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| Ano V - Nº 89 - Agosto de 2004 |
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Dois hinos,
uma conferência
Paulo Capel Narvai* |
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Ouvir o Hino Nacional Brasileiro emociona sempre. Mas houve situações em que ouvi-lo me deixou muito emocionado. Houve tempo em que ditadores pretenderam se apropriar do Hino. Como mandavam e desmandavam, passaram a achar que símbolos nacionais lhes pertenciam. Durante a ditadura militar, por exemplo, ”maus brasileiros”, “terroristas”, “subversivos” não seriam dignos dele... Naquele período, ouvir o “Verás que um filho teu não foge à luta” tinha conotação especial em atos pela anistia – que teria de ser “ampla, geral e irrestrita”. Mas “Verás que um filho teu...” é mesmo atemporal, pois sempre emociona um pouco mais por alguma razão especial em diferentes contextos históricos. No final dos anos 70 o Hino me emocionou, um pouco mais, com a volta dos exilados. “E diga o verde louro dessa flâmula: paz no futuro e glória no passado”. Sim, havia glória no passado recente, por mais que fascistas e torturadores, então ainda poderosos, tentassem negar...
Mas vivi, há poucos dias, um desses momentos em que o Hino me emocionou um pouco mais. Foi na 3ª. Conferência Nacional de Saúde Bucal (CNSB), realizada em Brasília, no finzinho de julho, começo de agosto. O Hino foi cantado duas vezes na 3ª. CNSB. A primeira vez, na abertura do evento, com a presença de alguns ministros e várias autoridades. Emocionou como sempre. Mas o Hino que arrebatou foi o cantado no encerramento da conferência.
Vou contar.
Encerrada a discussão e aprovação do Relatório Final, tudo se encaminhava para o tradicional “Declaro encerrada a 3ª. Conferência Nacional...” que alguém diria, em nome do Conselho Nacional de Saúde, para fechar oficialmente a conferência. Mas alguém do povo, do meio do plenário, tomou as mãos dos que estavam ao seu lado e soltou a voz. Foi uma espécie de Jamelão da causa da saúde, “puxando” o Hino. A plenos pulmões mandou o primeiro verso do Hino. Quando os demais reconheceram a melodia e escutaram o “Ouviram do Ipiranga...” então aconteceu. Imediatamente dezenas, centenas, mais de mil, puseram-se a entoar o Hino Nacional Brasileiro. Em alguns segundos mais de mil vozes, e forte emoção, tomaram conta do salão-auditório do Brasília Minas Tênis Clube, onde ocorreu a 3ª. Conferência Nacional de Saúde Bucal.
Então, vi lágrimas em alguns olhos conhecidos. Discretas – até onde lágrimas podem ser discretas. Mas estavam lá as lágrimas. Sobre “nó na garganta” não posso falar nada. Mas suponho muitos... Claro que em minha cabeça girava um turbilhão. Pensei imediatamente em tantos que deveriam estar lá para ver e vibrar com aquele momento – e não estavam. São muitos, entre os quais, Sérgio Pereira, Walter Robinson, Adriano Freire, Silvio Gevaerd, Alfredo Viegas... Não estavam fisicamente, mas claro que estavam lá. Impossível admitir uma conferência de saúde bucal que não traga, de algum modo, algo desses batalhadores da saúde coletiva. Meus olhos, não só naquele, mas em alguns outros momentos da conferência, marejaram por eles...
No entanto, no momento do Hino, na plenária final, a maioria dos olhos brilhava. Luzia neles aquele brilho típico dos momentos de significado mais profundo em nossas vidas. Todos ali sabiam que estavam vivenciando um momento histórico, especial, inesquecível, que os marcará para sempre.
Vivi, digamos assim, “por dentro” essa 3ª. CNSB. Como relator geral da conferência acompanhei, passo a passo, todo o processo. Acompanhei o planejamento geral e acompanhei cada detalhe das atividades de relatoria. Ao meu lado, cerca de 30 relatores que se incumbiram de sintetizar as propostas que emergiram das conferências municipais e regionais e das 27 conferências estaduais (aproveito também este espaço para, uma vez mais, agradecer-lhes a dedicação e a fidelidade aos delegados). Na etapa nacional, realizada de 29 de julho a 1º de agosto, tudo passou pelo crivo de 883 delegados, sob o olhar vigilante de 3 centenas de convidados e observadores. No final, esses delegados, eleitos nas conferências estaduais, “assinaram” um detalhado documento contendo dezenas de proposições aos governos, das três esferas, e à sociedade brasileira, com o objetivo de melhorar a saúde bucal de todos.
Nessa função de relator geral não dormi entre o crepúsculo do sábado, 31 de julho, e a alvorada do primeiro domingo de agosto. Atravessei a noite coordenando os trabalhos da comissão de relatoria. Mas não dormir teve uma belíssima recompensa. Ao lado dos colegas professores Paulo Frazão e Celso Zilbovicius, vi o sol rompendo a linha do horizonte e rasgando a fria manhã do Planalto Central, às margens do lago Paranoá, logo depois que concluímos nosso trabalho naquela noite-madrugada. Uma imagem para não esquecer.
Pouco depois, ainda sonolento, estava de volta ao grande auditório do Brasília Minas Tênis onde se desenvolvia a plenária final da 3ª. CNSB. Nem o sono nem o cansaço impediram que, horas depois, o Hino Nacional me comovesse tanto – a mim e a todos os presentes. O Hino tocou a todos, embora cada um ali tivesse seus motivos mais profundos para tanta emoção. Foi uma bela cena pondo um ponto final numa bela construção coletiva.
O leitor me perdoe se pareço exagerado, mas não poderia falar de outra coisa, nem de outro modo, dessa 3ª. CNSB, nesse momento.
Todos esperamos agora que esse conjunto de proposições aprovado em Brasília nos ajude nas batalhas diárias pela saúde bucal dos brasileiros. Saúde bucal de todos os brasileiros. Vale assinalar que, muito oportunamente, o tema central dessa conferência foi “Saúde bucal: acesso e qualidade, superando a exclusão social”.
Tenho dito que constam do Relatório Final da 3ª. CNSB algumas proposições “bem ruinzinhas”. Já ouvi gente reclamando que algumas propostas “são um atraso”. Pode ser. Mas em compensação estão lá outras tantas teses que, sem dúvida, nos ajudarão (e muito!) nessas batalhas cotidianas. O conjunto das propostas, entretanto, expressa muito fielmente o que foi a conferência. Nem mais, nem menos. A 3ª. CNSB traduziu com grande fidelidade a nossa situação, o “pé” em que estamos na área de saúde bucal no Brasil. Foi, nesse sentido, a nossa cara. E com direito a dois Hinos.
* Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista, mestre e doutor em Saúde Pública e professor associado (livre docente) da Universidade de São Paulo. É autor de Odontologia e Saúde Bucal Coletiva (Ed.Santos, 2002). Presidente do Conselho Deliberativo da Associação Paulista de Saúde Pública (APSP). |