artigos.gif (2561 bytes) logjornal.gif (7228 bytes)
Ano III - Nº 55 - Primeira quinzena de setembro de 2002

O Circo de Horrores Está de Volta

Cacá Sil Garcia*

kk.gif (4398 bytes)

Bizarro. Isso é o mínimo que se pode dizer da campanha eleitoral pela TV. E não estou falando só da qualidade e conteúdo dos programetes dos partidos nanicos. Pode colocar tudo num saco único, porque, independentemente da embalagem, o produto, em geral, deixa a desejar.

Ética e bom senso foram definitivamente banidos do vídeo e o que se vê é uma sucessão de conceitos e pensamentos duvidosos. Não há nada que resista a alguns segundos de razão. O espectador disposto a conhecer os candidatos fica submetido a, no mínimo, 100 minutos de tortura diária. Uma sopa indigesta de letras e personagens que parecem saídos do mais horroroso pesadelo. Mas o pior mesmo é o especial prazer em maltratar os sentimentos e emoções das pessoas.

Vem Lula e diz que vai vender medicamentos a preços populares. Para isso não hesita em mandar ao ar uma comovente dramatização da pobre mãe que chega à farmácia com a filha ao colo – sob chuva – e sai sem levar nada porque não tem dinheiro suficiente. Uma imagem fala por mil palavras, reza o chavão e dizem amém todos os marketeiros políticos. Mas até a Globo que é a Globo, em seu abominável programa Linha Direta, faz questão de deixar bem destacado na tela que as encenações não passam de simulações.

Aí vem o Serra e põe o Gugu Liberato para contar a história do pai que foi fruteiro. Usa a credibilidade do animador junto ao público para validar o seu programa político. Por conta disso, nada mais razoável, então, do que proibir Gugu de apresentar temporariamente o seu show dominical. Porque no subconsciente de milhares de eleitores os dois personagens já estão associados. Ver Gugu aos domingos e reforçar a imagem do Serra fora do horário permitido. O mesmo vale para Elba Ramalho, Chitãozinho e Xororó e outros.

E aí vem o José Apolinário, com seu programa embalado em estilo evangélico e coloca tudo "nas mãos de Deus". Mal sabe que há muito o País já está nas mãos de Deus. E Ele, aliás, é um cabo eleitoral bacana. Não cobra nada. Só que, como Ele não passou procuração para nenhum terráqueo, não faria mal, e seria de bom alvitre, deixá-lo em Paz. E na esteira de usos e abusos dos credos, Antonio Cabreira também teve seu minuto de deslize imperdoável ao se deixar filmar com a Bíblia na mão.

Isso tudo sem contar a barbárie perpetrada pelos candidatos que querem a fama custe o que custar. Enéas continua vociferando, enquanto um tal de Fidelix – seria parente do Asterix ? – promete monotrilho como se estivesse num programa estilo Shoptour. Nomes esdrúxulos também não faltam. Há Coronel Pintor, Baleia e até um que se apropriou da alcunha de um humorista bastante conhecido.

E em pleno século 21, com farto acesso a tecnologias baratas, ainda temos pérolas legítimas do mais obscuro fundo de quintal. Vamos ser modestos, mas não incompetentes, senhores. É preciso que o público consiga, ao menos, distinguir uma peça de campanha eleitoral de um vídeo da Al-Qaeda. Muitos candidatos parecem estar protagonizando uma daquelas constrangedoras mensagens dos homens-bomba.

É preciso, enfim, muito mais do que uma idéia ruim na cabeça e uma câmera contrabandeada do Paraguai na mão para fazer um programa político ruim. Porém é necessário ter um mínimo de respeito e decência pelos corações e mentes do povo.


* O autor Cacá Sil Garcia é jornalista especializado em Economia/Finanças, Informática e Saúde/Odontologia. E-mail: acsil@uol.com.br

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO