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| Segunda quinzena de fevereiro de 2001 |
Assim como as cheias provocadas pelas chuvas de verão, que se sucedem anualmente provocando estragos e tragédias sem que nada se resolva, mais uma vez os meios de comunicação são inundados pela publicidade de faculdades e cursinhos pré-vestibular. O caixa das emissoras de televisão registra sem parar e deixa pouca escolha ao espectador. Desligar a TV ou sucumbir à enxurrada de comerciais que vendem ensino como mercadoria de fim-de-feira. As imagens estão lá e também não se renovam. Exibem, invariavelmente, calouros atacados pela prática jurássica do trote - mas sem conter o pranto de felicidade e artistas travestidos de ex-alunos, na pretensa tentativa de transferir credibilidade(sic) para esta ou aquela instituição. As lágrimas, na verdade, deveriam ser poupadas para momentos mais oportunos. Como por exemplo para a hora de pagar o valor de uma mensalidade que pouco ou nada condiz com o conteúdo pífio ministrado por professores inexperientes e recrutados em processos duvidosos de seleção. Valeria reservar também para a hora de disputar o mercado de trabalho. Não há dor pior do que constatar a perda de quatro ou cinco anos de orçamento e, claro, de tempo. E tudo prossegue exatamente como está. Minto, piora ano a ano. É cada vez mais abissal a profundidade do abismo que separa a qualidade do ensino ministrado em meia dúzia de escolas respeitáveis das verdadeiras fábricas de universitários que multiplicam pelo Brasil afora. Por causa disso, nunca tantos serão comandados por tão poucos. E, sabe-se lá, por quanto tempo, continuará a cristalização das diferenças culturais. Pouco tem sido feito para
resolver a situação do ensino brasileiro que, num ritmo mais rápido do que se imagina,
contamina também antigos redutos públicos de educação superior. Sem recursos,
cérebros dignos batem em retirada para a iniciativa privada nacional ou
estrangeira deixando as salas de aula a mercê de profissionais carreiristas,
acomodados na tediosa rotina da máquina pública onde a regra hoje é deixar como está
para ver se piora ainda mais. E a falta de bom senso agora também invade os cursos de idiomas. Sem norma ou regulação mínima e aqui ninguém e favorável à burocratização as escolas de línguas estão por todas as esquinas. Não há nenhuma garantia em relação ao resultado final, mas gasta-se cada vez mais nesse tipo publicidade o que inclui até atores estrangeiros famosos. O mote é sempre o mesmo: quem não sabe inglês está liquidado para o mercado de trabalho. A questão é que despreparado o cidadão já está. Saber inglês pode acabar, no mínimo, fazendo-o cometer tolices em outro idioma. * Cacá Sil Garcia é jornalista especializado em Economia/Finanças e Informática. |