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| Ano VII - Nº 97 - Abril de 2005 |
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Jornalismo sem intenções
Cristina Cassiano* |
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Em tempos de Severino Cavalcanti, a ilha da fantasia de Brasília entrou em pânico. O “espetáculo” do desenvolvimento, expressão em moda, abriu as cortinas para o “show” do descaramento político. Mas o que isso tem a ver com o título aí de cima? Afinal, o que tem a ver o circo político com os jornalistas e estes com intenções? Tudo. E é bom que se diga que a bagunça do momento atrai notícias. E estas têm o poder de estimular ou inibir um assunto, ou mais especialmente alguém. Aqui entram os jornalistas. Essa mesma confusão, curiosamente, tem o dom de esclarecer as coisas. Pode parecer incrível, mas a atual cara da política brasileira ajuda a sociedade a ajustar alguns parafusos que andam soltos pelos cantos da burocracia. A leitura de tal cenário nos remete ao jornalismo. Esta especialidade profissional tem função única. O “espetáculo” político jamais existiria sem notícias sobre ele próprio. Bastidores, eventos festivos, grandes votações, nada existiria sem a divulgação noticiosa - não a divulgação publicitária, porque esta não tem alma, muito menos ética e é só intenção. Este é o ponto. A ausência de intenção está para o jornalista como o lucro para o capitalista. As notícias numa redação, de um jornal, rádio, revista, Internet ou tevê, são as vedetes de todos que ali estão a seus pés. Por elas, riem, choram, se frustram, se revoltam. Por essas vedetes estão a serviço. Em princípio, a notícia está acima de intenções, interesses e espetáculos. Então, notícia é notícia e pronto? Depende. No Brasil, e para isso basta pesquisar em nossa História, os melhores jornalistas foram ou são homens bem-intencionados. Simples, só isso. As informações não pertencem ao homem, mas à sociedade a que ele pertence. O trânsito delas por canais de comunicação coletivos legais deve e precisa ser feito por profissionais bem formados ética e culturalmente. Claro que os jornalistas dependem de fontes. Mas é exatamente aí que entra a boa formação do jornalista, que jamais pode se prender à sua fonte. Toda fonte tem um interesse. E todo jornalista sempre é visto por no mínimo dois lados, um a favor, outro contra. Não há nada que se possa fazer numa reportagem séria que não provoque o descontentamento de quem eventualmente seja atingido. A intenção é isso. Não tem troca, não tem barganha. Ela está acima do que o “outro” vá pensar. Portanto, o jornalista deve diferenciar, fonte é fonte e notícia é notícia. É claro que assim fica mais difícil, mas sem dúvida é o caminho do bem. Àqueles que desejam se tornar fontes de informações para jornalistas independentes, sérios e atuantes, um conselho: esqueçam os interesses pessoais. A fonte confiável merece respeito e proporciona, isto sim, cidadania para todos. Notícias de conteúdo abrem caminhos, descortinam o verdadeiro espetáculo, seja ele até político. Não fosse o jornalismo sem intenção, o que seria de nós com fontes do tipo Fernandinho Beira Mar, Sérgio Naya, ex-juiz Lalau, Collor, ACM, Garotinho e muitos outros?
*Cristina Cassiano |