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Sempre que termina o horário de verão eu sofro de novo. Porque demoro
um século para me acostumar à hora adiantada e, quando parece que vou
acostumar, termina a brincadeira. Os relógios voltam ao normal apesar
dos meus protestos. É por causa disso que defendo que os ponteiros
deveriam ser atrasados em duas horas. Durante uma semana,
funcionaríamos com uma hora a menos do que o horário normal. Seria uma
espécie de compensação pelo sacrifício daquela hora perdida quando os
relógios foram adiantados, em outubro do ano passado. Os meus amigos
de infância chamavam a isso de lambuja.
Eram
tempos em que os meninos ainda jogavam bola nas calçadas sem medo de
traficantes ou balas perdidas. Às vezes jogávamos um contra um, pela
falta de participantes. E como eu jogava futebol como um jacaré
dançando tango, o adversário sempre me dava dois ou três gols de
brinde, a lambuja. Era a compensação pelo massacre que se seguiria.
"Gordo, você é ruim demais", dizia o adversário invariavelmente. "Dou
dois de lambuja prá não parecer covardia".
Mas
era uma covardia de qualquer forma, porque eu não jogava nada e levava
dez, doze gols. Aliás, o drible da vaca só não foi chamado de drible
do gordo porque a vaca entrou em campo antes.
Mas
eu falava da lambuja no fim do horário de verão. Poxa, na sexta as
pessoas comemoravam: oba, vai ter uma hora a mais no final de semana.
Pois eu não comemorei. Ao contrário, voltei à minha campanha em defesa
das duas horas a menos. Pois sabia que sofreria de novo nesta semana,
achando que ainda estaria no horário de verão.
Nesta segunda-feira, por exemplo, acordei uma hora mais cedo do que o
necessário. Meio leso, não lembrei do fim do horário de verão de novo
e fiquei esbaforido como se estivesse atrasado. Cheguei mais cedo na
padaria para tomar o café-com-leite e o "Bigode", que atende ao
balcão, foi educado e compreensivo, não tirando sarro da minha cara
apesar de ter percebido meu engano.
E
não adianta dizer que eu errei, pois deveria ter atrasado os relógios.
No começo do ano passado, quando acabou o horário de verão, sabia que
sofreria com esse problema. Então, atrasei todos os relógios para não
correr riscos. Mas quando acordei, sabe-se lá por conta de que
fenômeno da mente, achei que o relógio da cozinha não estivesse
atrasado. Olhava para o relógio satisfeito e dizia: este ano você não
me engana. Fiquei ensebando, afinal, tinha uma hora a mais. Adivinhe:
perdi a hora.
Mas
eu vou sobreviver a essas mudanças de horário. Até porque, é a única
alternativa que me resta. Pois minha campanha para atrasar os relógios
em duas horas não conseguiu encantar um só simpatizante. Vai ver o
problema com o horário é só meu. O resto do país que estica e encurta
os dias entre outubro e fevereiro não se incomoda com a brincadeira.
Pelo
menos se eu tivesse uma hora de lambuja na primeira semana seria tão
bom... Mas não adianta insistir porque já está ficando tarde e eu não
quero que o leitor perca a hora com minhas reclamações contra o
horário de verão que acabou antes que eu pudesse me acostumar com a
idéia. Aliás, que horas são?
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