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| Ano
III - Nº 45 - Segunda quinzena de outubro de 2001 |
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Paulo Capel Narvai * |
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Vem aí mais um "dia do cirugião-dentista" e, com ele, as manifestações próprias da data: algumas comemorações (com direito a jantares-dançantes...) e uma ou outra voz reclamando reflexão sobre os problemas de "saúde bucal" da população, a "insensibilidade da classe" e a necessidade de "fazer alguma coisa". Fazer alguma coisa vem, às vezes, num tom irado e impaciente. Quando me dou conta de algumas coisas que se propõem temo pela população "beneficiada" e pela "classe"... Fico com a certeza de que seria melhor não fazer nada. Mas isto é assunto para outro dia. Quero deter-me na expressão "saúde bucal" que, com insistência cada vez maior, vem sendo utilizada por leigos e especialistas. Percebo que "saúde bucal" é uma expressão muito presente no discurso odontológico atual sobretudo nas falas de lideranças da categoria, as quais parecem não ter qualquer dúvida quanto ao fato de que a "saúde bucal" das populações "depende do trabalho dos cirurgiões-dentistas". Lamentavelmente não compartilho dessa crença, embora não tenha nenhuma dúvida sobre a importância social do nosso trabalho. Trabalhando recentemente no capítulo de "saúde bucal" de um livro sobre saúde de idosos, que está sendo escrito a partir de dados obtidos numa ampla pesquisa realizada no município de São Paulo no ano 2000, fui procurar nos livros de patologia, semiologia, propedêutica e outros, um conceito que me auxiliasse na tarefa. Estava interessado também no conceito de "incapacidade bucal", outra expressão com a qual às vezes me defronto. Nada feito. Tive a maior dificuldade. Ou havia pura e simples omissão como se os autores acreditassem que nada precisava ser conceituado ou as definições e conceitos deixavam muito a desejar, a ponto de não se prestarem às citações que eu pretendia fazer. Depois de muito procurar, rendi-me: teria eu mesmo de construir os conceitos necessários ao capítulo que estava escrevendo. Como o livro ainda vai demorar para ser lançado, gostaria de, desde já, compartilhar dois conceitos com o leitor, supondo que, eventualmente, possam interessar e/ou ter alguma utilidade mesmo que não estejam "quebrando a cabeça" para escrever algum capítulo... Comecemos pela "saúde bucal". Quero crer que quando a utilizamos, estamos nos referindo a um conjunto de condições objetivas (biológicas) e subjetivas (psicológicas), que possibilita ao ser humano exercer funções como mastigação, deglutição e fonação e, também, tendo em vista a dimensão estética inerente à região anatômica, exercitar a auto-estima e relacionar-se socialmente sem inibição ou constrangimento. Essas condições devem corresponder à ausência de doença ativa em níveis tais que permitam ao indivíduo exercer as mencionadas funções de modo que lhe pareçam adequadas e lhe permitam sentir-se bem, contribuindo desta forma para sua saúde geral. Essa vinculação da "saúde bucal" com a saúde geral foi, a meu ver, muito bem assinalada tanto na I (1986) quanto na II Conferência Nacional de Saúde Bucal (1993), ambas realizadas em Brasília. No Relatório Final da II CNSB, afirmou-se que "a saúde bucal é parte integrante e inseparável da saúde geral do indivíduo e está relacionada diretamente com as condições de saneamento, alimentação, moradia, trabalho, educação, renda, transporte, lazer, liberdade, acesso e posse da terra, aos serviços de saúde e à informação." Sendo minha concordância total com essa assertiva, não poderia mesmo acreditar que a "saúde bucal" das populações é produzida (apenas) pelo trabalho dos dentistas. Parece-me ou simplificação ou ingenuidade acreditar nisso prefiro não pensar que ao fazê-lo alguns estejam simplesmente agindo de má-fé... Admitindo-se, então, o referido conceito de "saúde bucal", pode-se avançar no esclarecimento da expressão "incapacidade bucal". Parece-me que neste aspecto os cirurgiões-dentistas têm "melhor sorte" do que em relação à produção da "saúde bucal", uma vez que amplia-se bastante a possibilidade de intervenção eficaz. Parece-me adequado conceituar "incapacidade bucal" como uma condição definida pela impossibilidade, transitória ou permanente, de exercer uma ou mais das funções de mastigação, deglutição ou fonação e, também, pelo comprometimento estético. O grau da incapacidade, sua abrangência e evolução são variáveis de indivíduo para indivíduo, segundo o tempo, as características clínicas, as possibilidades terapêuticas e a inserção social de cada um. Uma das maiores dificuldades que temos, no Brasil, para que o trabalho odontológico possa contribuir, efetivamente, para a diminuição das incapacidades bucais relaciona-se à "inserção social de cada um", com nossos vastos contingentes de excluídos sociais. Assim, as tarefas de ampliação da inclusão social estão a desafiar a um só tempo, tanto o profissional cirurgião-dentista quanto, sobretudo, o cirurgião-dentista cidadão brasileiro. * Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. |