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Ano III - Nº 47 -Segunda quinzena de novembro de 2001
 

Emergências no consultório odontológico

Odontogeriatria IV

Dor em Geriatria

Ivan Haidámus*

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Muitas autoridades no meio médico questionam a respeito do declínio da sensibilidade dolorosa com o aumento da idade. Em doentes idosos a avaliação da dor torna-se difícil devido a problemas cognitivos, quadros depressivos e perdas sensoriais.

Outro aspecto importante na avaliação álgica nesses pacientes é o lado emocional, pois procuram não demonstrar suas queixas por considerarem sua dependência um grande fardo para aqueles que lhes tratam e a queixa dolorosa aumentaria o desconforto causado aos familiares e cuidadores. Pacientes idosos com episódios de dor aguda apresentam resposta de estresse de difícil mensuração e quando submetidos a procedimentos invasivos ou traumáticos costumam sofrer danos no sistema imunológico e muitas vezes poderão exibir quadros de depressão e maior suscetibilidade a infecções.

A Associação Internacional para o Estudo da Dor a define como sendo uma experiência sensorial e emocional desagradável que associamos à ocorrência de lesão tecidual ou como tal a descrevemos.

Resposta farmacológica

Ao envelhecerem, mulheres e homens mostram alterações no conteúdo de água, na massa muscular e na quantidade de gordura do organismo que acabam modificando a distribuição e a eliminação das drogas.

Os idosos possuem uma quantidade menor de água total provocando desidratação intracelular e um aumento progressivo de gordura.

A gordura funciona como "depósito" para drogas lipossolúveis, retardando sua eliminação e comprometendo o metabolismo.

A redução do débito cardíaco (cerca de 40%) no idoso leva progressivamente a uma redução do fluxo sangüíneo hepático e renal contribuindo com o acúmulo das concentrações plasmáticas das drogas na população geriátrica.

O que podemos e o que não devemos prescrever

Os idosos usam freqüentemente medicamentos de maneira crônica, utilizam várias drogas simultaneamente, podendo induzir interações de drogas. Portanto, é conveniente conhecer a medicação prescrita assim como pedir para que traga todos os remédios de uso regular, pois estão sujeitos a fazerem uso de fármacos não prescritos pelo profissional assistente, determinando sérios riscos à saúde!

Além do exposto, devemos reconhecer no idoso sua capacidade de cognição e alertar os cuidadores em relação à dose e a hora em que deverão utilizar os medicamentos.

Estudos recentes demonstraram que uma grande parcela da população idosa costuma fazer uso de medicamentos não prescritos vendidos nas farmácias ou mesmo adquiridos em casas de saúde ou centros de reabilitação.

Alguns medicamentos poderão ser prescritos com maior segurança e devemos procurar conhecer suas indicações e limitações de uso, lembrando que com o passar dos anos diminui a capacidade funcional de cada órgão!

Analgésicos

A Dipirona e o Paracetamol são analgésicos de uso constante e poderão ser prescritos de forma cautelosa para alívio da dor, nessa faixa etária.

Aine (Anti-inflamatório Não-esteróide) AAS (Ácido Acetil Salicílico)

Em 1763 Edmund Stone apresentou sua experiência feita com a árvore salgueiro (Salix alba) cuja a casca possuía ação adstringente com poderes analgésicos e antipiréticos.

A Salicilina contida na casca deu origem ao AAS.

Hipócrates (Século 4 A.C.) tinha defendido a mastigação de folhas de salgueiro para o alívio das dores de parto.

Em 1955 surgiu o Tylenol (Acetaminofeno) para "combater" comercialmente o AAS.

Efeitos colaterais dos Aines e AAS

A osteoartrite é uma doença comum nos idosos, durante muitos anos ela foi "combatida" com Aines, no entanto, os cientistas descobriram que apesar da melhora conseguida com esse antiinflamatórios, muitos pacientes desenvolviam problemas digestivos principalmente no estômago e duodeno. Ademais, a maioria dos Aines evita a excreção de sal e água do corpo principalmente quando existe doença hepática ou cardíaca.

Segundo o Dr. Décio Chinzon, da Universidade de São Paulo, "embora a incidência de efeitos colaterais pelo uso desses medicamentos seja relativamente baixa entre 1 a 2%, o alto índice de utilização desses fármacos - cerca de 100 milhões de prescrições anuais - sem contar os pacientes que o fazem sem prescrição, faz com que o número de indivíduos afetados pelo problema seja altamente significativo".

O sangramento gastrintestinal tem sua incidência duplicada nos pacientes idosos submetidos ao uso de Aines.

O uso concomitante de mais de um analgésico antiinflamatório aumentaria o risco dos efeitos colaterais.

Pelo exposto, a tendência atual é a de restringir o idoso ao uso de antiinflamatórios com ação exclusiva em Cox 2 (Ciclo-oxigenase 2).

O Celecoxib (Celebra) é o antiinflamatório que recomendamos para esta faixa etária, pois as concentrações plasmáticas do Celecoxib são aparentemente baixas em pacientes portadores de insuficiência renal.

Praticamente todos os agentes antiinflamatórios apresentam o potencial de lesão hepática, portanto seria prudente que o Celecoxib fosse administrado em uma dose reduzida em pacientes portadores de comprometimento hepático.

Os inibidores da Cox 2 não costumam interferir com agentes anti-hipertensivos e possuem menor ação ácida principalmente no estômago e duodeno.

Apesar de termos citado o nome comercial (Celebra) existem outros antiinflamatórios que atuam em Cox 2. A preferência é minha!


* Ivan Haidamus é cirurgião-dentista, com ênfase na área de Emergências Médicas. Já atuou no PS do Hospital das Clínicas e atualmente é colaborador do PS do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina. Estagiou nos hospitais dos Defeitos da Face, Municipal de São Paulo, Fraturas da Lapa e no Psiquiátrico Bezerra de Menezes. É ministrador do Curso Prevenção de Acidentes na Odontologia Clínica e autor dos livros Como tratar pacientes com doença orgânicas na Odontologia Clínica (Editora Pancast-1994) e Emergências médicas no consultório odontológico (Editora Cipola – 2000). E-mail: haidamus@dentmail.com.br

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