artigos.gif (4386 bytes) logjornal.gif (4234 bytes)
Ano V - Nº 76 - Novembro de 2003 - 1ª Quinzena

Tanto Rio

Marco Manfredini*

Manfredini.jpg (9473 bytes)

 

Foi bonita a festa, pá. Confesso que ainda guardo as devidas emoções e que esperei uma semana para redigir este artigo, após as comemorações do Cinqüentenário da Fluoretação das Águas de Abastecimento Público no Brasil, promovidas pelo Sindicato dos Odontologistas do Espírito Santo, Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e Ministério da Saúde, em 23 e 24 de outubro, para poder dar vez e voz a uma pretensa racionalidade.

Em 31 de outubro de 1953, pela primeira vez no Brasil, um município recebeu o benefício de ter o acesso a fluoretação das suas águas de abastecimento público. Em um trabalho de iniciativa da Fundação Serviços Especiais de Saúde Pública (Sesp), Baixo Guandu, cidade do Estado do Espírito Santo às margens do Rio Doce, começa a fluoretar as suas águas.

A importância histórica pode ser recuperada quando vemos que os primeiros sistemas mundiais de fluoretação das águas de abastecimento público remontam ao ano de 1945, nos EUA e no Canadá. Apenas oito anos depois, um município capixaba entrava definitivamente para a história da Saúde Bucal Coletiva no país.

A comemoração de 2003 processou-se em dois períodos. No primeiro dia em Vitória, os professores Mário Magalhães Chaves, Flávio Antônio Luce, Aprígio da Silva Freire e Szachna Eliasz Cynamon recordaram a experiência dos primórdios da luta pela adoção deste método no país, há meio século.

Mas o grande momento estava reservado para o segundo dia. Às sete horas da manhã, embarcamos num trem da Companhia Vale do Rio Doce que nos conduziu de Vitória a Baixo Guandu. O maquinista nos informava que esta linha que se destinava até Belo Horizonte era a única de transportes de passageiros no País que ainda circulava diariamente no Brasil.

Era notável a ansiedade daqueles precursores em rever aquela cidade, décadas depois. Pude conversar detidamente com o professor Flávio Luce no percurso e resgatar os preconceitos que tiveram (e infelizmente ainda têm) de ser enfrentados face aos argumentos dos movimentos e ativistas anti-fluoracionistas.

Às 10 horas, descemos em Baixo Guandu. Uma pequena estação como milhares de outras no país e uma cidade de 28 mil habitantes, erguida entre a linha da estrada de ferro e as margens do Rio Doce. Sua principal atividade econômica é a agricultura e o movimento do minério de ferro pela ferrovia é impressionante. As locomotivas passam com mais de 100 vagões repletos desta riqueza brasileira. Durante todo o dia, em todos os momentos de comemoração, as cenas se repetiam: bandas, fanfarras, escolares e professores nos aguardando no ginásio, na estação de tratamento de águas e no fórum municipais.

Tornaram-se públicos os dados do Levantamento Epidemiológico recentemente realizado, sob orientação técnica da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, e que apontam uma redução da cárie dental nos escolares de 12 anos de idade da ordem de 74% nestes 50 anos, decrescendo-se o valor do índice CPO de 8,6 para apenas 2,2.

Para quem não pôde acompanhar este evento, sugiro procurar três registros destas atividades. O primeiro é a leitura da Carta de Baixo Guandu, que recupera os aspectos técnicos e políticos do encontro, e que pode ser obtida junto ao Sindicato dos Odontologistas do Espírito Santo. O segundo é a edição do documentário em vídeo, realizado por um cineasta capixaba e que teve seu roteiro organizado pelo cirurgião-dentista Carlos Roberto Augusto, natural de Baixo Guandu. E o terceiro, o livro "Flúor e Saúde Coletiva", organizado pelos professores Adauto Emmerich e Aprígio da Silva Freire.

Ao ambicionarmos um futuro melhor para o país, devemos lutar no presente. E para construir o presente, nada melhor do que aprender com a experiência do passado. Segundo os dados do Ministério da Saúde, 68 milhões de brasileiros recebem este benefício e se observa uma importante redução da cárie dental em crianças. Estudos já atestam que adultos em cidades beneficiadas pela fluoretação também apresentam menos dentes atacados pela cárie que em municípios não-beneficiados por esta medida, o que torna urgente a defesa do acesso universal de todos os brasileiros à água tratada e de qualidade e também a universalização da coleta e do tratamento do esgoto e de resíduos sólidos.

A iniciativa de fluoretar as águas em Baixo Guandu em 1953 foi uma das maiores vitórias da Saúde Pública no país e, fundamentalmente, uma conquista do povo brasileiro. Esperamos que, a exemplo do cravo vermelho renitentemente guardado pelo personagem da música Tanto Mar, de Chico Buarque, a semente da fluoretação de Baixo Guandu se amplie para os 60% de municípios brasileiros ainda desprovidos deste elementar direito de cidadania.


*Marco Manfredini, cirurgião-dentista com Especialização em Saúde Pública, Chefe de Gabinete do Vereador Carlos Neder, Consultor em Saúde Bucal da SMS- Campinas, Coordenador Municipal de Saúde Bucal em São Paulo (1989-91) e Santos (1993-96). E-mail: marcomanfredini@ig.com.br

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO