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Bomba-relógio

Marcelo de Andrade

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O episódio narrado a seguir aconteceu em um consultório médico, mas provavelmente poderia ter ocorrido também em consultórios odontológicos, escritórios de advocacia, clínicas de massagem, cabeleireiro, mecânica ou qualquer outro estabelecimento em que um cliente fica à mercê de um prestador de serviço.

Em São Paulo, vigora um regime de rodízio de veículos. Os carros fiam proibidos de circular em determinados dias, das 7h00 às 10h00 e das 17h00 às 20h00, de acordo com o final da placa. Multas pesadas para infratores.

Numa terça-feira recente, um paciente se dirigiu para uma consulta marcada às 16h15. Estava tranqüilo pois havia tempo de sobra para passar no médico e se deslocar de volta ao trabalho antes do prazo fatal. Pelo menos era o que pensava. Porém, quando chegou na sala de espera, outros dois pacientes mofavam no sofá, folheando revistas amarelas. Não adiantou argumentar que estava no horário e que era dia do seu rodízio. "Terá de aguardar", respondeu secamente a recepcionista.

Quarenta minutos se passaram até chegar a sua vez.

A consulta não durou míseros dez minutos, mas foi tempo suficiente para que seu carro ficasse preso por causa da proibição.

Teve de deixar o carro no estacionamento, se deslocar de ônibus e metrô de volta ao trabalho, levando pelo menos meia hora a mais do que o previsto, o que atrasou os seus afazeres, e ainda por cima gastou uma fortuna para retirá-lo, três horas depois. Chegou em casa tarde e encontrou um jantar frio na mesa.

Naquele mesmo dia, o médico, com a sensação do dever cumprido, recostelava-se no sofá para assistir um jogo na TV por assinatura, sem saber que naquela tarde acabara de perder um paciente e um sem número de indicações.


** Marcelo de Andrade é jornalista pós-graduado em Comunicação Social pela  Faculdade Cásper Líbero.
    E-mail: marceloandrade@editabr.com

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