Ano VIII nº 106 -

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Hora de lambuja

Maurício Cintrão*


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Sempre que termina o horário de verão eu sofro de novo. Porque demoro um século para me acostumar à hora adiantada e, quando parece que vou acostumar, termina a brincadeira. Os relógios voltam ao normal apesar dos meus protestos. É por causa disso que defendo que os ponteiros deveriam ser atrasados em duas horas. Durante uma semana, funcionaríamos com uma hora a menos do que o horário normal. Seria uma espécie de compensação pelo sacrifício daquela hora perdida quando os relógios foram adiantados, em outubro do ano passado. Os meus amigos de infância chamavam a isso de lambuja.

Eram tempos em que os meninos ainda jogavam bola nas calçadas sem medo de traficantes ou balas perdidas. Às vezes jogávamos um contra um, pela falta de participantes. E como eu jogava futebol como um jacaré dançando tango, o adversário sempre me dava dois ou três gols de brinde, a lambuja. Era a compensação pelo massacre que se seguiria.
"Gordo, você é ruim demais", dizia o adversário invariavelmente. "Dou dois de lambuja prá não parecer covardia".

Mas era uma covardia de qualquer forma, porque eu não jogava nada e levava dez, doze gols. Aliás, o drible da vaca só não foi chamado de drible do gordo porque a vaca entrou em campo antes.

Mas eu falava da lambuja no fim do horário de verão. Poxa, na sexta as pessoas comemoravam: oba, vai ter uma hora a mais no final de semana. Pois eu não comemorei. Ao contrário, voltei à minha campanha em defesa das duas horas a menos. Pois sabia que sofreria de novo nesta semana, achando que ainda estaria no horário de verão.

Nesta segunda-feira, por exemplo, acordei uma hora mais cedo do que o necessário. Meio leso, não lembrei do fim do horário de verão de novo e fiquei esbaforido como se estivesse atrasado. Cheguei mais cedo na padaria para tomar o café-com-leite e o "Bigode", que atende ao balcão, foi educado e compreensivo, não tirando sarro da minha cara apesar de ter percebido meu engano.

E não adianta dizer que eu errei, pois deveria ter atrasado os relógios. No começo do ano passado, quando acabou o horário de verão, sabia que sofreria com esse problema. Então, atrasei todos os relógios para não correr riscos. Mas quando acordei, sabe-se lá por conta de que fenômeno da mente, achei que o relógio da cozinha não estivesse atrasado. Olhava para o relógio satisfeito e dizia: este ano você não me engana. Fiquei ensebando, afinal, tinha uma hora a mais. Adivinhe: perdi a hora.

Mas eu vou sobreviver a essas mudanças de horário. Até porque, é a única alternativa que me resta. Pois minha campanha para atrasar os relógios em duas horas não conseguiu encantar um só simpatizante. Vai ver o problema com o horário é só meu. O resto do país que estica e encurta os dias entre outubro e fevereiro não se incomoda com a brincadeira.

Pelo menos se eu tivesse uma hora de lambuja na primeira semana seria tão bom... Mas não adianta insistir porque já está ficando tarde e eu não quero que o leitor perca a hora com minhas reclamações contra o horário de verão que acabou antes que eu pudesse me acostumar com a idéia. Aliás, que horas são?

 

**Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto - E-mail: cintrao@uol.com.br

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24/02/2006



 

 


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