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Ano IV - Nº 52 - Primeira quinzena de junho de 2002
Aspectos Emocionais no Diagnóstico e Tratamento do Bruxismo

Dr. Marco Antonio De Tommaso*

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Medo pode ser considerado uma reação a uma ameaça. Um legado do processo evolutivo que confere proteção e nos permite evitar o perigo com valor óbvio na sobrevivência, ocorrendo diante de ameaças concretas.

A ansiedade, por sua vez, pode ser definida como uma emoção subjetiva, voltada para o futuro (como uma tentativa de preencher o intervalo de tempo entre o momento presente e o futuro), semelhante à sensação de medo, com manifestações físicas (taquicardia, respiração mais rápida, sensação de sufocação, tremores, sudorese, ondas de frio ou calor, contração muscular etc.), psíquicas (apreensão, expectativa, insegurança, inquietação, sentimento desagradável de que algo está para ocorrer, etc.) e comportamentais (evitação ou fuga da situação que provoca a ansiedade).

É considerada "normal" ou "positiva" quando leva à ação adequada, como estudar para uma prova ou preparar-se com antecedência para uma palestra. É "negativa" quando leva ao desespero, a não conseguir fazer a prova nem estudar para a mesma, evitando-a ou tendo "branco". Ou, de outra forma, é positiva quando interfere favoravelmente no desempenho e negativa quando o prejudica.

Quando desproporcional ao grau de ameaça da situação, exacerbada em sua manifestação em intensidade ou duração, estamos diante de um transtorno de ansiedade. Pânico, fobia social (timidez exagerada, por exemplo), ansiedade generalizada, transtorno obsessivo compulsivo e stress pós traumático, são alguns destes transtornos de ansiedade.

Do ponto de vista fisiológico, ocorre ativação do sistema nervoso autônomo que nos predispõe a lutar ou fugir, como faziam nossos ancestrais diante de um predador, de uma invasão tribal ou de intempéries. Para isso, todo o corpo é ativado pela mensagem de perigo enviada pelo cérebro. Mobilizados por descarga de adrenalina, corpo e mente se preparam para um instante de força máxima, como se a vida, efetivamente, estivesse em jogo.

A raiva, reação de defesa do organismo contra situações de frustração, também apresenta alterações físicas e psíquicas semelhantes à ansiedade. Observemos que um animal, ao expressar hostilidade (dos mamíferos em diante, incluindo o homem), cerra os maxilares. No homem, a raiva pode ter um caráter de ruminação e retaliação que a torna uma das emoções mais difíceis de controlar.

Entre as reações físicas do medo, ansiedade e raiva, temos a contração muscular, visando dotar o animal de força máxima. Afinal irá lutar ou fugir e precisará de energia total. Quando a reação de luta e fuga é finalizada (quando nos safamos de uma situação de perigo concreta) o organismo se restabelece e prontamente volta a seu equilíbrio.

Ocorre que na ansiedade não há ameaça concreta, mas a avaliação errônea de perigo que habitualmente não se resolve lutando ou fugindo. É o medo interiorizado que permanece cronicamente em nós. Então as conseqüências físicas e psicológicas se perpetuam, levando o organismo a sérios prejuízos.

Em meus mais de 20 anos de profissão atendendo a esse tipo de transtornos, posso afirmar que a contração muscular, cronicamente mantida, leva a problemas diversos, tais como: mialgias, dores na nuca e no pescoço, lombalgias, cefaléia e outros. É o stress desencadeando patologias. É o adoecer como forma inadequada de manifestar emoções!

Do ponto de vista odontológico, há a possibilidade desta contração muscular, via ansiedade e raiva, levar à pressão indevida dos maxilares, ocorrendo o bruxismo e as dores musculares em face e na região de ATM.

Quando presente um mal deste tipo, que tenha a ansiedade como componente (ou desencadeante), é fundamental que ao lado do indispensável tratamento clínico odontológico, se faça a correção psicoterápica, ou o fator ansiógeno continuará a desencadear os mesmo efeitos. É assim nas fibromialgias, nas úlceras gástricas, na obesidade, nos transtornos alimentares e no BRUXISMO, de interesse direto do cirurgião-dentista.

Muitas vezes, a ansiedade é reprimida não aparecendo em nível de consciência, mas o sistema nervoso autônomo permanece ativado. Em outras palavras, a pessoa não tem consciência da ansiedade embora sofra os efeitos da mesma. Neste caso, é muito comum que o cirurgião-dentista seja o primeiro a constatar e a diagnosticar o quadro, via desgastes dos dentes provocados pelo ranger noturno ou pelas dores musculares faciais apresentadas, principalmente, ao acordar.

Se o bruxismo estiver presente e acompanhado de quadro de ansiedade clínica (ou subclínica) e esta não for definitivamente trabalhada, qualquer tratamento odontológico será apenas paliativo, na medida em que os fatores desencadeantes permanecem intactos.

Não foram poucas as vezes que vi pacientes perderem tratamentos odontológicos inteiros, reabilitações protéticas ou boas restaurações, pois o hábito e a força do ranger noturno destruíram todo o trabalho do dentista.

Estudos controlados mostram a eficácia da Psicoterapia Comportamental e Cognitiva nos quadros de ansiedade, bem como a elevada correlação entre os estados ansiosos e emocionais negativos e bruxismo.

Quero com este artigo manifestar meu claro objetivo de lembrar que o verdadeiro e completo sucesso do tratamento desse tipo de patologia só se obtém com a atendimento multiprofissional que, via de regra, começa sob o olhar cuidadoso de um cirurgião-dentista.


*Dr. Marco Antonio De Tommaso - Psicólogo clínico pela Universidade de São Paulo – USP; atuou como psicólogo no Ambulatório de Ansiedade do HC/USP; credenciado pela Associação Brasileira para Estudos da Obesidade; psicólogo das Agências Elite e L’Equipe de modelos
E-mail: tommaso@terra.com.br
Internet: www.saudeweb.com.br/tommaso www.saudeweb.com.br/ coluna emagrecimento (+11) 3887 9738

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