artigos.gif (4386 bytes) logjornal.gif (4234 bytes)
Ano V - Nº 59 - Janeiro de 2003

Banco de Dentes: uma história antiga

Marilia Vanzelli *
Prof. Dr. José Carlos P. Imparato**

marilia.jpg (6970 bytes)  imparato.jpg (6448 bytes)

A valorização do órgão dentário existe desde os tempos mais remotos. Para muitos povos, os dentes não representavam apenas a beleza, mas também a força, e sua ausência significava fraqueza e enfermidade (Ring,1985). Existem observações datadas de 1000 a. C. que comprovam essa valorização.

Os egípcios, por exemplo, preocupavam-se muito com os dentes, pois eram afetados por uma grande variedade de doenças dentais, que incluíam gengivite, pulpite, erosões e dor de dente. Em 3000 a. C. já existiam "médicos especializados em dentes" (Ring, 1985), que cuidavam dessas doenças.

Em escavações arqueológicas realizadas nas regiões habitadas por povos da Antiguidade, foram encontrados artifícios protéticos para a substituição dos dentes perdidos que datam de aproximadamente 400 a. C. Para isso, eram utilizados dentes artificiais feitos de ossos, marfim, dentes naturais humanos ou de animais, como o boi. Na maioria dos casos, esses dentes eram amarrados por fios de ouro nos dentes adjacentes (Ring, 1985).

Observa-se, então, que a preocupação com a reposição artificial do dente perdido é muito antiga. No princípio, eram usados produtos de origem animal (como o marfim, dentes, ou ossos) ou até mesmo dentes humanos retirados da cavidade bucal de pessoas mortas. Esses materiais eram insatisfatórios devido aos odores, descoloração, raridade e alto custo. Além disso, em relação aos dentes humanos, havia repugnância de se ter um dente de uma pessoa morta ou de outra pessoa em sua boca.

"Nota-se que essa é uma parte da história da qual se teve conhecimento sobre a utilização dos dentes naturais. Com certeza, é uma pequena face, mostrando o quanto foram importantes esses dentes para a evolução, ou mesmo, para a resolução dos casos da época" (Imparato, 1999).

A primeira idéia de Banco de Dentes surgiu provavelmente por volta de 1981, quando Grabrielli et al. (1981) criaram um método de colagem, para dentes anteriores, no qual a seleção de um dente para restabelecer a fratura coronária para substituição de um fragmento dentário perdido era feita através de um Banco de Dentes.

A partir daí, outras propostas relacionadas ao reaproveitamento do dente natural proveniente de um Banco de Dentes desenvolveram-se: colagem biológica, facetas naturais, a utilização em próteses parciais removíveis ou totais, estudos epidemiológicos para se estabelecer o padrão da cárie (dentes mais atingidos, desenvolvimento da lesão e face mais susceptível), além do estudo das características anatômicas dos dentes decíduos e permanentes (Imparato et al., 1997; Busato et al., 1998; Imparato, 1999).

Nota-se, portanto, a grande utilidade que teve e tem o elemento dentário decíduo ou permanente em aplicações clínicas, porém, para que esses dentes possam ser reaproveitados em condições mais satisfatórias, há necessidade de se organizar um Banco de Dentes, onde possam ser armazenados e mantidos até a época de sua utilização.

Apesar do grande número de publicações referentes à utilização dos dentes em ensaios clínicos, muitos pesquisadores vêm reaproveitando-os para trabalhos "in vitro", a fim de torná-los modelos para predizer o comportamento de técnicas e materiais restauradores na cavidade bucal. Mas não existe uma convergência de opiniões sobre a organização e funcionalidade de Bancos de Dentes Humanos" (Imparato,1999).

A importância da organização do Banco de Dentes Humanos nas Faculdades de Odontologia justifica-se pela necessidade de dentes humanos para o aprendizado de características anatômicas ou em atividades laboratoriais pré-clínicas e, principalmente, para acabar com a prática ilegal do comércio de dentes, ainda difundida no país.

Para finalizar, pode-se dizer que o cenário atual dos Bancos de Dentes tem dado um enfoque maior para as pesquisas e o treinamento laboratorial pré-clínico. As faculdades de Odontologia devem se conscientizar e organizar seus próprios Bancos de Dentes, a fim de que possam fornecer material biológico para os graduandos e pesquisadores. Assim, será possível acabar definitivamente com a prática do comércio de dentes e com a questão polêmica de professores que "pedem" dentes, ou melhor, órgãos aos alunos!

Sua faculdade já possui um Banco de Dentes? Caso queira maiores informações, entre em contato com o Banco de Dentes Humanos da FOUSP através do e-mail bdh@usp.br.

Aproveitamos a oportunidade para convidar a todos para o 2º Encontro Nacional dos Bancos de Dentes, no 21º CIOSP, dia 30 de Janeiro.


*Marilia Vanzelli - Coordenadora Acadêmica do Banco de Dentes Permanentes Humanos da FOUSP, cursando o 4o ano diurno de Odontologia na USP. Membro fundadora do Banco de Dentes Permanentes Humanos da FOUSP (em 2000). Iniciação Científica com bolsa de auxílio da Fapesp na área de Dentística Restauradora (início em setembro 2002).

**Prof. Dr. José Carlos P. Imparato - Professor Doutor da Disciplina de Odontopediatria da FOUSP, Unicastelo e Puc-Campinas; professor coordenador dos cursos de Mestrado em Odontopediatria da São Leopoldo Mandic e Especialização da ACDC Campinas; coordenador geral do Banco de Dentes Permanentes Humanos da FOUSP.

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO