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Odontogênese laboratorial

Paulo Capel Narvai

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O que o futuro reserva para os profissionais de Odontologia? Como será a nossa prática daqui a 50 anos? Existirão dentistas no século XXIII? E daqui há... 10 anos, o que estaremos fazendo? Esse monte de perguntas ocorreu-me quando recebi o convite para participar de um simpósio no V Congresso Catarinense de Promoção de Saúde Bucal, realizado em Joinville, SC, de 29/9 a 2/10. Os organizadores convidavam-me para debater a "Odontologia contemporânea e suas perspectivas no mercado de trabalho". Pensei imediatamente em recessão econômica (nosso PIB per capita está teimosamente estagnado desde o final dos anos 70...); na avalanche de novos cirurgiões-dentistas que a cada ano se apresentam no mercado de trabalho (formamos cerca de 8 mil novos CDs a cada 12 meses...); e, claro, nas especialidades odontológicas que operam na vanguarda do conhecimento científico e tecnológico (a Implantodontia, por exemplo). Achei que tais aspectos deveriam estar relacionados com questões como a iníqua e cruel distribuição de renda que ostentamos (o mundo nos olha — quando sobra tempo, é verdade... — e nos vê ao lado de Serra Leoa, Etiópia...) pois, se a renda está concentrada, isto explode como uma bomba no mercado de trabalho odontológico. Concentração de renda equivale a concentração de clientes em poucos profissionais... Falei dessas coisas no simpósio de Joinville. Ao lado dos professores Dario Salles, Sérgio Freitas e Sylvio Gevaerd percorri também as questões relacionadas à formação profissional, à ética e ao baixo investimento público nos serviços de saúde bucal.

Mas é inevitável olhar para o futuro ao abordar problemas contemporâneos. Ao especular sobre o futuro, longínquo e imediato, da prática odontológica, abordei as possibilidades que a engenharia genética nos abrirá em pouquíssimos anos e, provocando meus colegas implantodontistas, afirmei que sua especialidade, a caçula entre as especialidades odontológicas, é também a primeira na lista das que tendem ao desaparecimento. É que é simplesmente alucinante a velocidade com que a humanidade vem acumulando conhecimento científico sobre a produção em laboratório de componentes do organismo humano: dentes, inclusive. Não demorará muito para que a tecnologia necessária à essa produção esteja desenvolvida e se dissemine por todo o mundo.

Às portas do ano 2000, o ser humano está na iminência de deixar de ser difiodonte para, como os peixes, tornar-se polifiodonte.

A odontogênese laboratorial será uma realidade em algumas décadas. Ou em alguns anos? Impossível responder. Mas a produção de ameloblastos, odontoblastos e demais componentes da estrutura dentária, nestas circunstâncias, não é delírio nem ficção. Está no horizonte histórico.

Então, procedimentos como implantes dentários serão objeto de avassaladora revolução. Tudo indica que as maiores dificuldades se concentrarão nos procedimentos laboratoriais, sendo a fase clínica acessível a qualquer bom clínico geral (em tese, em termos de complexidade biológica, nada muito diferente por exemplo de uma exodontia...).

Quanto aos custos dessas técnicas, elevadíssimos nos primeiros momentos, tenderá a se igualar ao custo atual dos implantes e, com o desenvolvimento científico-técnico acelerado, poderá ser acessível para milhões... São possibilidades reais, insisto; não se trata de futurologia.

Uma pergunta, entretanto, foi fulminante em Joinville: com todas essas possibilidades abertas pela engenharia genética e pela manipulação de DNA, que rumos tomará a humanidade? Que escolhas faremos?

Com efeito, estamos numa encruzilhada histórica. A ciência tem demonstrado que há muito tempo o Homem vem se construindo enquanto tal, pela maneira como altera a natureza e pela dinâmica que imprime à produção de bens e serviços e ao relacionamento social. Mas pela primeira vez na história o Homem está diante da possibilidade de alterar rápida, profunda e decisivamente sua própria estrutura biológica. Tem a possibilidade de criar outro Homem, outra "coisa"; que, a médio e longo prazos, poderia inclusive não ser mais o Homo sapiens.

Então, abandonei minha pergunta inicial ("Existirão dentistas no século XXIII?") e me perguntei:

Daremos esse passo?

Humano que sou não tenho dúvida, iremos em frente com certeza. Sempre fomos. Não pararemos agora. É a nossa sina. E, apesar de tudo, iremos em frente iluminados pela razão e, quero crer, regidos por princípios éticos. Correremos muitos riscos mas o avanço científico e tecnológico haverá de contribuir, de muitas maneiras, para melhorar a vida de milhões (bilhões, talvez, já que o planetinha anda lotado...).

Mas uma coisa é certa: a vontade humana, a sede de justiça, a luta por igualdade de direitos, serão tão necessárias no século XXII — e por todos os séculos — quanto estão sendo neste crepúsculo do século XX. Neste ponto, parece, não há alternativa: são essas características que humanizam o Homem. E não há laboratório onde possam ser criadas: brotam do viver, das relações entre os homens, dos seus conflitos. Querer ou não querer; fazer ou não fazer? Tudo indica que no futuro, assim como no passado, continuaremos às voltas com dilemas dessa ordem.


* Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.


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