![]() |
![]() |
| AnoV - Nº 79 - Dezembro de 2003 -2ª quinzena |
Nomes e nomes Maurício Cintrão |
|
Guta-percha. Há anos ouço falar disso. No imaginário doentio de um torturado paciente, enfileirei um sem número de possibilidades para utilizar o nome estranho. O primeiro de todos, aquele que é quase automático, remete a um bordel na Turquia. E não me pergunte o porquê. É livre associação de loucuras. Gutanayieva Perchavoska foi cortesã na corte do Czar. Íntima da intelectualidade da época, era conhecida como Guta-Percha, Fugiu para Ancara e instalou seu negócio em Bursa (não é um eufemismo, é uma cidade turca). Sugere, também, um xingo em romeno. Em um cruzamento de Bucareste, um taxista é violentamente fechado por um ônibus. Desbocado, o condutor do táxi põe a cabeça para fora do veículo e grita: guta-persha! A passageira enrubescida pede para descer na próxima esquina, mesmo depois dos pedidos de desculpas do motorista. "Mil perdões, senhora. Não tenho nada contra o homossexualismo feminino. Foi involuntário, escapou!". Lembra remotamente um provável ingrediente de poção mágica. Estaria escrito no Receitas Inesquecíveis de Dona Morgana. Raiz de mandrágora (três pitadas), orvalho da manhã (duas gotas), uma língua de sapo (inteira), garras de escorpião (a gosto), óleo de aranha negra (um fio) e vinagre de couve tronchuda (o suficiente para dar cor). Misture todos os ingredientes em fogo brando em um tacho lavado de véspera. Quando começar a dar liga, pronuncie pausadamente: guuu-ta-perrrrr-cha, guuu-ta-perrrrr-cha, guuu-ta-perrrrr-cha. Poderia ser um conjunto de hard rock de grande sucesso na Escandinávia: Guta-percha. As revistas especializadas até anunciariam o recente lançamento do maior sucesso punk europeu, o Necropulpectomia. Setores engajados da crítica musical insinuriam que os integrantes do grupo pertenceriam a uma ala neo-nazista auto-intitulada Gram-Negativa. Sua líder, a careca Lípide Periapical, de ascendentes gregos, teria várias passagens pela polícia por agressões a minorias étnicas. Mas de todos os delírios que já tive em uma cadeira de dentista enquanto disfarçava o medo da próxima investida do alta-rotação, o pior foi: Guta-Persha, a menina gulosa. Filha do fabricante de tapetes voadores, Sin Sala Bin, a pequena Augusta morava na Pérsia. Adorava milk sheik e sultão de creme, mas não tomava banho. Sua mãe vivia dizendo: menina, você shera zade. Leitor? Você ainda está aí? Alô? Alô-ô? *Maurício Cintrão - jornalista e cronista |