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Ano III - Nº 37 - Primeira quinzena de maio de 2001

O Tigre e o Dragão
Cacá Sil Garcia*

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       Como está o seu Mandarim? Quem assistiu pela TV, em 1997, a cerimônia de devolução de Hong-Kong à China vai entender essa pergunta aparentemente fora de contexto. Sob chuva insistente, a ocupação da cidade por guardas do Exército Vermelho foi emblemática e de dar frio na espinha. Inertes como andróides, os soldados foram chegando, impassíveis, fazendo relembrar George Orwell. Do livro 1984, é claro, que até pensávamos como algo superado no que diz respeito à ameaça do totalitarismo, mas que pode se tornar profético quanto a outro aspecto.

Ao dividir o mundo em grandes blocos, como a Eurásia, por exemplo, ele, de certa forma, antecipou os grandes acordos comerciais entre nações, a exemplo do Nafta, Alca, Mercosul e Comunidade Econômica Européia. Na instabilidade das relações entre esses grandes concentradores de interesses há problemas graves em gestação. Associado a isso, despontam mais fortes as disputas por água e energia. Se o Brasil vive um momento difícil em seu próprio e provinciano quintal, há, com certeza, certa inépcia do governo, porém trata-se um fenômeno de proporções mundiais, envolvendo quantidades inimagináveis de dinheiro. Trata-se de uma equação sem solução e que pode arrastar o mundo a caminhos que desafiam a imaginação. Palestinos e israelenses lutam, no fundo, no fundo, é por água, enquanto os vizinhos árabes, que tem boa parte das reservas mundiais de petróleo, estão observando tudo, mas não se sabe até quando.

Onde entra o Mandarim? O Mandarim é um dos dialetos do idioma Chinês e pode se tornar um som bastante comum nas próximas décadas. Ou você acha que dois bilhões de chineses vão continuar tranqüilos e passivos dentro do território, vasto em extensão física, mas miúdo do ponto de vista da ambição geopolítica e econômica? A ex-União Soviética, esfacelada em países literalmente sucateados e em parte dominados por organizações declaradamente criminosas, está quase que descartada como grande player do cenário mundial e rival do mundo ocidental. Cede lugar para o vizinho e, até certo ponto, aliado.

Em tempo, nada contra o povo chinês que, ao longo de séculos comeu o pão que o diabo amassou na mão de países colonialistas, mas que ainda sofre na mão de um governo que administra vidas com mão de ferro. A questão toda é o desequilíbrio. Ou a China se integra àquela romântica visão do concerto das nações, abrindo seu mercado e aceitando regras para participar de um ordem econômica, ou as dissimuladas ações do governo de Beijing podem acabar levando a uma situação mundial bastante difícil.

George W. Bush e sua insensatez instantânea é o homem que tem tudo para conduzir as coisas para um lado ou para outro. De momento, as previsões não são muito otimistas. As comparações com a época da Guerra Fria são engraçadinhas e tudo mais, porém a crise é muito mais séria do que se imagina. Se ele não mudar um pouco o estilo, pode-se prever problemas de grosso calibre – e não é só força de expressão – nessa primeira metade de década do novo milênio.

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