artigos.gif (4618 bytes) logjornal.gif (4234 bytes)

Ano V - Nº 59 - Janeiro de 2003


Meu Sorriso do Ano — 2002

Paulo Capel Narvai *



paulocapel.jpg (8910 bytes)

 

E o Prêmio Sorriso do Ano de 2002 vai para... Calma, leitor. Não, você não está no programa errado, nem se enganou de coluna. Tenho me ocupado, neste espaço, de temas a meu ver muito importantes e que, creio, dizem respeito e interessam a muita gente. São assuntos relacionados às políticas de saúde bucal, às práticas de prevenção, às questões de epidemiologia e de saúde pública, entre outros. Mas aposto que você também gostaria de ler neste espaço algo assim, digamos, mais leve, nesta época de virada de ano.

Pensei então num virtual Prêmio Sorriso do Ano e, antes de me pôr a selecionar o(a) felizardo, que evidentemente não ganhará concretamente nada com a indicação, resolvi conferir se um prêmio desse tipo não havia sido criado. Conferência feita, decepção. Admito que fiquei com um "sorriso amarelo"... Desde 1995 a Sociedade Brasileira de Odontologia Estética (SBOE) elege anualmente o Sorriso do Ano. Nomes como Helena Ranaldi, Thaís Araújo, Maria Fernanda Cândido e Giovanna Antonelli (a escolhida em 2002) estão, com todo merecimento, entre os galardoados.

Mas a julgar pelos agraciados até agora a SBOE é super "técnica", adota critérios bem rígidos e, por dever provavelmente estatutário, se atém a requisitos estéticos. Compreende-se. Mas alguns tipos de sorrisos, como o "sorriso amarelo" por exemplo, nunca terão a menor chance na eleição da entidade... E por que um sorriso amarelo não poderia, em certas circunstâncias, ser eleito o Sorriso do Ano? Depende... Assim, resolvi criar um prêmio, digamos, alternativo: o Meu Sorriso do Ano que, sendo meu, pretendo seja menos técnico e menos odontológico. Virtual e destinando-se exclusivamente ao diálogo com o leitor, certamente não concorrerá com a distinção conferida pela SBOE — que, aliás, tem todo o meu respeito.

Bom, criado o prêmio vem a tarefa mais difícil: escolher o primeiro agraciado. E logo se vê que é uma enorme responsabilidade, pois não se trata de uma expressão qualquer, por qualquer um, em qualquer lugar. Único ou repetido, tem de ser significativo e, pela expressão, "falar", comunicar algo relevante. E se será "do Ano" (e Ano com maiúscula!) é preciso cautela. Requer também, preliminarmente, fixar uma definição para "sorriso". Antes de quebrar a cabeça recorri ao Aurélio. Está lá: "Sorriso – S.m. 1. ato ou efeito de sorrir(-se); 2. Movimento e expressão de um rosto que sorri." Então, fui conferir a definição do mestre para "sorrir". Há várias mas, por economia, fico com a primeira: "rir sem ruído; rir de leve, apenas com uma ligeira contração dos músculos faciais". No verbete "rir" também há menção aos "músculos faciais". Conclui que a definição estava mais para a SBOE do que para algo alternativo.

Mas repare. (Aprendi com amigos baianos a importância de "reparar" que, como se sabe, é muito utilizado, na Bahia mais do que em qualquer outro lugar, com o sentido de "preste atenção".) Pois, rapaz, repare: que tal lhe parece um sorriso sem dentes? Nada bom, não é? Sorriso tem de ter dentes, certo? Apesar da recorrência dos "músculos faciais" nas definições, convenhamos que sem dentes não há sorriso que resista. Logo, sem dentes, é pouco provável que alguém seja algum dia vencedor do prêmio Meu Sorriso do Ano — afinal, nem tanto a "radicalidade" técnica da SBOE mas, também, nem tão alternativo assim...

Pois não é que percorrendo os verbetes "sorriso", "sorrir" e "rir" dessa obra monumental que é o Aurélio não se encontra, nas definições, uma vez sequer, a palavra "dente". Talvez a elegância de estilo tenha impedido o professor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira de radicalizar no pop e desferir um certeiro "sorrir é mostrar os dentes com alegria". Esse "com alegria" é fundamental pois mostra-se os dentes de várias formas e por várias razões — muitas das quais nada têm a ver com sorriso. A exceção, conforme mencionado, é o conhecidíssimo "sorriso amarelo" o qual, nas manifestações extremas, mal permite a exposição dos dentes. Assim, escolher um sorriso é tarefa dificílima, pois exige levar em conta uma gama enorme de fatores. No caso deste prêmio alternativo, mais ainda, já que até "sorrisos amarelos" devem ser levados em conta. Sim, porque há sorrisos amarelos de grande expressividade e altamente significativos...

(Devo esclarecer que não me passou desapercebida a existência de uma variante complexa do sorriso: trata-se do "sorriso por dentro", decorrente da sensação de estar "sorrindo por dentro". Mas é preciso reconhecer que é uma variante nada expressiva e cujo significado é praticamente impossível a um terceiro decifrar. Eu mesmo já fiquei "sorrindo por dentro" várias vezes vida afora, sem que ninguém em volta percebesse. Por isso, é preciso admitir: não há qualquer chance de algum "sorriso por dentro" dar o galardão a alguém, seja no concurso da SBOE, seja aqui...)

Mas você, caro leitor, deve estar se perguntando: afinal, quem foi o escolhido? Tenho vontade de devolver a pergunta: quem você escolheria? (aliás, gostaria imensamente de contar com sugestões para esta tarefa para o ano de 2003. Fique à vontade para se manifestar e mandar sua contribuição) Mas o dever do ofício me obriga a uma decisão.

Parti de uma lista contendo algumas dezenas de nomes e as sucessivas eliminações levaram 4 à última etapa: desses 4, a) descartei o "seu Creysson", personagem do casseta Cláudio Manoel, um dos maiores sucessos de público de 2002 e portanto forte concorrente, pela obviedade; b) considerei a possibilidade de Lula, mas a combinação de "rir à-toa" com os vários episódios de choro empanando o quesito "alegria" acabaram por fulminar sua candidatura — pelo menos neste "processo eleitoral"; c) no início de julho meu coração "canarinho" dava como certa a eleição de Ronaldo, reforçada em dezembro com o título mundial do Real Madri. Mas há aquele diastema... Ainda que se rendam ao craque todos implicam com aquele espaço. No dia seguinte à sua eleição, em 17 de dezembro, como melhor jogador de futebol do mundo pela FIFA, El País, o prestigioso jornal espanhol, disse em manchete: "Ronaldo impõe seu sorriso". Até nessa hora o diastema marca presença... E como o Ronaldo ganhou quase tudo que disputou, resolvi fazer "discriminação positiva" e, por isso, ele também não foi o agraciado.

E então o Prêmio Meu Sorriso do Ano — 2002 vai para... o Robinho! Isso mesmo: para o endiabrado atacante do Santos Futebol Clube. Se suas estripulias em campo atormentaram os adversários e fizeram a delícia dos santistas e dos admiradores do futebol (inclusive suas "vítimas" como os corintianos como eu...), seu sorriso é, parece-me, como o Santos de 2002, imbatível. E leva o prêmio pelo conjunto do sorriso espontâneo, em cujo centro estão os dentes, perfeita tradução da definição popular "mostrar os dentes com alegria". Após a conquista do campeonato brasileiro, em 15 de dezembro, não faltaram referências, na imprensa e nos bares da vida, à origem social do atleta. Teria nascido em Santos, pobre, vida difícil, dificuldades alimentares e na escola... E dentes perfeitos. Milagre? Não. Seu sorriso não é um improvável sorriso, não é um milagre, não é obra do acaso. Resulta de vários fatores mas, a meu ver, principalmente de políticas de saúde pública: flúor na água, vigilância sanitária, creme dental fluorado, ações preventivas e educativas em escolas públicas... Há milhares de sorrisos Robinhos em Santos — pena que só o Robinho jogue essa bola toda.


* Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista e mestre e doutor em Saúde Pública. É também professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e autor de Odontologia e Saúde Bucal Coletiva (Ed.Santos, 2002).

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO