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Ano VII- Nº 97 - Abril de 2005

A importância da pesquisa clínica em “cobaias” humanas

Greyce  Lousana*

 

Você sabe o que há em comum entre um perfume, o câncer, um alimento, a aids, o lançamento de produto, lentes de contato, cosméticos, prótese dentária, um baton, um novo método de ensino ou um remédio genérico?  A pesquisa!  Sim, é isso mesmo, para tudo o que se destina ao uso de seres humanos é imprescindível que sejam feitas pesquisas de qualquer natureza em qualquer área do conhecimento, cuja aceitação não esteja ainda consagrada na literatura científica.  Pesquisa, ensaio ou estudo clínico são as várias denominações utilizadas para designar todo processo de investigação científica envolvendo seres humanos. Como resultado desse processo, os pesquisadores ou investigadores clínicos poderão alcançar novo conhecimento científico acerca de medicamentos, procedimentos ou métodos de abordagem de problemas que afetam a saúde do ser humano.

Mas, a população e muitos profissionais ainda não conhecem a importância, riscos, benefícios, deveres e direitos dos pesquisados. Toda pesquisa que conduz estudos envolvendo seres humanos deve obedecer as Diretrizes e Normas Regulamentadoras da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde – CNS. Os procedimentos referidos incluem entre outros, os de natureza instrumental, ambiental, nutricional, educacional, sociológica, agrícola, biotecnologia, econômica, administrativa, mercadológica, física, psíquica ou biológica.

Além  de  cumprir  as  exigências  do  Ministério  da  Saúde  e  da  Agência  Nacional  de  Vigilância  Sanitária (Anvisa),  a  execução  de  uma  pesquisa  com seres humanos  deve  transcorrer  dentro  dos  padrões  éticos  e  normas  técnicas.  O respeito devido à dignidade humana exige que toda pesquisa se processe após consentimento livre e esclarecido dos voluntários “sujeito de pesquisa” que por si ou por seus representantes legais manifestem a sua anuência à participação, assinando um consentimento para sua participação, antes que qualquer procedimento relacionado à pesquisa seja realizado. Para  que  as  pesquisas  gerem  dados  confiáveis,   eles  devem  ser  replicáveis  em  situações  análogas  para  garantir  que  não  houve  fraude.  A  metodologia  utilizada  nas  pesquisas  é  de  extrema  importância  para  que  se  tenha  credibilidade  dos  resultados. 

É preciso estar consciente, entretanto, de que todo estudo que tem o ser humano como sujeito de pesquisa envolve risco e que um eventual dano pode ser imediato ou tardio, comprometendo ou não o indivíduo ou a coletividade.  Mesmo em se considerando riscos potenciais, essas pesquisas são necessárias e admissíveis quando podem gerar conhecimentos, prevenir, diagnosticar ou tratar de problemas que afetem o bem-estar, a saúde e a qualidade de vida dos pesquisados ou da humanidade, ou cujo risco se justifique pela relevância do benefício almejado. Os  aspectos  éticos  e  legais da pesquisa  clínica  devem ser rigorosamente seguidos e observados. 

Só para esclarecer, a recomendação para o uso de qualquer medicamento provém de pesquisa clínica e possui um médico como responsável.  As informações indicadas em uma bula de remédio decorrem também de pesquisas clínicas realizadas durante mais de 10 anos. A população leiga precisa tomar conhecimento sobre a importância do trabalho de pesquisa e dos voluntários sujeitos à pesquisa clínica, que são monitorados o tempo todo e precisam estar compromissados com todas as etapas, exigências e obrigações da pesquisa, bem como estar consciente do processo a que será submetido.

Para finalizar, gostaria de desmistificar um estereótipo. O de que pessoas carentes ou de baixa renda, se submetem a pesquisas apenas para “ganhar” dinheiro. Isso não procede. Nenhuma pesquisa deve ser paga e os pesquisados são voluntários. Toda pesquisa deve ser feita por grandes universidades, hospitais e clínicas (públicos e privados) e o profissional de pesquisa deve sempre pertencer a uma entidade com padrões éticos a serem observados em trabalhos científicos, visando a proteção aos “sujeitos de pesquisa”.


Greyce  Lousana é  presidente  da  Sociedade  Brasileira  de  Profissionais  em  Pesquisa  Clínica (SBPPC),  bióloga, médica veterinária, mestre em Neurociências, especialista em Educação, idealizadora e autora do livro Pesquisa Clínica no Brasil e Boas Práticas Clínicas nos Centros de Pesquisa. E-mail: greycelousana@sbppc.org.br.

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