artigos.gif (4386 bytes) logjornal.gif (4234 bytes)
Ano V - Nº 74 - Outubro de 2003 - 1ª quinzena
 

Lábio Leporino e Goela de Lobo - I

Ivan Haidámus Sodré Marques*

ivan.jpg (4225 bytes)
  Orientações preliminares

Pela complexidade do processo que envolve vários aspectos anátomo-fisiológicos de grande importância, é necessária a integração de uma equipe de profissionais especializados para dar atendimento adequado ao paciente portador de fissuras orais. Essa equipe deve ser assim constituída:

Cirurgiões-dentistas: especializados em cirurgia, ortodontia, prótese e odontopediatria;

Médicos: especializados em cirurgia plástica, pediatria, otorrinolaringologia e psiquiatria;

Outros: psicólogo, assistente social, fonoaudiólogo, nutricionista e enfermeiro.

O atendimento do fissurado pode seguir a seguinte orientação:

Do nascimento ao fim do primeiro mês:

  • Orientar os pais, informá-los, devidamente, quanto ao problema atual da criança, as perspectivas futuras e ajudá-los a assumir uma atitude sadia com relação ao problema.
  • Supervisionar a saúde geral da criança.
  • Planejar a cirurgia a ser executada.

Do fim do primeiro mês ao fim do primeiro ano:

  • Cirurgia para fechar a fenda do lábio.
  • Supervisionar a saúde geral da criança.
  • Orientar os pais quanto aos cuidados a ter com a criança.

Do fim do primeiro ano até o sétimo ano:

  • Supervisionar a saúde geral da criança.
  • Orientar a criança, buscando seu desenvolvimento psico-somático.
  • Cirurgia para fechar a fenda platina.
  • Prótese reparadora.
  • Treinamento da fonação.
  • Cuidados ortodônticos.
  • Tratamento dos dentes.

Dos seis anos até a idade adulta:

  • Supervisão geral da saúde.
  • Orientação da criança e auxílio aos pais sob o aspecto psicológico.
  • Cirurgia, prótese e ortodontia, sempre que o caso demandar.
  • Supervisão e tratamento dentário periódico.
  • Treinamento de fonação.
  • Orientação vocacional, adestramento e desempenho de alguma função.

As fendas do lábio e do palato são originadas no período intra-uterino.

As fendas dos lábios podem ser unilaterais ou bilaterais e:

- incompletas, quando são originadas pela falta de coalescência do botão nasal interno e do botão maxilar superior;

- completas, quando são originadas pela falta de coalescência do botão nasal interno, do nasal externo e do maxilar superior, estendendo-se, portanto, até as fossas nasais.

As fendas palatinas acontecem pela falta de coalescência dos processos palatinos e ptérigo-palatinos entre si.

Duas situações podem ser observadas:

Fendas palatinas unilaterais: os processos palatinos e pterigo-palatinos se fundem com o septo nasal, num só lado. Neste caso, haverá comunicação com a fossa nassal, apenas de um lado.

Fendas palatinas bilaterais: quando os processos palatinos e pterigo-palatinos não se fundem entre si, nem com o septo nasal. Neste caso, haverá comunicação da cavidade oral com a nasal em ambos os lados.

As fendas palatinas podem atingir apenas o palato mole, limitando-se à úvula ou envolvendo todo o palato mole.

A goela de lobo acontece quando há concomitância de fenda do lábio e do palato.

Causas das Fendas Orais

  • Hereditárias: estudos demonstram que o risco de se ter um filho com o problema é de 5% quando um dos pais ou um irmão for fissurado, e será de até 30% quando um dos pais e um irmão o seja.
  • Carência alimentar: a maioria dos fissurados pertence a famílias paupérrimas, com alimentação deficiente em Riboflavina, Ácido Fólico, Ácido Pentotênico, Vitamina E, Nicotinamida.
  • Influências Psicológicas: distúrbios emocionais da mãe, durante o primeiro trimestre de gestação, podem provocar interferência na circulação do feto, causando a formação de fissuras.
  • Doenças Infecciosas: estudos demonstram que 12 a 15% das mães, que contraírem a rubéola no primeiro trimestre de gestação, deram nascimento a crianças com fendas orais.
  • Idade dos pais: há uma relação positiva entre idade do pai ou da mãe e fendas. Além disso, o risco de fendas orofaciais parece aumentar quando os pais são 13 ou mais anos mais velhos que as mães.
  • Drogas: uso abusivo de drogas, como hipnóticos e tranqüilizantes, pela gestante, ou durante a gestação, podem causar fendas oropalatinas.
  • Radiações ionizantes: durante a gestação, ou em quantidade suficiente para modificar o código genético, podem ser causas de fissuras.

De acordo com os conhecimentos atuais, não existe método que permita a proteção específica, para prevenir fendas do lábio leporino.

Toda ação deve, portanto, ser concentrada no diagnóstico e tratamento precoce para evitar deformidades faciais e dificuldades na alimentação e fonação.

Dificuldades na Alimentação Decorrentes de Fissuras

A perturbação mais grave, decorrente do lábio leporino relativa à alimentação, é a impossibilidade da criança pressionar o mamilo entre os lábios e a língua. Faltando parte do lábio, não se forma o vácuo necessário para a deglutição.

Quando a fissura é apenas do lábio, às vezes, a criança se adapta, usando o rebordo alveolar com a língua e o lábio inferior. Quando o rebordo alveolar é envolvido, geralmente, é necessário o emprego de um aparelho que se adapte às narinas para que o ar passe, apenas pela boca.

A amamentação materna, nesses casos, não é indicada. A alimentação pode ser feita com conta-gotas, tendo uma extensão feita com tubo de borracha.

Para evitar que a alimentação líquida vá para o nariz, coloca-se a criança numa posição semi-vertical, quase sentada, introduzindo-se pequenas quantidades de líquido no sulco mandibular. Logo a criança aprende a manobrar a língua, de tal modo, que o fluido se encaminhe para o orofaringe.

É aconselhável continuar usando esse processo durante duas ou três semanas após a cirurgia do lábio. Só depois pode-se usar uma mamadeira com orifícios aumentados e bico amolecido por meio de fervura.

Muitas crianças aprendem a comprimir o bico com a língua e, desse modo, obtêm uma ingestão adequada. Quando o médico indicar alimentos sólidos, deve ser usada uma colher bem pequena.

A fenda palatina pode permitir que partículas de alimento se dirijam para o nariz, causando irritação ou infecção, tanto para a área do nariz como do ouvido.

Dificuldades na Fonação

O distúrbio básico, nos casos de fenda palatina, é a impossibilidade de controle da corrente de ar, durante a fonação.

Posições anormais da língua, deformidades dos lábios, dos maxilares, da abóbada palatina e da dentição, são outros fatores que dificultam a fonação.

Nos casos de fenda palatina, os sons serão enviados tanto pela cavidade nasal como pela boca.

A audição também pode ser compreendida por possíveis desvios da Trompa de Eustáquio, que é uma importante conexão entre o nariz e o ouvido.

Deve-se, portanto, examinar a criança, freqüentemente, para verificar se não houve qualquer alteração na audição, pois, esse sentido é de grande importância no desenvolvimento adequado da fonação.

Cabe, além disso, ao dentista, examinar adequadamente as estruturas da boca, para verificar se existe qualquer anormalidade que possa interferir com a fonação.

Contatando algum desvio, o D deve corrigi-lo, procurando sempre orientar o paciente quanto ao resultado a ser esperado em relação às possíveis mudanças, que venham a ocorrer na fonação. O trabalho de recuperação, realizado pelo dentista, é de grande importância, mas não é suficiente para normalizar a fonação do paciente. Por isso, essa informação deve ser dada aos pais e pacientes, conscientizando-os da importância do reaprendizado, para melhorar a fonação. Depende do próprio paciente, de sua atitude psicológica e de seu esforço para conseguir superar essa deficiência.

NA PRÓXIMA EDIÇÃO: PARTE II - CIRURGIA - CUIDADO COM OS DENTES


* Ivan Haidamus é cirurgião-dentista, com ênfase na área de Emergências Médicas. Já atuou no PS do Hospital das Clínicas e atualmente é colaborador do PS do Hospital São Paulo da Escola Paulista de Medicina. Estagiou nos hospitais dos Defeitos da Face, Municipal de São Paulo, Fraturas da Lapa e no Psiquiátrico Bezerra de Menezes. É ministrador do Curso Prevenção de Acidentes na Odontologia Clínica e autor dos livros Como tratar pacientes com doença orgânicas na Odontologia Clínica (Editora Pancast-1994) e Emergências médicas no consultório odontológico (Editora Cipola – 2000). E-mail: haidamus@dentmail.com.br

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO