Ano VII nº 101 -

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Coisa de menino

Maurício Cintrão*


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Nos meus velhos tempos do Ipiranga, em São Paulo, todos os meninos sonhavam em ser jogadores de futebol. Quer dizer, não só no Ipiranga, mas no Brasil todo. Isso já era normal naquela época. E nem havia essa exportação de jogadores que existe hoje. Ser jogador de futebol no futuro era um sonho comum e, bem ou mal, possível. Acho que tinha mais a ver com a notoriedade do que com o dinheiro. Você ia ter seu rosto estampado nas figurinhas, seu nome seria falado nas rodas de bar e padaria, os colegas de infância lembrariam de você com admiração.

E tinha uns meninos que eram bons de bola na minha turma. Até poderiam ter conquistado o sonho. Entretanto, não lembro de nenhum amigo que tenha virado craque profissional. Eu, com certeza, não virei. Sempre tive desempenho lamentável no jogo de bola. Em qualquer jogo de bola, diga-se de passagem. Deve ter sido por solidariedade. Eu sou uma bola desde pequeno. E quando eu era garoto, tinha a agilidade de um pudim cansado.

Mas eu sempre jogava. Isso porque era o "pega um". Sabe como é? "Ô, gente, tá faltando alguém para jogar no gol". E logo apontavam para os dois ou três que ficavam de fora. "Pega um aí". O responsável pelo convite era o "capitão" do time. Ele chegava perto da gente e perguntava com aquela careta de quem tem vergonha da proposta indecente: "alguém quer jogar no gol?". Eu ia, apesar dos gemidos do time.

Talvez você não saiba, mas a posição de goleiro era a mais abominada entre os meninos. Só iam para o gol dois tipos de garotos: os ruins de bola, como eu, ou aqueles que gostavam de jogar na posição (casos raríssimos). Eu conheci duas pessoas com esse talento: o Donizetti, que era da turma e defendia feito um gato, e, mais tarde, o Raphael, meu cunhado, um muro na frente do gol.

Naquele tempo, os astros eram Gilmar dos Santos Neves, o "Girafa", goleiro da Seleção Brasileira e do Santos, e Lev Yachin, o "Aranha Negra", da Seleção Soviética e do Dínamo de Moscou. Sujeitos que combinavam duas condições essenciais para ocupar a posição: talento e sorte. Em se tratando de futebol, nunca experimentei nenhum dos dois. E como eu tinha fama de frangueiro, já entrava em campo desacreditado. Conclusão: sempre levei vários frangos.

Mas como eu falava, os outros meninos eram bons de bola. E nenhum ficou famoso como jogador de futebol. O que foi feito deles, então? Não tenho a mínima idéia. Suponho que tenham seguido outras carreiras com maior ou menor sucesso em suas áreas de trabalho. Talvez até atuem ou tenham atuado no futebol. Mas não sei de nenhum que tenha ficado famoso.

Para falar a verdade, sinto uma pontada de culpa. Porque eu era tão ruim, mas tão ruim como goleiro que marcar um gol no meu time nem merecia comemoração. Era humilhante. "Ah, com esse cara de goleiro nem tem graça", diziam os atacantes depois do gol. "O gordo é café-com-leite", emendavam. E eu ficava furioso. Poxa, isso não se faz! E no silêncio derrotado de quem vai buscar a bola no fundo das redes, eu rogava pragas horrorosas contra os craques adversários. Sabe como é, né? Coisa de menino.

Será que as pragas pegaram?

 

**Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto - E-mail: cintrao@uol.com.br

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