|
![]() |
Os políticos andam em
baixa. Talvez por isso a morte do ex-governador de São Paulo, André Franco Montoro, no
último dia 16, tenha tido pequena repercussão e tão poucos a lamentaram. Mas os
brasileiros de bem, os cidadãos preocupados com os rumos que nossa sociedade vem tomando,
perceberam que há muito a lamentar nessa perda. A meu ver duas ações do mais alto significado foram desenvolvidas no governo Montoro: a fluoração das águas de abastecimento público da região metropolitana de São Paulo, incluindo a Capital, e a "fixação de dentistas no interior". Havia em 1983 mais de 200 municípios paulistas sem um único cirurgião-dentista residente. A ação de Montoro foi decisiva para alterar esse quadro. A fluoração das águas não se limitou à Grande São Paulo mas nessa região o desafio operacional era maior e as resistências políticas também. Recebíamos na Secretaria de Estado da Saúde várias manifestações contrárias ao início da fluoração. Alegava-se de tudo: ineficácia, engodo científico, medicação em massa, custo elevado, insegurança sanitária da medida, demagogia de políticos, desatualização científica dos técnicos da área. As pressões iam até o Palácio dos Bandeirantes. Montoro resistia. As pressões, de cirurgiões-dentistas, médicos e entidades "ambientalistas" aumentavam. Montoro resistia. Convidado, foi à sede da Associação Paulista de Cirurgiões-Dentistas falar do projeto de fluorar a Grande São Paulo e ouvir os dirigentes das entidades odontológicas. Obtido o "sim" dos dentistas, confirmando o que estava em seu programa de governo foi em frente: em 31 de outubro de 1985 iniciou-se oficialmente a fluoração das águas da Capital. Em 16 de julho de 1999, no dia em que faleceu Montoro, a Secretaria de Estado da Saúde e a Faculdade de Saúde Pública da USP anunciaram alguns resultados de uma pesquisa epidemiológica realizada com a participação de pesquisadores de 14 faculdades de Odontologia de São Paulo e de aproximadamente 350 cirurgiões-dentistas e auxiliares, inclusive das secretarias municipais de saúde. A investigação científica abrangeu as 24 regiões de saúde de São Paulo com atividades em 133 municípios. Foram examinadas 89.114 pessoas, das quais 6.578 crianças de 5 anos de idade, 9.327 escolares de 12 anos de idade, 5.195 adolescentes de 18 anos, 5.778 trabalhadores do grupo etário de 35 a 44 anos de idade da área de educação, e 4.895 idosos de 65-74 anos. As atividades de campo se desenvolveram no período de agosto a dezembro de 1998. O principal resultado da pesquisa tem muito a ver com decisões e com ações de Montoro: no período 1982-1998 a cárie dental, principal problema de saúde bucal no Brasil, teve um declínio da ordem de 48% entre crianças do estado de São Paulo. A redução atingiu 69% aos 7 anos de idade e 48% na idade-índice de 12 anos. Nessa idade o CPO-D era de 7,1 em 1982 e caiu para 3,7 em 1998. Segundo a classificação de prevalência de cárie dental da Organização Mundial da Saúde (OMS) para 12 anos de idade, esta era considerada "muito alta" em 1982, passando a "moderada" em 1998. Entre as crianças que freqüentam escolas privadas, o CPO-D médio aos 12 anos foi 1,7. Este valor permite incluir esse segmento na faixa de "baixa" prevalência de cárie. Nas escolas públicas, apenas 19% dos escolares apresentam CPO-D=0. Essa porcentagem eleva-se para 47% entre os que freqüentam escolas privadas. Entre as crianças que vivem em áreas com flúor nas águas de abastecimento público o CPO-D registra 3,2 contra 4,5 observado em áreas sem esse benefício. Nessa situação, de "moderada" a prevalência sobe para "alta". Em municípios de pequeno porte demográfico, sem flúor na água, o CPO-D foi 4,8 caindo para 2,5 em municípios de grande porte que têm suas águas fluoradas. Considerando-se os componentes do índice CPO-D na idade de 12 anos, houve uma inversão no período 1982-1998: em 1982 predominava o componente cariado ("C"), correspondendo a 58% do total de dentes com experiência de cárie. Os restaurados (componente "O") correspondiam a 35%. Em 1998 o componente "O" predominou com 61% enquanto o componente "C" correspondeu a 36%. Os dentes extraídos (componente "P") que correspondiam a aproximadamente 7% dos dentes atingidos por cárie em 1982 tiveram sua participação relativa diminuída para cerca de 3%. Mesmo quando se considera apenas a situação entre os escolares que freqüentam escolas públicas essa inversão ocorre. São números alentadores: houve declínio na prevalência da cárie e, em relação aos dentes atacados, menos dentes têm sido extraídos e dobrou a participação proporcional das restaurações. Nesse aspecto, cabe destacar que os valores do CPO-D nas idades de 6 a 12 anos e aos 18 anos de idade são menores, em todas as idades, nos municípios com acesso à água fluorada, quando considerados em conjunto. Centenas, provavelmente milhares de pessoas, são responsáveis por esta importante conquista da saúde pública em São Paulo. Montoro foi uma dessas pessoas. Suas ações e decisões produziram esses efeitos. Pode-se até argumentar que isso é pouco e que tais decisões não foram assim tão difíceis de tomar. Pode ser: só que antes dele, ninguém as tomou. Essa, a diferença. * Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. |