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| Ano VII- Nº 97 - Abril de 2005 |
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Câncer bucal Márcio Ajudarte Lopes* |
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O câncer bucal tem freqüência variável de acordo com a localização geográfica, sendo o Brasil um dos paises com uma das mais altas incidências do mundo. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Ministério da Saúde, a estimativa de incidência de câncer para 2005 no Brasil aponta o câncer de boca como o 8º mais freqüente entre os homens com um total de 9.985 novos casos e o 9º entre as mulheres com 3.895 novos casos, totalizando 13.880 casos. A etiologia do câncer bucal é multifatorial e ocorre em várias etapas. Entretanto, o fumo é considerado o principal fator de risco. Estima-se que no Brasil existem 30 milhões de fumantes, sendo que 40% são mulheres. Cigarros tradicionais, de palha, charutos e cachimbos parecem ser igualmente nocivos. Entretanto, o risco para indivíduos que fumaram cigarros tradicionais ou industrializados decresce progressivamente após o abandono do hábito, atingindo após 10 anos níveis semelhantes aos pacientes não fumantes. Em pacientes que fumaram cigarros de palha, o risco também diminui com o tempo, mas após 10 anos de abstinência, ainda permanece elevado. O consumo de bebidas alcoólicas também tem sido correlacionado com aumento no risco para câncer de cavidade oral. Assim como ocorre com o tabaco, o risco depende do tipo de bebida, quantidade do consumo diário e a duração do hábito. Destilados são os diretamente ligados ao câncer bucal, o que geralmente não ocorre com cerveja e vinho, que além do menor teor alcoólico, são consumidos em escalas menores. Apesar de não haver dados oficiais, parece que os alcoólatras são os mais suscetíveis. A associação do fumo e álcool tem efeito maior do que cada um destes fatores isoladamente. Dos pacientes com câncer bucal, estima-se que 95% são fumantes e 76% fumam e consomem bebidas alcoólicas regularmente. Além do fumo e álcool, outros fatores também têm sido associados por alguns autores com desenvolvimento do câncer bucal como: consumo de chimarrão, pobre higiene bucal, papilomavírus humanos (HPV), entre outros. Por outro lado, há evidências de que a ingestão de alguns alimentos possa diminuir o risco de câncer oral, principalmente os alimentos contendo beta-caroteno e frutas cítricas. Com relação ao trauma, muitas informações são transmitidas enfatizando a associação com o câncer bucal, particularmente trauma decorrente do uso de próteses mal adaptadas, dentes com arestas e mais recentemente relacionado ao piercing bucal. No entanto, não há dados científicos que sustentem a associação de câncer bucal com trauma de qualquer tipo. O câncer bucal é mais comum em pacientes com idade acima dos 40 anos, com pico de incidência na 6ª e na 7ª décadas de vida. A literatura internacional indica aumento de casos em pacientes mais jovens, com idade inferior a 40 anos. No Brasil, estima-se que 8% dos casos ocorrem em pacientes abaixo de 40 anos de idade. Afetam principalmente pacientes do sexo masculino numa proporção de 3:1. Entretanto, está havendo uma tendência de aumento no sexo feminino nas últimas décadas, devido principalmente ao aumento do consumo de cigarros. Os locais mais freqüentes de ocorrência são: lábio inferior, língua, assoalho bucal. No entanto, pode afetar também mucosa jugal, palato duro, palato mole, área retromolar, lábio superior e outras partes da boca. O principal sinal deste tipo de câncer é o aparecimento de úlceras (feridas) que não cicatrizam. Câncer bucal pode manifestar-se também como manchas brancas (leucoplasias) e/ou manchas vermelhas (eritroplasias) principalmente nas fases iniciais. Importante ressaltar que nas fases iniciais a sintomatologia é pequena e os pacientes procuram por atendimento geralmente quando apresentam dor, sintoma que está presente nos casos avançados, dificultando o diagnóstico precoce. No Brasil estima-se que o tempo médio entre o início da sintomatologia e a procura por atendimento é de 4 a 6 meses. O diagnóstico é feito pelos aspectos clínicos, confirmados pelo exame histopatológico de material obtido por biópsia. O diagnóstico clínico é facilitado pelo fácil acesso e observação. Entretanto, a maioria dos casos não é diagnosticada precocemente, principalmente porque nas fases inicias o carcinoma é assintomático. O tratamento depende, de um modo geral, das condições físicas do paciente, localização e do estadiamento clínico do tumor. Até a década de 50 o tratamento mais comum era a radioterapia, sendo usada em 90% dos casos. A cirurgia era usada apenas em casos de lesões pequenas. A cirurgia tem sido cada vez mais freqüente, sendo que cerca de 40% dos pacientes são tratados cirurgicamente. Geralmente há complementação com radioterapia. O uso da quimioterapia para câncer de boca é restrito, sendo utilizada principalmente de modo paliativo em casos avançados. Deve-se enfatizar que aproximadamente 75% desses tumores podem ser prevenidos, eliminando o consumo de tabaco, realizando consumo moderado de bebidas alcoólicas e aumentado a dieta de frutas e vegetais. O câncer de lábio deve ser considerado separadamente do carcinoma intra-oral. O fator mais importante é a exposição repetida aos raios ultravioletas da luz solar, afetando quase que exclusivamente o lábio inferior. O tabaco também é considerado um fator de risco. No entanto, o consumo de bebidas alcoólicas parece não aumentar a incidência de câncer nesta localização. Devido a fácil visualização o diagnóstico precoce é feito mais freqüentemente e pelas características do tumor e tipo de drenagem linfática, causa metástases em pequeno número de casos, sendo o tratamento na maioria das vezes exclusivamente cirúrgico, com bom prognóstico. O cirurgião-dentista (CD) é o profissional de saúde com maiores oportunidades de colaborar com o diagnóstico precoce do câncer bucal. O CD tem papel importante não apenas no diagnóstico, como também deve participar da equipe que faz a prevenção, o tratamento e a acompanhamento do paciente com câncer bucal. *Márcio Ajudarte Lopes é professor associado da Área de Semiologia da Faculdade de Odontologia de Piracicaba-Unicamp. E-mail: malopes@fop.unicamp.br. |