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Os "gatos na internet - Parte III Marcelo de Andrade |
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Veja o que dizem sobre a veracidade de fatos científicos na Internet os Até que ponto as informações científicas contidas na Internet estão livres de mistificações e engodos? Estas questões surgem com maior força à medida que aumentam casos de fraudes na rede, como o dos hackers que montaram uma página falsa do UOL e simularam um recadastramento para ter o número do cartão de crédito dos assinantes. Se nem o site do maior provedor do país está a salvo da má-fé dos piratas do ciberespaço, quem estará? A situação é bastante grave. Imaginem o desserviço que a divulgação de uma informação científica falsa ou errônea sobre saúde pode provocar à sociedade. De um momento para outro, pode colocar em risco a vida de pessoas, arruinar carreiras, destruir empresas, derrubar a Bolsa e outras catástrofes não menos prejudiciais. Mas como saber se um artigo científico é um gato disfarçado de lebre? O perigo abrange tanto pesquisas fajutas, sem o mínimo de respaldo, como as pesquisas tendenciosas. O número de pesquisadores cujo trabalho é subsidiado por empresas particulares aumenta a cada dia. Soma-se a isso o fato de que há revistas, principalmente leigas, cobrando grandes quantias para publicar determinados temas, seja em forma de reportagens (matéria paga) ou propaganda (anúncio ou informe publicitário). O esquema também atinge publicações científicas pouco recomendáveis. Então há uma grande probabilidade de que um site só publique informações de interesse de seus parceiros comerciais. Se as informações oferecidas por estas empresas forem de caráter duvidoso, o site embarca numa fria. E o leitor junto. Ou então artigos científicos mais importantes, mas sem o mesmo apelo comercial, permanecem no ostracismo. Esta é uma nova faceta dos "gatos". O prof. Décio dos Santos Pinto, da pós-graduação da Universidade de Brasília, acredita que um corpo editorial sério e independente, desvinculado de compromissos com grupos econômicos, pode fazer uma triagem razoável dos trabalhos encaminhados para publicação em um site. É assim que funcionam as melhores publicações odontológicas do mercado. "No fundo, tal qual no mundo real, trata-se de uma questão de bom senso. Vale dizer, deve-se confiar mais na informação de que a cura da AIDS foi encontrada se esta informação estiver no site do CDC (Center of Diseases Control) do que se estiver na coluna Joyce Pascovitch.", declara Angelo Giuseppe Roncalli da Costa Oliveira, integrante do Comitê Técnico Científico de Assessoramento da Área Técnica de Saúde Bucal do Ministério da Saúde, grupo responsável pela elaboração do Projeto SB 2000 Condições de Saúde Bucal da População Brasileira no ano 2000, espécie de censo epidemiológico em escala nacional. A Revista da APCD (volume 52, número 2, página 102) publicou carta assinada por Paulo Frazão e Paulo Capel Narvai, ambos ligados à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, sobre a necessidade da análise dos textos técnicos por parte de outros pesquisadores para evitar erros primários, aprimorar a consistência das informações e contribuir para juízo científico dos leitores. "Independentemente do meio, eletrônico ou não, o importante é assegurar base científica nos argumentos", explica Frazão, que também assessora o Projeto SB 2000. Já Narvai elege o jeito clássico de fazer revisão artigo revisado por pelo menos três pares antes da publicação como uma das melhores barreiras mecânicas para coibir o que ele chamou de "estelionato intelectual". Mas para o ex-diretor clínico da Universidade de Franca atualmente radicado no Canadá, o endodontista Eliseu Pascon, não existe a possibilidade de se evitar fraudes em artigos científicos nem nas mais conceituadas revistas, apesar de contarem com corpo editorial com excelentes revisores. "Houve um caso de publicação na revista Science, no qual um pesquisador da Harvard foi acusado, algum tempo após a publicação, de ter falsificado os resultados da pesquisa. Havia, inclusive, uma research associate brasileira envolvida. Não creio que exista o mesmo critério de revisão nas publicações da Internet, a menos que seja de uma dessas revistas conceituadas, como Science, Nature, etc.", observa Pascon. Para Olinda Tárzia, especialista em xerostomia, o problema não é só saber se o artigo é falso ou verdadeiro, mas se tem algum valor ou qualidade científica. "Quem recebe um artigo para publicar poderia consultar pessoas da área, até mesmo sem mencionar ao autor quem foi o relator da aprovação de seu trabalho para publicação, como a própria Fapesp faz, e revistas de renome também. O problema é que se ele quiser publicar no seu próprio site, você não poderá impedir, mas pelo menos não vai comprometer o bom nome das publicações. Acho que nem é necessário ser muito exigente, mas criar alguns critérios mínimos para não sair gastando bytes com bobagens." Outro problema é a falta da apuração. Na pressa de dar uma notícia antes do concorrente, muitos sites passam a informação para frente sem checagem prévia. Isso está se tornando uma prática muito perigosa atualmente. Certamente os editores científicos tarimbados têm um crivo bastante eficiente para selecionar o material que chega em suas mãos para publicação. O problema está na vulnerabilidade da Internet. Nada impede um mal intencionado de criar uma página com informações imprudentes ou de sabotar um site famoso. Ainda hoje, os dados divulgados pela Internet precisam ser cotejados com a imprensa escrita. O mesmo vale para o jornalismo científico. Confirmar os dados de um artigo com a bibliografia impressa e ratificada pelo meio acadêmico é imprescindível. Também é preciso muito cuidado com o Dia da Mentira. Até mesmo algumas publicações sérias costumam publicar brincadeiras na data. Paulo Capel Narvai recorda um jocoso episódio protagonizado por um periódico acadêmico. "Lembro-me que, certa vez, no dia 1ºde abril, o Jornal da USP resolveu brincar com o Dia da Mentira e publicou, em manchete, que um pesquisador da universidade havia desenvolvido um método para empacotar água e que a aplicação prática deste avanço científico resolveria o problema das enchentes na região metropolitana de São Paulo. Apesar do absurdo, muita gente que só leu a manchete - a matéria esclarecia tratar-se de brincadeira - embarcou na história e a descoberta alimentou de assunto alguns almoços e jantares nos dias seguintes." ** Marcelo
de Andrade é jornalista pós-graduado em Comunicação Social pela Faculdade
Cásper Líbero. |