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| Ano V - Nº 96 - Março de 2005 |
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A coletiva de um homem só Marcelo de Andrade* |
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Coletiva, no jargão jornalístico, é uma entrevista concedida a um grupo de jornalistas. É um expediente cada vez mais raro, pois com a redução dos quadros nas redações, a maioria dos repórteres simplesmente não tem tempo de sair à rua em busca da notícia. Faz tudo por telefone, e-mail, etc. Como nesta vida se vê de tudo, um dia fui parar numa coletiva onde eu era o único repórter presente. Além de mim, cúmplice de ofício no local só encontrei a assessora de imprensa, que tentava laçar com o celular alguns colegas para a apresentação que se desenrolaria em breve. Resignei-me e esperei, apesar do calhamaço de papéis que me aguardava no escritório e da pilha de matérias que tinha de escrever. A coletiva em questão havia sido organizada para apresentar à imprensa especializada um novo sistema de clareamento dental estrangeiro. Um cirurgião-dentista, usuário do método, fora designado para dar seu testemunho “imparcial” sobre a tecnologia, do ponto de vista técnico. Aguardava apenas a improvável presença de mais repórteres para começar. No final haveria espaço para perguntas, a coletiva propriamente dita. O evento amargava meia hora de atraso e a assessora já estava com cãimbra nos dedos de tanto fazer chamadas pelo telefone móvel - todas sem sucesso, é claro (informo que não ganhei nada da operadora homônima para fazer este merchandising).Estava eu agonizando em silenciosa cumplicidade o desespero da colega quando o gerente de marketing da empresa assessorada convidou-me para conhecer o sistema montado em um consultório no mesmo prédio onde ocorreria – se Deus assim o permitisse – a apresentação temporã. Suspeito que tomara esta iniciativa para evitar minha fuga precoce. Subimos até o consultório. Mostrou-me pacientemente todo o equipamento, lustrando os pontos positivos do aparato, enfatizando este ou aquele benefício. Voltamos cerca de vinte minutos depois. A sala estava como a deixamos, com sua teimosa ausência de platéia. Como nenhum outro colega havia cedido aos apelos da assessora de imprensa e o compromisso avançava o horário do almoço, a fome venceu o relógio e o cirurgião-dentista resolveu fazer a preleção exclusiva para mim. Fiquei a par de mais alguns detalhes do produto e, de volta ao escritório, fiz uma matéria para o Jornal do Site Odonto. Outro dia soube que a assessoria de imprensa fora dispensada. Provavelmente não por demérito, mas porque a empresa talvez tenha se convencido de que precisava estruturar melhor seu negócio no país antes de buscar a exposição. Faz parte do jogo. Relato esta história para mostrar que, às vezes, mesmo fazendo um ótimo serviço de divulgação, algo pode dar errado. Naquele dia em que a coletiva foi organizada, pode ter acontecido algo muito mais importante, que monopolizou a atenção da mídia, por exemplo. Neste caso, é necessário fazer uma avaliação para descobrir onde a estratégia furou. Muitos assessorados acreditam que sempre têm uma informação irresistível e inédita nas mãos, que merece a capa da Veja, Época ou Isto É, mas que não resiste a uma análise fria, ou seja, não têm “sustança” ou novidade sequer para coadjuvar em uma nota de rodapé de um jornal de bairro (com todo o respeito aos jornais de bairro, que devem ser tratados pelos assessores de imprensa com a mesma prioridade dispensada aos jornalões). É preciso se precaver com este tipo de canto da sereia. Um assessor de imprensa pouco familiarizado com o assunto tratado ou municiado com dados superestimados pode comprometer toda uma estratégia de divulgação. O ideal é que tanto o assessorado quanto o assessor de imprensa sejam sinceros uns com os outros e pesem realmente o potencial da informação para gerar uma notícia interessante para os meios de comunicação que pretendem atingir. E se o assessor experimentado considerar a informação efêmera ou inócua, o cliente tem que ter a humildade de acatar um parecer técnico de um profissional no assunto. O jornalista, por sua vez, terá de se esforçar para compreender o negócio do assessorado, a fim de identificar o potencial jornalístico que ele apresenta como fonte de notícias para a imprensa leiga ou especializada, em seu ramo de atuação. A sintonia fina entre as duas partes é imprescindível. Não é a simpatia definitiva contra o risco da coletiva de um homem só, mas aumenta as chances de acerto. *Marcelo de Andrade é
jornalista com pós-graduação em Comunicação Social pela Veja aqui outros artigos publicados pelo autor no Jornal do Site Odonto |