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| Ano V - Nº 90 - Setembro de 2004 |
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O verbo e a verba Marcelo de Andrade* |
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Parte dos profissionais de Odontologia ainda encara a Comunicação como item supérfluo, prestes a ser cortado na primeira contenção de custos. Ou pior: nem chegam a contemplar a possibilidade de investir em comunicação porque têm a percepção de que serviços deste tipo custam caro. Trata-se de
uma postura equivocada, pois sem comunicação não é possível "formar
público". E "Mas toda hora vejo público - na rua, no clube, no mercado, no cinema. Para quê vou formar mais público? O público já não está formado?" - pergunta-se o arguto leitor. Acontece que há públicos e públicos. Um público pode ser classificado por faixa etária, classe social, grau de instrução, orientação sexual, religião, hábitos de consumo e uma série de outros critérios. Para o assunto em debate interessa o que os teóricos de Relações Públicas utilizam como classificação básica. Para eles, público é um grupo de pessoas que reconhece um problema e se organiza para resolvê-lo. Se este elo - problema, assunto, interesse, motivação, causa - não existe, a massa de pessoas não passa de um não-público. Se as pessoas
não reconhecem a existência do problema nem fazem nada para resolvê-lo, elas
formam um público latente. Quando são conscientes de um problema comum
tornam-se o que os especialistas chamam de público informado. E quando se
organizam para fazer algo em relação a esse problema, são público ativo. Um
exemplo clássico de público ativo são as organizações Portanto, mesmo que um cirurgião-dentista tenha contato com diferentes públicos todo dia - família, vizinhos, fornecedores, colegas de profissão, parentes, pacientes -, isto não significa que tais grupos tenham consciência da importância da saúde bucal (público latente) e que busquem orientação especializada para mantê-la ou tratá-la (público ativo), ainda que apresentem perfil socioeconômico adequado ao posicionamento do seu estabelecimento. O raio de
atuação do cirurgião-dentista vai além do consultório. Como profissional de
saúde, ele é um formador de opinião e disseminador de conceitos de
prevenção. Se ele informar estes públicos corretamente sobre os cuidados com
saúde bucal - no clube, na reunião do condomínio, no Esta lógica é
aplicável ao indivíduo. Uma pessoa bem-informada está mais capacitada e
motivada para tomar uma decisão, ou seja, passar para o estágio ativo.
"Tenho dor na mandíbula. Isso pode evoluir para um quadro pior se não buscar
tratamento. Cirurgião-dentista trata de dor na mandíbula. E se eu procurar
aquele cirurgião-dentista que falou comigo sobre isso/mandou um boletim
informativo/deu palestra na igreja?" Esse é o raciocínio que mostra a
passagem de uma etapa à outra. Ainda que o paciente não procure o
cirurgião-dentista que lhe conscientizou, mas um outro colega, esta postura
ajuda a movimentar a roda da Odontologia. Amanhã, pode ser que aquele A chave para
mudança de comportamento é a informação, conteúdo. E para transmitir essa
informação é necessária a comunicação. Há diferentes meios para um
cirurgião-dentista se comunicar com seu público. Boletim informativo, site,
publicações estrategicamente colocadas na sala de espera, cartões de visita
com mensagens educativas, palestras etc. Vale lembrar que É um mito
também que "comunicação custa caro". Há soluções para cada tipo de bolso.
Inclusive alternativas que não dependem de verba, mas de verbo. Um
cirurgião-dentista situado nas imediações da Av. Paulista, em São Paulo,
aproveita os horários ociosos na agenda para tomar um café na movimentada
lanchonete vizinha. Lá ele conversa com os freqüentadores habituais. Entre Nem todos, porém, tem desenvoltura para comunicação interpessoal ou disponibilidade para captar clientes desta maneira. O que serve para um profissional pode não funcionar para outro. Cada público exige um tipo de abordagem diferente, com a linguagem adequada. Um odontopediatra certamente se dirige aos seus clientes - pais e filhos - de forma diferente de um endodontista. Um outro cirurgião-dentista de São Paulo, que atende a classe alta, incluindo artistas e personalidades, contratou uma assessoria de comunicação para produzir um boletim para seus clientes. Impresso em papel nobre e com um projeto gráfico elegante, o boletim traz orientações sobre saúde bucal e também crônicas assinadas pelo profissional, na qual ele dá vazão à sua veia literária. Comunicação exige continuidade porque o processo de formação de público não tem prazo para acabar. É preciso marcar presença sempre junto ao público latente e ativo e sensibilizar o público potencial ou de interesse, formado pelas pessoas que o leitor gostaria de ter como clientes. Deve-se levar em conta também os esforços da concorrência em cooptar o maior número de pacientes possível, incluindo os seus. O ideal é que cada um busque, junto de um profissional de comunicação social, estabelecer a melhor forma de se comunicar com seus diferentes públicos, de acordo com suas possibilidades de investimento. Quem não forma público, corre o risco de cair no anonimato. E no esquecimento. *Marcelo de Andrade é
jornalista com pós-graduação em Comunicação Social pela |