Ano VIII nº 105 -

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Viver de bico

Maurício Cintrão*


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Você vive de bico? Não? Pois eu conheço um monte de gente que vive de bico. O sujeito ficou desempregado, tinha que colocar dinheiro em casa e foi fazer qualquer coisa para ganhar uns trocados. Era para ser provisório, "até as coisas melhorarem". Mas "as coisas" não melhoraram e o provisório virou definitivo.

Foi assim também com a industriária que passou a vender salgadinhos enquanto não arranjava emprego em outra fábrica. Vendia aqui, vendia ali e virou fornecedora de salgadinhos em vários escritórios porque não apareceu novo emprego que valesse a pena.

E por aí vai. Tem a psicóloga que se transformou em artesã de porcelana fria, o engenheiro que presta serviços de consertos domésticos, a professora que costura colchas de fuxico e a secretária que monta e vende bijuteria.

Os economistas são os reis do eufemismo para lidar com os descaminhos da economia. E deram o nome a isso de economia informal. É uma economia que não aparece nos números oficiais, não arrecada impostos, não está sujeita a multas, não engorda fiscais e funciona muito bem, graças a Deus.

Economia que não está sujeita às variações de mercado porque ela mesma é produto das variações do mercado. E se o brinquedinho de terceira linha não vende mais, surge a lapiseira colorida ou os óculos de carregação. O sanduíche natural vira coxinha e a empadinha vira pão de queijo. E as pessoas vão tocando suas vidas do jeito que dá.

Com o fenômeno do enxugamento das empresas e dos processos de achatamento salarial, também acontece o vice-bico. Gente que tem emprego fixo, com registro em carteira, mas que não dá conta das contas e, por isso, vende alguma coisa por fora para complementar a renda. É revendedor enrustido de cosméticos, representante informal de empresa de potes de plástico, vendedora de lingeries, fabricante de bijuterias, quituteira de fim de semana...

Esse exército de quase-bicantes trafega dentro das empresas com certo sigilo e atende a uma parcela de colegas de trabalho e vizinhos de escritório que aproveitam os preços mais baixos para também reduzir seus custos fixos. Porque o sanduíche caseiro é mais barato que a refeição por quilo no restaurante da esquina e o sutiã de segunda linha tem bordado bonitinho e dá para o gasto enquanto não sobra para comprar no magazine.

Como diriam em Harvard, o importante é que a economia gire. E ela vai girando, apesar dos contratempos do dólar, das oscilações da bolsa, dos aumentos abusivos e do cinismo dos governantes. Viver de bico é, antes de mais nada, a arte de sobreviver em um país que se livrou da inflação, mas que ainda não perdeu o medo da inflação.

Pois viver de bico é isso. É seguir de acordo com a corrente enquanto não sopram os ventos para a descoberta de novos continentes. Ou enquanto não surgem novas descobertas que exijam colonizadores capazes de resistir a tudo. Porque o bico é uma escola fundamental nestes tempos em que as empresas do futuro exigem dos funcionários criatividade, empreendedorismo e resistência de camelo.

 

**Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto - E-mail: cintrao@uol.com.br

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14/01/2006



 

 


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