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Ano V - Nº 71 - Agosto de 2003 - 1ª Quinzena

Cabeça Magra x Cabeça Gorda

Dr. Marco Antonio De Tommaso*

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"Comi um pedaço de bolo no trabalho. Era aniversário de uma colega.
De cara pensei: está tudo perdido! Vou estragar minha dieta!. Saí do escritório, passei em um supermercado e comprei doces e sorvetes. Afinal, perdido por um... Em casa, devorei tudo isso e muito mais. Dor, culpa, arrependimento e...mais comida. Final de mais uma dieta! Mais uma frustração, auto-estima lá em baixo!" (depoimento de Maria Lúcia, 28 anos).

Este relato, típico de pessoa com compulsão alimentar, revela o lado "gordo" de nossa amiga. Sua forma distorcida de avaliar a realidade a levou, como vem levando, a comportamentos errôneos em relação a seu peso, ao alimento. Pensamentos que refletem crenças errôneas, não questionadas.

Naturalmente, todos os seus colegas comeram a fatia de bolo. Aqueles de "cabeça magra" voltaram ao seu trabalho e não mais pensaram no assunto. Nem se iriam "compensar" deixando de comer isso ou aquilo no jantar. Cada qual voltou para sua casa e tocou sua vida, inclusive em termos alimentares.

Qual a diferença entre eles e Maria Lúcia?

Nela, a perspectiva de comer um pedaço de bolo provocou, por experiências passadas, pensamentos automáticos distorcidos, do tipo "está tudo perdido", "estraguei tudo" que a levaram à culpa e motivaram o descontrole.

Como poderia ter agido, se fosse possível voltar no tempo?

Seu comportamento está automatizado. Ela procede dessa forma sem perceber. Aceita, sem qualquer contestação, pensamentos distorcidos como verdadeiros sem sequer dar-se conta.

Enquanto não aprender a "desmontar" esse comportamento, será refém de situações desse tipo, por melhor que seja sua dieta. Lembre-se, pensamentos distorcidos geram comportamentos distorcidos e refletem crenças errôneas.

Neste caso é necessário identificar, estar atento aos primeiros indícios desses pensamentos automáticos. Para isso devemos registrar os pensamentos da forma em que ocorrerem. Pergunte-se: "O que estou pensando agora?" "O que se passa em minha mente?" "... estraguei tudo!", "está tudo perdido!".

Após identificar esses pensamentos, deverei questioná-los. "SERÁ que realmente estraguei tudo?" "Como posso justificar isso?" "Em que me baseio?" Bem, comi um pedaço de bolo e acrescentei algumas calorias à minha dieta HOJE, mas, se eu parar agora, não terei estragado nada!" Pronto! Criamos ao menos a opção de nos comportarmos desta ou daquela maneira! Colocamos a razão, a mediação entre o impulso e o ato de comer em si.

Procedendo desta forma, identificando, mediando e questionando esses pensamentos, eles serão substituídos por outros mais lógicos e que gerarão comportamentos mais adaptativos. Se não me sinto culpado de ter comido um pedaço de bolo, se compreendo que isso não é o caos, posso evitar o ataque de comer.

A sensação de falta de controle leva à culpa. A culpa gera ansiedade. A ansiedade leva à comida, que leva à sensação de falta de controle, que leva à culpa, que leva à ansiedade, que leva...

Este ciclo pode e deve ser interrompido questionando-se sua origem: forma errônea de avaliar a realidade.

No começo do "desmanche" desse comportamento preocupe-se com o processo, não com o resultado. Este virá como conseqüência. Erros deverão ser vistos como oportunidade de aprendizado, não como fracassos.


*Dr. Marco Antonio De Tommaso - Psicólogo e psicoterapeuta pela Universidade de São Paulo – USP; atuou no Ambulatório de Ansiedade do HC/USP; credenciado pela Associação Brasileira para Estudo da Obesidade; psicólogo das Agências Elite e L’Equipe de modelos
E-mail: tommaso@terra.com.br
Internet: www.saudeweb.com.br/ coluna emagrecimento (+11) 3887 9738

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