Você
vive de bico? Não? Pois eu conheço um monte de gente que vive de bico.
O sujeito ficou desempregado, tinha que colocar dinheiro em casa e foi
fazer qualquer coisa para ganhar uns trocados. Era para ser
provisório, "até as coisas melhorarem". Mas "as coisas" não melhoraram
e o provisório virou definitivo.
Foi
assim também com a industriária que passou a vender salgadinhos
enquanto não arranjava emprego em outra fábrica. Vendia aqui, vendia
ali e virou fornecedora de salgadinhos em vários escritórios porque
não apareceu novo emprego que valesse a pena.
E
por aí vai. Tem a psicóloga que se transformou em artesã de porcelana
fria, o engenheiro que presta serviços de consertos domésticos, a
professora que costura colchas de fuxico e a secretária que monta e
vende bijuteria.
Os
economistas são os reis do eufemismo para lidar com os descaminhos da
economia. E deram o nome a isso de economia informal. É uma economia
que não aparece nos números oficiais, não arrecada impostos, não está
sujeita a multas, não engorda fiscais e funciona muito bem, graças a
Deus.
Economia que não está sujeita às variações de mercado porque ela mesma
é produto das variações do mercado. E se o brinquedinho de terceira
linha não vende mais, surge a lapiseira colorida ou os óculos de
carregação. O sanduíche natural vira coxinha e a empadinha vira pão de
queijo. E as pessoas vão tocando suas vidas do jeito que dá.
Com
o fenômeno do enxugamento das empresas e dos processos de achatamento
salarial, também acontece o vice-bico. Gente que tem emprego fixo, com
registro em carteira, mas que não dá conta das contas e, por isso,
vende alguma coisa por fora para complementar a renda. É revendedor
enrustido de cosméticos, representante informal de empresa de potes de
plástico, vendedora de lingeries, fabricante de bijuterias, quituteira
de fim de semana...
Esse
exército de quase-bicantes trafega dentro das empresas com certo
sigilo e atende a uma parcela de colegas de trabalho e vizinhos de
escritório que aproveitam os preços mais baixos para também reduzir
seus custos fixos. Porque o sanduíche caseiro é mais barato que a
refeição por quilo no restaurante da esquina e o sutiã de segunda
linha tem bordado bonitinho e dá para o gasto enquanto não sobra para
comprar no magazine.
Como
diriam em Harvard, o importante é que a economia gire. E ela vai
girando, apesar dos contratempos do dólar, das oscilações da bolsa,
dos aumentos abusivos e do cinismo dos governantes. Viver de bico é,
antes de mais nada, a arte de sobreviver em um país que se livrou da
inflação, mas que ainda não perdeu o medo da inflação.
Pois
viver de bico é isso. É seguir de acordo com a corrente enquanto não
sopram os ventos para a descoberta de novos continentes. Ou enquanto
não surgem novas descobertas que exijam colonizadores capazes de
resistir a tudo. Porque o bico é uma escola fundamental nestes tempos
em que as empresas do futuro exigem dos funcionários criatividade,
empreendedorismo e resistência de camelo.
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