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| AnoV - Nº 72 - Setembro de 2003 |
ÓXIDO PODEROSO Maurício Cintrão |
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| Imagino como seria uma festinha regada a
óxido nitroso, ou melhor,
gaseificada com óxido nitroso. Primeiro, seria aquela risada geral. Depois, um
relaxamento agradável e surpreendente. Depois... bom, para o depois, precisaríamos
estudar um pouco as possibilidades. O pessoal acostumado à velocidade sairia em disparada. porque o mesmo óxido é conhecido como o "nitro" que turbina os motores de carros envenenados (desculpem, sou antigo), mais conhecido como NOS entre os apressadinhos do volante. Os neuróticos soltariam a franga. Respeitáveis executivos brincariam de galinha no meio da sala. Recatadas senhoras beneméritas fariam strip tease. E o discreto garçom largaria a bandeja no chão, cantando La Cumparcita para a encantada copeira. E o dono da casa? Ora, aproveitaria a oportunidade para declarar seu furor secular pela cunhada viúva. Enquanto isso, a esposa exemplar estaria nos braços da vizinha, prometendo amor eterno e tórridas sessões de sadomasoquismo. É claro que estou exagerando. O garçom nem sabe o que é La Cumparcita e a família demitiu a copeira há dois meses. Na verdade, ele largaria a bandeja para inscrever-se no Cirque de Soleil, como Tulipa, Le Équilibriste. Prefiro não avançar muito com essas projeções, porque o zelador foi verificar o que acontecia e, à primeira aspirada, arrancou a peruca, o síndico tirou a roupa e o pastor que mora em frente distribuiu dólares em dízimos entre os presentes dizendo ter encontrado a vida eterna. Brincadeiras à parte, boto muita fé na aplicação do óxido nitroso em consultórios do Brasil. Como já escrevi aqui, sou daquele grupo que se péla de medo da liturgia odontológica. Ainda mais nestes tempos em que a luta contra as infecções pós-operatórias transforma pacientes, cirurgiões e assistentes em astronautas sem foguete. Eu ficaria muito mais à vontade e nem repararia naquele barulhinho infernal do alta rotação, que é meu karma. Até acharia graça do sugador e daquele maldito algodão colocado entre o lábio e a gengiva, que resseca até piscina. Sempre fui a favor das novidades. E sou um entusiasta de tudo aquilo que alivia a dor, ameniza as angústias e ajuda nos cuidados com a saúde. Portanto, eu apoio o uso do óxido nitroso em analgesia. até porque, não faz mal para a saúde, é amplamente utilizado no exterior e facilita a vida dos meus amigos CDs. Agora, se puder dar um baratinho, ah, aí vai ficar melhor ainda... *Maurício
Cintrão - jornalista e cronista |