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| AnoV - Nº 73 - Setembro de 2003 - 2ª quinzena |
Provisório-definitivo Maurício Cintrão |
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| Leio nos jornais que a CPMF deve ser
prorrogada até 2007. Isso
mostra mais uma vez o bom humor dos governantes. Falou que é provisório, pode anotar:
vira provisório-definitivo. Os ocupantes do poder descobriram esse truque há anos e
continuam a usá-lo como se fosse a maior novidade do mundo. Infelizmente, aprendemos com os maus exemplos. No lugar do meu falecido dente da frente vive um dente provisório de resina. Lindo, é até amarelinho como os outros, manchados de nicotina. "Não se esqueça, é provisório!", alerta ela. Feito imposto, ele compõe meu esgar de Monalisa há anos. É certo que já tive que reformar esse provisório umas trocentas vezes. Não resiste aos torresmos, ao pão italiano e ao churrasquinho no pão. Na verdade, a reforma é só na junta, porque a base é a mesma, como a CPMF. Em geral, a primeira versão dura mais tempo. Mas o tempo passa, a gente esquece e, ploct, ele quebra à primeira mordida desatenta. Aí é aquele desespero. Porque isso sempre acontece perto de um evento social, de um encontro ou uma reunião a que não se pode faltar. Com o tempo, descobri o truque: usar cola instantânea. Não é lá nenhuma reforma tributária, mas quebra o galho, ou melhor, cola o dente. É preciso muito cuidado para não colar dedos, lábio e bigode, ou para não deixar cair nem um pouquinho de cola na língua. Tirando isso, meu sorriso costuma ganhar de dois a três dias de vida útil. Aí, acostumo com o truque e deixo a preguiça assumir a situação. Vou colando, remendando, ajeitando, até que não tem mais como encaixar. Fica parecendo peça de quebra-cabeças que estufou com a umidade. Não encaixa. E dente da frente é uma desgraça, porque foi feito para aparecer na fotografia. Não tem como evitar, é preciso voltar ao consultório para o serviço de funilaria. Já estive pensando em alternativas para esses momentos dramáticos, mas nenhuma delas mostrou-se adequada. A primeira e mais óbvia é conversar com um lenço tampando a boca. Próprio para desculpas do tipo: "nossa, estou com uma dor de dente horrorosa!". Tampa o buraco e mantém o diálogo. Outro recurso é o cenográfico-básico, com isopor. Um pedacinho de geladeira de piquenique resolve. E não prejudica a temperatura das cervejas do farofão da praia. Exige certo talento para a escultura, mas pode atender a uma emergência. Há o truque do chiclete bem mascado. Parece que a goma ficou presa no dente, mas é menos pior que o vazio existencial de um sorriso banguela. A mais exótica das sugestões foi dada pelo Nicolau, que trabalha comigo: encaixar um mentex no vão deixado pelo falecido. Fica horrível. Até porque o drops original é branco-propaganda-de-dentifrício. Mas pode ser confundido com dente, à distância. O ideal seria que encontrassem uma liga tão resistente quanto a usada pelos políticos para impostos que não desaparecem nunca mais, apesar de provisórios. Uma composição de resinas inquebráveis, capazes de perpetuar meu sorriso. Já tenho até uma sugestão de nome: medida-provisória. Cola que é uma maravilha e dura para sempre. *Maurício
Cintrão - jornalista e cronista |