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Ano IV - Nº 50 - Primeira quinzena de março de 2002
 

Emergências no consultório odontológico

Arritmias Cardíacas

Ivan Haidámus*

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O coração é uma bomba muscular que se contrai ritmicamente para enviar o sangue pela circulação, mantendo os fluidos corporais se misturando continuamente.

Músculo auricular, ventricular e fibras musculares especializadas excitatórias e condutoras, compõem o órgão cardíaco.

As arritmias podem ser provenientes dos ventrículos (arritmias ventriculares) ou provenientes dos átrios (arritmias atriais).Elas podem ser de natureza assintomática tendo como causa principal a aterosclerose, podendo ser detectadas através de exames de rotina e eletrocardiograma (ECG).

O eletrocardiograma é o exame mais importante a ser feito no diagnóstico de uma arritmia (lembre-se que difere do diagnóstico de cardiopatias, pois nestes casos a anamnese e exame físico são exames mais importantes). Portanto só o pedido do eletrocardiograma não nos assegura quanto à existência de patologias cardíacas!

Os pacientes podem no entanto apresentar alguns sintomas que variam de palpitações à sincope. A tensão emocional e a ansiedade são fatores importantes desencadeadores de arritmias, situações comuns durante o tratamento odontológico.

As arritmias não assistidas podem levar o paciente a óbito.

Os elementos sódio, potássio, cálcio, ATP, miosina e actina são responsáveis pela excitação do músculo cardíaco.

O estímulo elétrico gerador das contrações das células do miocárdio forma-se numa região do átrio chamada nó sino-atrial ou nódulo sinusal (entre a veia cava superior e o átrio direito). Rapidamente os impulsos são levados ao Nódulo A-V onde ocorre uma grande desaceleração. A condução se acelera acentuadamente no feixe de his e através das fibras periféricas de Purkinge. Toda vez que as contrações da célula do miocárdio forem geradas fora desse local teremos disrritmia cardíaca.

A freqüência cardíaca normal em repouso é de 72 a 80 batimentos por minuto em adultos.

O sexo, a temperatura, as emoções e os exercícios influenciam a freqüência. Em latentes os batimentos costumam variar de 130 a 160/min. enquanto a PA média costuma ser mais baixa que os adultos.

A freqüência cardíaca (máxima) durante o exercício varia de 200/min. em jovens saudáveis e até menos 140/min. nos idosos.

Taquiarritmia

Quando os estímulos gerados são produzidos em maior número, falamos em taquiarritmia.

É importante reconhecermos quando estamos diante de uma situação de taquiarritmia fisiológica, gerada pelo nó sino-atrial, geralmente desencadeada pelo estresse emocional. Nesses casos, o pulso radial deverá ter uma freqüência cardíaca de 120 a 130 batimentos por minuto, e o paciente nada referir.

Devemos acalmar o paciente, evitando anestesiá-lo, principalmente com drogas vaso-constritoras como a adrenalina (provoca vaso-constrição e estimula o sistema nervoso simpático). Deve-se interromper o tratamento naquele dia pedindo que o paciente retorne em outra data, de preferência à tarde.

Podemos pedir ao paciente que faça uso de sedativos naturais, pois costumam diminuir a freqüência cardíaca apesar de provocarem muitas vezes depressões respiratórias, principalmente se o paciente estiver sob efeito de anestésicos locais!

Nesses casos devemos atendê-los na posição de Fowler (a cadeira odontológica deverá ficar inclinada a 45 graus) para se evitar a compressão no diafragma (músculo que separa a cavidade abdominal da cavidade toráxica).

Manobras que podemos utilizar no consultório odontológico para a diminuição da freqüência cardíaca

Freqüência cardíaca de 150 a 200 batimentos por minuto geralmente provocam desconforto e dor pré-cordial. Provavelmente, estes sintomas já ocorreram anteriormente. Nestes casos, devemos interromper o tratamento prontamente e iniciarmos manobras que auxiliem na redução da freqüência cardíaca. A compressão do seio carotídeo ativa um arco reflexo que aumenta o impulso vagal para o coração. Devemos friccioná-lo com o polegar dos dois lados durante um período médio de 30 segundos começando com o lado direito. Evite friccioná-los concomitantemente.

Observação 1: Pacientes idosos que apresentam altas freqüências cardíacas poderão sofrer compressão do seio carotídeo desde que não sejam portadores de sopros.

O sopro indica fluxo sangüíneo turbulento e "má" irrigação cerebral.

O cérebro é irrigado por duas carótidas e duas vertebrais, no entanto a aterosclerose (normal na maioria dos idosos) evitaria um fluxo sangüíneo adequado às exigências metabólicas do cérebro. Portanto é imperiosa a avaliação e ausculta dos batimentos cardíacos antes de se proceder a estas manobras.

Provocar o vômito e comprimir o globo ocular são manobras também possíveis de serem utilizadas pelo profissional. Não se esquecer de verificar se o paciente é portador de lentes de contato antes de comprimir o globo ocular!

Caso optarmos em estimular o vômito devemos lembrar de virar a cabeça do paciente para um dos lados a fim de se evitar a aspiração que poderá se alojar no pulmão, com conseqüências desastrosas.

Observação 2: Caso tenhamos dificuldades em conseguir que o paciente venha a vomitar podemos fazer uso de um fármaco usado também para situações de intoxicações por mercúrio chamado xarope de Ypeca. Podemos fazer uso apenas de uma colher de chá dissolvido em meio copo de água.

Observação 3: Muitos especialistas não recomendam o uso do xarope de Ypeca para esta finalidade!

Fármacos

O propanolol (cloridrato de propanolol), que é um beta bloqueador, é usado em ambiente hospitalar para reverter taquicardias supra-ventriculares paroxísticas, fibrilação atrial e flutter atrial.

A lidocaína também é usada em ambiente hospitalar para reverter taquiarritmias ventriculares e fibrilação atrial. Não se pode fazer uso deste fármaco em consultório odontológico para essa finalidade!

A lidocaína poderá ser usada como anestésico local mas é contra-indicada para pacientes com arritmias cardíacas!

Observação: Devemos encaminhar o paciente para o hospital após realizadas as manobras anteriormente citadas, para que passe por uma avaliação cardiológica.

Bradicardia

Ao contrário da taquiarritmia, na bradicardia os estímulos são gerados em número de vezes menores que o normal.

Geralmente, a bradicardia é definida como uma freqüência cardíaca de menos de 60 batimentos por minuto, no adulto em repouso. Pacientes que apresentam pulso radial com freqüência de 60 batimentos ou menos, podem fazer uso de fármacos parassimpático-miméticos ou medicamentos que diminuam a excitabilidade do músculo cardíaco como o propanolol (cloridrato de propanolol).

Pacientes que fazem exercícios regulares costumam apresentar freqüência cardíaca baixa e devem ser inquiridos durante a anamnese.

Pacientes portadores de marca passo cardíaco podem também apresentar bradicardia e necessitam de profilaxia antibiótica para se evitar a endocardite bacteriana.

Devemos perguntar ao paciente na anamnese se são portadores de marca passo cardíaco pois não costumam relatar achando que o "tratamento odontológico nada tem a ver com o marca passo".

O uso de aparelhos que conduzem corrente elétrica como o Cavitron ou Bisturi Elétrico podem levar o paciente a óbito em portadores de marca passo cardíaco!

Não devemos medicar pacientes que se apresentam com bradicardia no consultório odontológico, ele deverá ser removido para o hospital e provavelmente deverão ser medicados com atropina ou similar.

Finalizando, gostaria de acrescentar que mais de 90% das mortes súbitas cardíacas se devem a um distúrbio letal do ritmo cardíaco, aproximadamente 80 % taquicardia/fibrilação ventricular e 20% bradicardia ou assistolia ventricular.


* Ivan Haidamus é cirurgião-dentista, com ênfase na área de Emergências Médicas. Já atuou no PS do Hospital das Clínicas e atualmente é colaborador do PS do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina. Estagiou nos hospitais dos Defeitos da Face, Municipal de São Paulo, Fraturas da Lapa e no Psiquiátrico Bezerra de Menezes. É ministrador do Curso Prevenção de Acidentes na Odontologia Clínica e autor dos livros Como tratar pacientes com doença orgânicas na Odontologia Clínica (Editora Pancast-1994) e Emergências médicas no consultório odontológico (Editora Cipola – 2000). E-mail: haidamus@dentmail.com.br

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