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| Ano III - Nº 48 - Segunda quinzena de dezembro de 2001 |
Estava tudo indo às mil maravilhas, ou pelo menos, quase. O céu não caiu sobre nossas cabeças na virada do milênio, o apocalipse não aconteceu, o sertão não virou mar nem vice-versa, embora muita gente torcesse por isso. Notava-se até um certo orgulho entre meus contemporâneos por testemunhar o início de uma nova era. O progresso científico prometia uma série de maravilhas. Alguns prodígios já haviam se manifestado. A clonagem aproximava cada vez mais a perpetuação da espécie das linhas de montagem de Ford, a popularização do silicone queimava algumas etapas da escala evolucionária feminina e o Viagra prolongava a adolescência até a terceira idade. Os microprocessadores, por sua vez, ultrapassavam a marca de 1GB, transformando o computador na máquina ideal para estimular o desenvolvimento de lesões por esforço repetitivo nos usuários, que se obrigavam a digitar mais e mais rápido para acompanhar a velocidade dos bits. Está certo que outros, mais recalcitrantes, praguejavam porque as gerações futuras se lembrariam de nós como uma relíquia do passado, da mesma forma como encaramos com desdém as fotos esmaecidas dos nossos ancestrais em velhos álbuns de família embolorados e amarelados. Mas nem a ranhetice conseguia desfazer esta crença cega no amanhã. A utopia de uma Xanadu mundial com celulares de terceira geração e home theater para a Humanidade, irmanada pelo espírito de paz e fraternidade, começou a ruir aos poucos. Bravatas internacionais, guerras santas, crises econômicas. Difícil culpar um único episódio pelo fim do sonho. O fato é que o mundo não estava mesmo preparado para o III Milênio. Mas que tal uma nova tentativa no ano que vem? ** Marcelo de
Andrade é jornalista pós-graduado em Comunicação Social pela Faculdade Cásper
Líbero. |