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As greves nas áreas de saúde e educação: por quê?

Paulo Capel Narvai

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Aprendi com minha mãe o adágio popular que assegura que "em casa onde não tem pão, todos brigam e ninguém tem razão." Lembrei-me disso a propósito da onda grevista que vem sacudindo os setores de saúde e educação no Estado de São Paulo, atingindo também as três universidades públicas estaduais, USP, UNESP e Unicamp. Milhares de trabalhadores parados e funcionamento apenas parcial de escolas, universidades, centros de saúde e hospitais. Para um olhar menos atento e para analistas superficiais não há nenhum sentido nisso. Paralisar atividades em escolas e hospitais públicos, num país como o Brasil, com a gravidade dos problemas que temos nessas áreas, só poderia ser coisa de gente destrambelhada... Mas as greves não são nenhum despropósito. Alguns setores da mídia e políticos conservadores pretendem tirar-lhes a legitimidade. Seriam greves políticas, motivadas por interesses partidários num ano de eleições. Estão equivocados.

Quem se der ao trabalho de analisar as listas de reivindicações apresentadas às autoridades perceberá que, a rigor, não há como discordar do seu conteúdo, que pode ser resumido em melhores condições de trabalho e reposição das perdas salariais dos últimos anos.

Pode-se argumentar que melhores salários todos querem sempre e, por si mesmo, isso não justificaria parar universidades, escolas e hospitais públicos; e melhores condições de trabalho são objetivos permanentes de todo mundo etc.

Mas vejamos o que essas coisas representam no caso concreto dos grevistas de São Paulo. Entre as melhores condições de trabalho não estão confortos como ar condicionado, música no ambiente ou flores à vista, mas gaze, esparadrapo, instrumentos e equipamentos básicos, medicamentos essenciais, material didático, iluminação adequada, entre outras.

Quanto à situação salarial, ilustre desconhecida de muitos críticos dos manifestantes, basta dizer que o salário-base de um médico da rede pública paulista em jornada de quatro horas/dia está na faixa de R$ 800,00. Quando exerce determinadas funções se agregam a este valor algumas gratificações que o profissional perde quando deixa de realizá-las ou quando se aposenta. Tudo somado, a "bolada" chega a uns R$ 900,00.

Para cirurgiões-dentistas o padrão é diferente – para pior... Quanto aos professores, os padrões salariais são ainda menores. Todos os que, como eu, visitam profissionalmente escolas públicas estaduais são testemunhas da precariedade que predomina em todas as unidades. As exceções servem apenas para confirmar a regra. Nos estabelecimentos localizados nas áreas periféricas da região metropolitana de São Paulo a situação é, muitas vezes, desesperadora e o trabalho transforma-se em verdadeira tortura.

Nada disso é novidade, pode retrucar um crítico das greves, com razão. Com efeito, são problemas crônicos desses setores. Todos os anos profissionais de saúde e educadores constatam esses problemas nos seus respectivos processos de planejamento. E indicam as soluções às autoridades. Entretanto, como diz a canção de Gilberto Gil, "entra ano sai ano e nada vem". E as ações de saúde e educação sob responsabilidade estatal continuam "ao Deus dará"...

Os profissionais dessas áreas, em sua maioria, "fazem das tripas, coração" para não fechar escolas e unidades de saúde. Improvisam como podem, reciclam o que é possível, criam alternativas, buscam recursos nas comunidades, sacrificam-se e sacrificam as suas famílias dia após dia, movidos por compromisso ético, valores religiosos e responsabilidade social. Mas é muito difícil trabalhar assim permanentemente. Outro dia usei a expressão "das tripas, coração" e um colega me disse "mas agora... as tripas estão acabando!" Rimos – para não chorar, claro.

Ao contrário do que bradam jornalistas conservadores e políticos reacionários, ninguém gosta de fazer greve. É uma fantasia supor que meia dúzia de pessoas "mal intencionadas" engendrem, a partir do nada e movidas apenas por "interesses escusos", paralisações que têm a adesão de milhares de pessoas. Esse entendimento de processos sociais complexos é uma simplificação ridícula e absurda – além de insultar a consciência política e o senso de responsabilidade profissional dos envolvidos.

Numa greve, todos perdem; não há vitoriosos. É muito ruim fazer greve; há tensão, atritos, enfrentamentos, divergências sobre o que fazer também entre colegas que convivem diariamente. Só aqueles que nunca participaram de uma paralisação podem vê-las como algo idílico, ou coisa de baderneiros. Entretanto, apesar disso, a greve acaba sendo o estágio indesejado a que se termina chegando quando as situações geradoras de conflitos não se alteram. Quando não há alternativa, a greve "estoura". É o que está acontecendo em São Paulo.

Mas por quê? Seriam o governador, os secretários de Estado e os reitores insensíveis? Estariam em desacordo com as reivindicações apresentadas? Não, dizem eles. Todos reconhecem que, excetuando-se um ou outro ponto negociável, as reivindicações são justas e que gostariam de atendê-las. Mas não podem. Se pudessem atenderiam; mas não podem. E, democratas que juram ser – e não há razões para duvidar que, efetivamente, o sejam – reconhecem os direitos dos trabalhadores, inclusive o direito de greve. Mas arrolam dados e mais dados, planilhas e índices e indicadores, tudo para provar que não podem atender aos grevistas. Então, querem porque querem que a greve acabe, e que todos retornem ao seu trabalho. E os grevistas respondem: não, assim não – e continuam com os braços cruzados. E então volto ao adágio para, pretensioso, "corrigir" o senso comum: "em casa onde não tem pão, todos brigam e todos têm razão porque todos devem ter direito ao pão."

Essa correção é necessária para continuar a reflexão. O que se passa, então? Se os grevistas têm razão e se seus oponentes, as autoridades estaduais, também têm motivos suficientes para não atendê-los, chega-se à conclusão que todos têm razão. Volto à metáfora do pão: afinal... cadê o pão? Por que está faltando pão? Se todos trabalham, produzem... onde está o pão?

Ah! Alguém que não está na metáfora mas que tem existência real está fazendo o pão desaparecer. Entre nós, em pleno ano 2000, o pão está assumindo a forma de modelo econômico: o pão desaparece travestido de juros e serviços da dívida externa, remessa de lucros para acionistas estrangeiros de empresas operando no Brasil, sonegação fiscal, privatizações cercadas de segredos e mistérios, isenções tributárias, auxílios oficiais para banqueiros falidos e para especuladores no sistema financeiro... Bom, vou fechando a lista para não aborrecer o leitor. Mas se trata essencialmente disto: o Estado brasileiro não dispõe de recursos para financiar setores cruciais como saúde e educação públicas – e há também a segurança, a assistência social etc. Mas este não é o caso, aqui. Não se consegue, em resumo, contar com recursos públicos suficientes para atender as necessidades sociais. Não basta ser a décima economia mundial porque há problemas muito sérios a resolver.

Estamos os brasileiros, mais uma vez, numa encruzilhada e precisamos decidir logo o que queremos fazer do nosso futuro – se não para os próximos 500, pelo menos para os próximos 50 anos. Afinal, que sociedade projetamos para o próximo século neste país? A continuidade do saque que nos assola desde os tempos coloniais? A perpetuação de um trabalhar, trabalhar, trabalhar para enriquecer ainda mais os que já têm tanto? É razoável para um país cujo PIB está na faixa dos 555 bilhões de dólares remeter anualmente para investidores externos a bagatela de uns 25 bilhões de dólares – e continuar tendo, internamente, os problemas sociais que nos corroem?

É possível pedir às pessoas que dediquem 8, 10, 12 horas de trabalho diariamente para fazer um bolo com o qual se deliciam acionistas das bolsas de valores pelo mundo afora? E pedir que "compreendam as limitações orçamentárias" quando reclamam salários dignos e quando querem trabalho e não tortura, física e psicológica? Minha resposta é não, não e não! Mas, reconheço, há os que dizem que "esse esforço" é necessário – e prometem o paraíso para nossos filhos e netos. O mesmo paraíso que poderosos de outros tempos prometeram para os pais dos pais dos meus pais...

O mais grave na intransigência do governador, dos secretários e dos reitores não é a impossibilidade de atender imediatamente as reivindicações. O que é inaceitável, a meu ver, é que, ao invés de utilizarem o poder que têm para romper com essa lógica perversa que nos mantém reféns-quase-escravos, preferem, conformistas, culpar as vítimas e atribuir "tudo isso" aos seus adversários políticos. Querem que suas dificuldades sejam compreendidas. E não reconhecem que sua posição é política. "Política" seria apenas a motivação dos grevistas...

Creio que as dificuldades das autoridades estaduais paulistas são compreensíveis e que, até, poderiam ser objeto de negociação – desde que elas se dispusessem a negociar e propor alternativas, coisas que não querem fazer. Propor alternativas exigiria selar compromissos que as autoridades não querem (não podem?) assumir, pressionadas que estão por forças políticas que não querem contrariar. Assim, só posso concluir retornando à pergunta do título: por quê?


* Paulo Capel Narvai é cirurgião-dentista sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo.


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