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| Ano
V - Nº 82 - Março de 2004 - 1ª Quinzena |
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Paulo Capel Narvai* |
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Foi um susto. Levo muitos sustos lendo jornais. Mas não tem jeito: é preciso ler jornais. A profundidade de espelho d’água que caracteriza o noticiário de rádios e TVs (sim, há exceções — raríssimas mas há) obriga à leitura de jornais todos que aspiram a alguma perspectiva crítica em seu estar no mundo. Claro que não é tarefa fácil. Freqüentemente gente como Mister Dáblio Bush ou Silvio Berlusconi nos brindam com declarações dignas de um... Aznar, o luminoso “presidente del gobierno” espanhol. Nem falo de certas declarações de compatriotas “geniais” pois aí o artigo teria de ser dedicado exclusivamente a isso... E temos, eu e você leitor, mais o que fazer, certo? Escrevo motivado por um susto. Já me habituei com a culpa das mães. Tenho dito que a Odontologia demorou mas, finalmente, achou um jeito de também culpar as mães. Não deve ser fácil ser mãe nas nossas sociedades ocidentais. Mas, como dizia, já não me espanta encontrar textos — uns melhores outros sofríveis — onde as mães são apontadas como responsáveis pelas cáries dos seus filhos por lhes transmitirem os S. mutans, o principal microrganismo envolvido no complexo causal da cárie dentária. É matéria complexa e não vou aborrecer o leitor com isso. Então, eis a razão do meu susto: folheando a Folha de S. Paulo de 5/2/04 (caderno Equilíbrio, página 3) deparei-me — eu que beijo e sou beijado — com a informação de que “as bocas dos namorados são uma fonte incrível de cáries!” — isso mesmo; assim com ponto de exclamação e tudo. Reagi: “Ah, então tá! Além das mães também as(os) namorados(as) são culpados! Que alívio! Era mesmo uma carga enorme para as mães! Muita responsabilidade! Agora, pelo menos, as pobres mães têm com quem dividir essa culpa!”. (Peço desculpas por tantas exclamações mas acho que isso pega, sei lá, de repente fui tomado por um incontrolável ímpeto exclamativo... Incrível!) Refeito do susto, meu pensamento foi parar em considerações sobre as relações ciência-tecnologia e sobre deduções para as coisas do dia-a-dia que se fazem de certos conhecimentos científicos. E tive um sobressalto: já pensou, leitor? Um mundo onde mães não beijam seus filhos — para que não tenham cáries — e enamorados não se beijam — para evitar “fontes incríveis de cáries”. Nunca mais roubar um beijo, nem no escurinho do cinema nem num canto qualquer... Mundo lindo, não? Todo mundo sem cáries! Todos a salvo, protegidos, hígidos, sãos... Como no paraíso. Um mundo sem beijos, sem lambidas nem lambidelas. Sorveduras? Nem pensar. Então, refeito do sobressalto, sobreveio o pesadelo... (Pobre Odontologia essa que não consegue ver para além de molares e caninos). Em tempo: Num beijo há troca de saliva, e saliva contém S.mutans. Logo, S.mutans são trocados. Mas todos temos S.mutans e tê-los é condição necessária mas não suficiente para que cárie se desenvolva. Para isso, há envolvimento, em variados graus, de muitos (mas muitos mesmo!) outros fatores... Logo, 'transmitir S.mutans' não é a mesma coisa que 'transmitir cárie'. *Paulo
Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e doutor em Saúde
Pública. Professor associado da Universidade de São Paulo. Autor de Odontologia e Saúde
Bucal Coletiva (Ed.Santos, 2002). |