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Hemorragia

Ivan Haidámus*

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Considerações iniciais

Hemorragia é a condição mais comum encontrada no campo da Odontologia.
Todo profissional praticante poderá um dia ter que atuar perante um episódio hemorrágico.
Hemorragia não é o natural extravasamento sangüíneo que eventualmente possa ocorrer sobre os tecidos, mas o extravasamento abundante e anormal, em que o sangue não coagula e a hemostasia não ocorre naturalmente.
As hemorragias podem ser de causas locais, geralmente por injúrias no tecido operado ou causas gerais derivadas de enfermidades, como hemofilia, anemia, leucemia e outras.

Coagulação do sangue

Mais de trinta substâncias diferentes fazem parte da coagulação sangüínea, algumas promovem a coagulação, portanto pró-coagulantes, outras inibem a coagulação, chamadas anticoagulantes.
Portanto, a coagulação dependerá do equilíbrio entre esses dois grupos de substâncias. De maneira geral, predominam as substâncias anti-coagulantes e o sangue não coagula.
Quando um vaso é rompido, a atividade das substâncias pró-coagulantes na área lesada torna-se maior do que as anticoagulantes, desenvolvendo-se o coágulo.
O organismo possui um mecanismo de defesa que atua toda vez que for agredido, a fim de se manter o princípio fisiológico da homeostasia.
Um destes mecanismos é o espasmo vascular que ocorre toda vez que um vaso sangüíneo é traumatizado (vaso roto).
Portanto, ocorrerá um fechamento do lúmen do vaso (espasmo miogênico local) impedindo a perda sangüínea imediata, além da presença da vasopressina (hormônio hipotalâmico com efeito antidiurético e vaso constritor).
O sangue é bombeado pelo coração, que funciona como uma máquina propulsora se enchendo e esvaziando através de sístoles e diástoles de maneira sincrônica pela abertura e fechamento das válvulas mitral e tricúspide.
O fluxo sangüíneo total na circulação de uma pessoa adulta em repouso é de cerca de 5.600 ml por minuto, este é o chamado débito cardíaco (quantidade de sangue bombeada por cada ventrículo do coração, num período unitário de tempo.)
O sangue deverá passar por todos os tecidos levando materiais nutritivos para aproximadamente 100 trilhões de células do organismo.
No entanto, o fluxo sangüíneo sofre uma resistência à passagem no interior do vaso. Apesar disso, o sangue consegue se difundir de maneira proporcional ao diâmetro do vaso, episódio fisiológico que se contrapõe à resistência ao qual denominamos condutância. Portanto, dizemos que a condutância é o inverso da resistência.

Condutância =                   1
                                _________
                                resistência

Q = P
       R

Q = fluxo
P = pressão
R = resistência

Efeito da pressão sobre a resistência vascular
Todos os vasos sangüíneos são distensíveis. Se aumentar a pressão no interior dos vasos, seus diâmetros também aumentarão. Portanto, toda vez que existir uma pressão interna nos vasos, superior à resistência por ele oferecida, o vaso se rompe, ocasionando um extravasamento sangüíneo em nível tecidual (fora do seu leito natural).

Teorias básicas da coagulação sangüínea

Existem duas teorias básicas da coagulação sangüínea. Teoria Clássica e Teoria Enzimática de Seegers.
A maior parte da literatura específica se baseia na Teoria Clássica a qual iremos abordar.

Teoria clássica

De maneira sucinta, iremos explicar como ocorrem os mecanismos intrínseco e extrínseco da coagulação sangüínea.

Mecanismo extrínseco:

Tromboplastina (lipoproteína)

Protrombina

Trombina

Fibrinogênio

Rede de Fibrina

Basicamente o esquema representa o mecanismo "de cascata" desencadeado pela tromboplastina (lipoproteína) que dará a formação de uma rede de Fibrina e conseqüentemente o coágulo estará formado.

Mecanismo intrínseco:

O principal fator do mecanismo de coagulação intrínseca são as plaquetas. A tendência à coagulação intrínseca e conseqüentemente à formação de trombos e seu deslocamento (êmbolo) é bem menor do que a possibilidade de ocorrer o coágulo extrínseco, pois uma pequena quantidade de sangue, ao abandonar o vaso sangüíneo (vaso roto), tende a se coagular rapidamente.

Causas da hemorragia

É necessário que sejam enfatizadas as causas da hemorragia excessiva, assim como o que fazer em casos de emergência hemorrágica que ocorrem freqüentemente na prática diária.
Cessar o sangramento durante a operação é essencial para prevenir o choque causado pela perda de sangue (choque hipovolêmico).
É importante também para possibilitar a diferenciação das estruturas normais e patológicas pela melhoria da visibilidade do campo cirúrgico.
A anamnese bem conduzida é o primeiro passo para se evitar situações desagradáveis e muitas vezes perigosas para o paciente.
Alguns princípios gerais nos ajudam a prevenir os sangramentos pós-operatórios:

  1. descobrir se o paciente já teve história de sangramento excessivo;

  2. perguntar se já sofreu cirurgia, há quanto tempo e tipo de cirurgia;

  3. perguntar se já sangrou profusamente em conseqüência de um pequeno ferimento e curou-se normalmente;

  4. caso tenha sido submetido à cirurgia anteriormente, perguntar se houve tendência ao sangramento pós-operatório;

  5. perguntar se tem anemia, leucemia, hemofilia, avitaminose K;

  6. caso desconfie de suas respostas ou mesmo que o paciente não consiga respondê-las, faz-se necessário que tenhamos o parecer do médico assistente, assim como lançar mão de pedidos de exames laboratoriais, tais como:

    1. Hemograma

    2. Tempo de coagulação e sangria (TS e TC)

    3. O tempo de sangramento é o único exame de função plaquetária que se correlaciona com a suscetibilidade a sangramento. Os pacientes com um tempo de sangramento prolongado têm um risco de sangramento aumentado em cirurgias, no entanto, nem todos esses pacientes apresentam sangramento anormal.

    4. Tromboplastina parcial

    5. Tempo de protrombin;

    6. Coagulograma (exame mais completo)

Cuidados que devemos ter durante a prática
diária para evitarmos as hemorragias

Além do conhecimento das possíveis causas das hemorragias, falhas técnicas poderão ocorrer nas intervenções cirúrgicas, as quais poderão desencadear processos hemorrágicos.
As mais comuns são as seguintes:

  1. Espículas ósseas com bordas pontiagudas

  2. Não remover espículas no alvéolo do dente e septos de osso muito altos e com fraturas.

  3. Lacerações da gengiva e tecidos moles

  4. Dificuldade na remoção de ponta de agulha quebrada

  5. Injúria à artéria ou veia alveolar inferior

  6. Raízes quebradas retidas no alvéolo

  7. Injúria ao forame do mento e sua artéria

  8. Dificuldades para ligar uma artéria ou veia rompida

  9. Dificuldade na remoção de cálculo (tártaro) subgengival

  10. Dificuldade na remoção de cálculo (tártaro) de dentes próximos da gengiva

  11. Dificuldade na remoção de pequenos pedaços de instrumental quebrado

  12. Suturas muito apertadas que possam romper-se muito cedo ou fio de sutura inadequado

  13. Drenagem incompleta de processo infeccioso

  14. Restos de restauração de amálgama, estruturas dentárias ou cálculos que caíram no alvéolo durante a exodontia

  15. Granulações excessivas

  16. Irritação crônica das gengivas por restaurações mal adaptadas, próteses removíveis ou próteses totais

  17. Tratamento inadequado de ulcerações da mucosa da boca

  18. Tratamento pós-operatório insuficiente

  19. Tratamento inadequado da pericoronarite

  20. Ruptura da artéria ou veia palatina anterior ou posterior

  21. Rompimento do coágulo devido à infecção

  22. Traumatismo do alvéolo por curetagem muito rigorosa

  23. Infiltração de solução anestésica de forma incorreta

  24. Curetagem de alvéolo insuficiente

  25. Bandas ortodônticas mal ajustadas

  26. Uso de bochechos logo após a cirurgia

  27. Uso de anticoagulantes, tratamento com heparina ou dicumerol antes da cirurgia

  28. Uso de salicilatos (ácido acetil salicílico) podem provocar sangramentos, pois são desagregadores plaquetários

Hemorragias derivadas de traumas cirúrgicos

  1. acidentes que ocorrem na exodontia e outras intervenções cirúrgicas.

  2. Fratura do osso alveolar

  3. Fratura da mandíbula

  4. Fratura da maxila alcançando o sinus maxilar e envolvendo o assoalho da cavidade

  5. Fratura da tuberosidade maxilar

Causas médicas de hemorragias

  1. escorbuto

  2. infecção de Vincent

  3. gengivite gravítica

  4. avitaminose K

  5. menstruação irregular

  6. hemorragia pré-menstrual

  7. hipertensão arterial

  8. septicemia

  9. bacteremia

  10. deficiência de tromboplastina

  11. deficiência de fibrinogênio

  12. hemofilia

  13. púrpura hemorrágica

  14. doenças hemorrágicas do recém-nascido

  15. policitemia Vera

  16. doenças crônicas do fígado

  17. icterícia

  18. anemia perniciosa

  19. anemia aplástica

  20. leucemia

  21. angina agranulocítica

Para obtermos um bom reparo tecidual é necessário que ocorra uma cicatrização por primeira intenção, para tanto, alguns princípios básicos deverão ser seguidos:

  1. Evitar presença de corpos estranhos

  2. Promover boa sutura

  3. Evitar o uso de corticóide

  4. Evitar avitaminose C (prejudica a formação do colágeno)

  5. Evitar contaminação bacteriana

  6. Evitar perda tecidual

Além destas recomendações, devemos sempre orientar os pacientes sobre o pós-operatório cirúrgico, fornecer-lhes as orientações específicas, como o uso de aplicações frias com bolsa de gelo ou compressas com chumaço de algodão.

Obs: O algodão provoca uma melhor hemostasia, portanto deve se dar preferência ao seu uso, em relação à gaze.

As aplicações frias previnem o edema pós-operatório ou quando o edema já se tenha iniciado para prevenir que ele aumente de volume.
O frio também é usado para aliviar a dor pós-operatória.
As aplicações frias produzem uma anemia temporária dos tecidos, que seria seguida por uma hiperemia passiva.
Com o frio ocorre uma reação que causará vasoconstrição na região da inflamação.
Com o menor fluxo de sangue haverá também menor fluxo de linfa.
Em conseqüência, a pressão nas fibras nervosas diminuem, com o alívio da dor e redução da inflamação.
Com efeito, pelo frio o edema será confinado à região traumatizada.
Embora benéfica, com essa terapia pelo frio, pode ser retardada a cicatrização, pela diminuição do fluxo de sangue e de linfa.
Este problema pode ser resolvido pelo uso interrompido das aplicações frias, um tempo limitado de vinte a quarenta e cinco minutos, seguido de um intervalo de uma hora a uma hora e meia sem aplicação.
O uso do frio sem interrupção é fisiologicamente insalubre.
O efeito do frio estimulando ou inibindo o desenvolvimento de bactérias nos tecidos inflamados não está perfeitamente explicado, pois ainda não se sabe se a aplicação do frio pode estimular o desenvolvimento de bactérias se a infecção estiver nos tecidos.

Artigo extraído do livro Emergências Médicas no Consultório Odontológico


* Ivan Haidamus é cirurgião-dentista, com ênfase na área de Emergências Médicas. Já atuou no PS do Hospital das Clínicas e atualmente é colaborador do PS do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina. Estagiou nos hospitais dos Defeitos da Face, Municipal de São Paulo, Fraturas da Lapa e no Psiquiátrico Bezerra de Menezes. É ministrador do Curso Prevenção de Acidentes na Odontologia Clínica e autor dos livros Como tratar pacientes com doença orgânicas na Odontologia Clínica (Editora Pancast-1994) e Emergências médicas no consultório odontológico (Editora Cipola – 2000). E-mail: haidamus@dentmail.com.br

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