elitista Roberto Beltrán* - Lima (Peru) |
![]() |
Uma das obrigações mais importantes de uma profissão é realizar periodicamente um exercício de autocrítica. Somente assim estará em condições de enfrentar com êxito as exigências das mudanças sociais, econômicas e políticas que afetam o chegar a ser das nações. As reflexões que seguem se inscrevem nesta linha de pensamento, com o objetivo de colaborar à construção de uma Odontologia superior. O desenvolvimento histórico da prática odontológica pode ser estudado utilizando-se como refe6encia o desenvolvimento da prática médica, com a qual guarda semelhanças e diferenças. Esta comparação pode ajudar a entender porque a Odontologia apresenta atualmente um padrão de prática particular. Um dos aspectos substanciais que diferenciam ambas as formas de exercício profissional é como se inserem no sistema hospitalar. Enquanto a Medicina se encarregou da condução e operação do hospital, e mais tarde de seus serviços periféricos, a Odontologia se isolou na prática privada. A medicina hospitalar sempre foi abrangente, ou seja, se ocupou de todos os males que afligiam os pacientes, utilizando o conhecimento disponível. O progresso das ciências básicas se projetou à prática médica hospitalar sem modificar sua condição holística. Conforme foi se aprofundando a atenção às enfermidades, tornando-se cada vez mais científica e crescendo em seu conteúdo, a Medicina iniciou um processo de necessária diversificação com a aparição das especialidades. O meio hospitalar foi incorporando progressivamente à prática especializada. A ninguém ocorreu deixar para a prática privada a exclusividade de algumas das especialidades. A Odontologia, centrada na atenção de problemas que podiam se conduzir na forma ambulatorial, aparece no meio hospitalar para atender alguns problemas associados à infecção e à dor. As necessidades de saúde que requeriam hospitalização, tais como traumatismos e fraturas, defeitos congênitos, infecções severas e neoplasias, necessitaram do correspondente desenvolvimento hospitalar como território propriamente odontológico, tanto que a colaboração médico-odontológica para a atenção de condições que requeriam tal colaboração veio a ser uma exceção na ocupação hospitalar. A Odontologia não fez o devido para que fosse necessária no sistema hospitalar com toda sua diversificação especializada, deixou para a prática privada suas especialidades mais "lucrativas". Por outra parte, o saber e as tecnologias clínicas mais complexas para atender problemas tais como as complicações da cárie dental, má-oclusões, rehabilitação, tratamento da doença periodontal e outros, foram pesquisados e desenvolvidos fora do sistema hospitalar em um meio isolado: a Clínica Odontológica Universitária. Assim como a prática privada da Odontologia se manteve separada do hospital para a maior parte de sua atividade clínica, as clínicas odontológicas universitárias mantiveram uma distância estranha com respeito ao meio hospitalar. Este afastamento teve conseqüências funestas para a população e para a profissão: contribuiu para elitizar a atenção odontológica em sua concepção integral já que, ausente do hospital, não depositou sua diversificação especializada para atender as grandes massas que se utilizam da rede hospitalar. Nunca saberemos quanto perdeu a Odontologia, como saber e como prática, por afastar-se da corrente central do desenvolvimento sanitário. O exercício odontológico no hospital passou a ser uma espécie de serviço auxiliar que se instaurou apenas para responder à pressão da demanda social. Obviamente, a situação do odontólogo que o confinava à consulta externa, não lhe deu espaço real nos níveis de organização e condução do sistema sanitário. Longe do centro de poder hospitalar, o odontólogo se limitou a cumprir com seu horário der trabalho para voltar rapidamente à sua prática privada. Como sabemos, as exigências impostas pelo progresso tecnológico e pela demanda social obrigaram a ampliar o sistema hospitalar. A aparição de serviços escalonados por níveis de complexidade resultou na ampliação espacial da prestação de serviços de saúde. Neste novo modelo a Odontologia repetiu o que vinha fazendo no hospital: limitou-se à atenção da cárie dental e suas complicações menores. Outros possíveis desenvolvimentos da atenção odontológica ambulatória -que neste novo modelo poderia ter alcançado uma grande amplitude social - permaneceram fora das considerações organizativas e orçamentárias dos sistemas de saúde. A Odontologia não pôde demonstrar a necessidade de estar presente no interior da rede de serviços periféricos com todo seu potencial científico e tecnológico, especialmente no terreno preventivo-promocional. Devemos admitir criticamente que, como profissão, a Odontologia não mostrou interesse por levar à população em geral a bagagem completa de seu desenvolvimento científico e tecnológico. Portanto, não resulta absurdo questionar a legitimidade social de uma profissão que manteve secularmente uma visão elitizada de seus serviços. Uma profissão, que consentiu em que somente aqueles que pudessem ser atendidos particularmente tivessem direito desfrutar de uma atenção integral de sua saúde bucal, se mutilou socialmente na medida em que seu impacto sobre os indicadores epidemiológicos e sobre a qualidade de vida das pessoas resultou insignificante. O reconhecimento dos feitos desta história e sua pesquisa sociológica e antropológica resultam indispensáveis para restabelecer o futuro da Odontologia vista como profissão de serviço. Neste sentido, é indispensável determinar as perguntas de maior transcendência para recolocar a Odontologia no contexto de desenvolvimento social das profissões da saúde. A Odontologia deve mostrar à comunidade sua disposição e capacidade para entregar-lhe todos os serviços que permitam seu atual e futuro desenvolvimento. Este é o desafio para as novas gerações. A incorporação da Odontologia integral no modelo de serviços de saúde destinados a toda a comunidade tornará possível seu maior desenvolvimento como profissão e de amplos horizontes científicos tecnológicos, de impacto e autêntica legitimidade social.
* O prof. Roberto Beltrán docente desde 1955, é professor titular da Faculdade de Estomatologia da Universidade Peruana Cayetano Heredia, da qual foi gestor, fundador e primeiro Decano; consultor da Opas/OMS desde 1967; ex-diretor de Programas da Fundação Kellogg. É também assessor da Presidência da Fola/Oral; autor do livro "Educación en Odontología Manual del Profesor"; co-autor de "La práctica estomatológica en el Perú Encuesta Nacional" e tem em preparação a obra "Aprendizaje intensivo a dedicación exclusiva". |