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Nos
meus velhos tempos do Ipiranga,
em
São Paulo,
todos os meninos sonhavam em ser jogadores de futebol. Quer dizer, não
só no Ipiranga, mas no Brasil todo. Isso já era normal naquela época.
E nem havia essa exportação de jogadores que existe hoje. Ser jogador
de futebol no futuro era um sonho comum e, bem ou mal, possível. Acho
que tinha mais a ver com a notoriedade do que com o dinheiro. Você ia
ter seu rosto estampado nas figurinhas, seu nome seria falado nas
rodas de bar e padaria, os colegas de infância lembrariam de você com
admiração.
E tinha uns meninos que eram bons de bola na minha turma. Até poderiam
ter conquistado o sonho. Entretanto, não lembro de nenhum amigo que
tenha virado craque profissional. Eu, com certeza, não virei. Sempre
tive desempenho lamentável no jogo de bola. Em qualquer jogo de bola,
diga-se de passagem. Deve ter sido por solidariedade. Eu sou uma bola
desde pequeno. E quando eu era garoto, tinha a agilidade de um pudim
cansado.
Mas eu sempre jogava. Isso porque era o "pega um". Sabe como é? "Ô,
gente, tá faltando alguém para jogar no gol". E logo apontavam para os
dois ou três que ficavam de fora. "Pega um aí". O responsável pelo
convite era o "capitão" do time. Ele chegava perto da gente e
perguntava com aquela careta de quem tem vergonha da proposta
indecente: "alguém quer jogar no gol?". Eu ia, apesar dos gemidos do
time.
Talvez você não saiba, mas a posição de goleiro era a mais abominada
entre os meninos. Só iam para o gol dois tipos de garotos: os ruins de
bola, como eu, ou aqueles que gostavam de jogar na posição (casos
raríssimos). Eu conheci duas pessoas com esse talento: o Donizetti,
que era da turma e defendia feito um gato, e, mais tarde, o Raphael,
meu cunhado, um muro na frente do gol.
Naquele tempo, os astros eram Gilmar dos Santos Neves, o "Girafa",
goleiro da Seleção Brasileira e do Santos, e Lev Yachin, o "Aranha
Negra", da Seleção Soviética e do Dínamo de Moscou. Sujeitos que
combinavam duas condições essenciais para ocupar a posição: talento e
sorte. Em se tratando de futebol, nunca experimentei nenhum dos dois.
E como eu tinha fama de frangueiro, já entrava em campo desacreditado.
Conclusão: sempre levei vários frangos.
Mas como eu falava, os outros meninos eram bons de bola. E nenhum
ficou famoso como jogador de futebol. O que foi feito deles, então?
Não tenho a mínima idéia. Suponho que tenham seguido outras carreiras
com maior ou menor sucesso em suas áreas de trabalho. Talvez até atuem
ou tenham atuado no futebol. Mas não sei de nenhum que tenha ficado
famoso.
Para falar a verdade, sinto uma pontada de culpa. Porque eu era tão
ruim, mas tão ruim como goleiro que marcar um gol no meu time nem
merecia comemoração. Era humilhante. "Ah, com esse cara de goleiro nem
tem graça", diziam os atacantes depois do gol. "O gordo é
café-com-leite", emendavam. E eu ficava furioso. Poxa, isso não se
faz! E no silêncio derrotado de quem vai buscar a bola no fundo das
redes, eu rogava pragas horrorosas contra os craques adversários. Sabe
como é, né? Coisa de menino.
Será que as pragas pegaram?
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