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DENTISTA... CULTO (?)

Roberto Beltrán* - Lima (Peru)

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A globalização começou em 1942 quando Colon pisou terra americana. Desde então, os países melhor dotados para a guerra impuseram suas condições ao resto do mundo conhecido. A riqueza, que antes do século XV estava concentrada no Hemisfério Sul, tanto Ocidental como Oriental, foi levada até o Norte mediante a imposição do domínio colonialista. A partir de então, nossos países latino-americanos não cessaram de tornar-se cada vez mais dependentes.

A globalização, que no fundo é de natureza econômica, alcança hoje características singulares com a ajuda dos meios modernos de comunicação, sempre nas mãos de países mais desenvolvidos tecnologicamente e, portanto, melhor equipados para impor suas condições.

A Odontologia latino-americana, como possibilidade de gerar excedentes, não se salva do império da globalização e enfrenta, hoje, sob condições que tendem a piorar aceleradamente, um colossal perigo que tem características apocalípticas. Os quatro cavaleiros estão frente a nós, com o agravante de que muitos não os vêem e outros, mais avisados, sobem em um destes ferozes corcéis para prosperar em meio à catástrofe.

A peste - Tem características epidêmicas de alta virulência e rápida expansão. A globalização impõe condições ao profissional da Odontologia, fixa-lhe tarifas para cada tratamento, envia-lhe ou não pacientes, paga-o com atraso, e em definitivo, transforma-o em um trabalhador por empreitada, que ademais deve investir seus recursos para dispor de equipos e instrumentos. O dentista tem sido despojado de sua condição de trabalhador independente construtor de seu prestígio profissional. É a empresa ideal, enriquece sem investir na preparação dos recursos humanos nos instrumentos de produção. A peste tem-se estendido por toda a América Latina com uma rapidez impressionante em menos de vinte anos, mediante a expansão dos seguros privados.

A fome – Do que pagam os pacientes por seus seguros, porcentagens baixíssimas vão para o dentista que presta o serviço. Isto obriga o profissional a multiplicar o número de unidades de atenção, não poucas vezes dando as costas aos critérios éticos, que a partir de um diagnóstico seguro estabelece o plano de tratamento que melhor convém ao paciente. Agora, o tratamento se faz pensando, não no paciente, mas sim na soma que obterá o odontólogo por seu trabalho uma vez despojado da maior parte por ação de intermediários que antes não existiam.

A guerra - Sob a tirania das leis de mercado, a concorrência se faz cada vez mais severa e desumana. Os profissionais fazem uso de qualquer recurso para competir entre si a fim de ganhar o favor dos intermediários. Estes, aproveitando o excesso de mão-de-obra disponível, estimulam a concorrência entre os profissionais para incrementar suas margens de lucro à custa do esforço do dentista, que tem que trabalhar muito mais – e menos bem – para ajustar suas tarifas ao mercado. Ainda mais, o dentista vencido por esta tendência se converte também em intermediário, contribuindo à exploração do trabalho daqueles colegas que não têm o equipo ou que não acedem às empresas intermediárias.

A morte – O exercício ético da profissão está em grave perigo. A irrupção do afã de lucro pelos intermediários da atenção odontológica está deformando a tal ponto o trabalho no campo da saúde, que a Odontologia e também a Medicina, tal como as conhecíamos em meados do século XX, não existem mais, se extinguiram. As novas formas, conduzidas por um materialismo extremo, deixaram para trás qualquer rasgo de humanidade. Neste holocausto das profissões também prospera o enorme exército de empíricos, de todas as classes e procedências, que atua impunemente prejudicando de modo irremediável a saúde das pessoas.

Os corcéis em que cavalgam os quatro cavaleiros do apocalipse odontológico são:

  • A criação indiscriminada de faculdades e escolas de Odontologia, com a conseqüente formação de um enorme contingente de substituição.

  • A intermediação do capital, que se aproveita do paciente e do dentista para lucrar em prejuízo da população, fomentando a acumulação e a extração de capital, com o conseqüente empobrecimento do país.

  • A proliferação do empirismo, conseqüência da ignorância e da deterioração econômica da população, a mesma que busca nos menores preços uma solução para seus problemas de saúde bucal.

  • O individualismo dos odontólogos, que os isolou como grupo sem poder político e que até agora tem tornado inviáveis as tentativas de unir forças para opor alternativas idôneas à voracidade insaciável da globalização econômica.


* O prof. Roberto Beltrán docente desde 1955, é professor titular da Faculdade de Estomatologia da Universidade Peruana Cayetano Heredia, da qual foi gestor, fundador e primeiro Decano; consultor da Opas/OMS desde 1967; ex-diretor de Programas da Fundação Kellogg. É também assessor da Presidência da Fola/Oral; autor do livro "Educación en Odontología – Manual del Profesor"; co-autor de "La práctica estomatológica en el Perú – Encuesta Nacional" e tem em preparação a obra "Aprendizaje intensivo a dedicación exclusiva".

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