Ano VII nº 101 -

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Brasil Sorridente: Sinal Amarelo

Marco Manfredini*


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O agravamento da crise política e o crescente desgaste do governo Lula acendem um sinal amarelo no horizonte: a real possibilidade de paralisia do governo federal nos próximos meses e o subseqüente risco à continuidade das políticas públicas da atual gestão.

Apresentada à sociedade brasileira em 2003 e aprovada pela 3ª Conferência Nacional de Saúde Bucal em 2004, a atual Política Nacional de Saúde Bucal enfrenta o seu maior desafio, em sua curta existência.

O Brasil Sorridente, nome de fantasia da política, conseguiu vários avanços. O primeiro foi concluir em 2003 o Levantamento Epidemiológico Nacional de Saúde Bucal, que patinou durante o Governo Fernando Henrique Cardoso. Deve-se registrar que o Brasil é um dos poucos países a não ter dados relativos ao ano 2000, data-índice da Organização Mundial de Saúde, pela “competência” do governo anterior na gestão das políticas públicas de saúde.

A ampliação significativa das equipes de saúde bucal no Programa de Saúde da Família é outra conquista da atual política. Nunca é demais recordar que ao incorporar a Saúde Bucal ao PSF em 2000, o então Ministro da Saúde e posterior candidato à Presidência José Serra alardeava, com ampla cobertura jornalística à época, que, até o fim do governo FHC, em 2002, dez mil equipes de saúde bucal estariam atendendo a população brasileira. A vida real demonstrou que apenas 4.261 equipes de saúde bucal estavam implantadas em dezembro de 2002.

Os estímulos propostos pelo Governo Lula no início de seu mandato foram determinantes para a expansão da Saúde Bucal no PSF. O incremento nos repasses financeiros às modalidades I e II, da ordem de 57% e 65%, e a supressão do limite da relação de uma equipe de saúde bucal para duas equipes de saúde da família fizeram com que em junho de 2005, 10.628 equipes de saúde bucal beneficiassem mais de 50 milhões de brasileiros. A proporção equipes de saúde bucal por equipes de saúde da família cresceu de 25% em 2002 para 46% em 2005.

A atenção secundária, antes monopolizada pelo mercado privado, passou a ter um sensível incremento na rede pública, com a criação dos Centros de Especialidades Odontológicas (CEOs). No momento, são 161 centros oferecendo serviços especializados em endodontia, periodontia, cirurgia oral menor, diagnóstico bucal e atendimento a pacientes com necessidades especiais.

Entretanto, onde reside o calcanhar de Aquiles da atual política? Em minha modesta opinião, no fato de que esta política não se enraizou no âmbito dos estados e dos municípios, não galvanizou a sociedade civil para que esta efetivamente lutasse para que saúde bucal fosse entendida como  direito de cidadania e não ganhou os corações e as mentes dos profissionais de saúde bucal do país. Vejam que foram apenas três “não” em uma única frase. Com certeza, poderiam ser dezenas.

Matérias e fotos em jornais, recebimento de honrarias e homenagens de entidades odontológicas e aplausos em eventos não podem ser lidos como sinônimos de aprovação à atual política. Esta mesma mão já abençoou governantes anteriores e continuará a fazê-lo, acriticamente, em governos futuros.

O desafio colocado para a Coordenação Nacional de Saúde Bucal é enorme. Sintetizo numa preocupação essencial: como traduzir esta ampliação quantitativa em uma mudança de modelo assistencial, nos dezesseis meses que ainda restam à atual gestão.

Como dar respostas aos problemas vivenciados pelas equipes de saúde bucal que atuam no PSF, que imploram por capacitações técnicas, pela troca de experiências entre os serviços e pelo desenvolvimento de tecnologias assistenciais que permitam organizar o acesso à assistência odontológica.

Ou aos  profissionais que convivem com os problemas cotidianos nos CEOs, que vão desde a dificuldade de se organizar o agendamento até a constatação de que é necessária também a construção de uma teoria e uma prática para embasar o funcionamento das especialidades odontológicas no setor público.

Ou no acesso às terapias para o  tratamento do câncer bucal. Os municípios têm investido na ampliação da atenção básica, os casos são diagnosticados com mais precocidade, mas os usuários morrem em nossas mãos, pela falta de tratamento, que, pela sua complexidade e custo, deveria estar sendo organizado pelas Secretarias Estaduais de Saúde.

Estes desafios não estão colocados apenas para o Coordenador Gilberto Pucca. São desafios postos aos que querem, efetivamente, e não apenas no discurso, que saúde bucal seja uma política de Estado e não apenas de governo. Como diz o velho ditado, tomemos o cuidado para o bebê não escorregar de nossas mãos junto com a água do banho.

*Marco Manfredini, cirurgião-dentista com Especialização em Saúde Pública, chefe de Gabinete do vereador Carlos Neder, Consultor em Saúde Bucal da SMS- Campinas, coordenador Municipal de Saúde Bucal em São Paulo (1989-91) e Santos (1993-96). E-mail: manfra@uol.com.br 

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