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| AnoVI - Nº 84 - Maio de 2004 |
Utensílios ultrapassados
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Sempre achei que o tratamento de canal fosse a coisa mais primitiva da área de Saúde. Com tanta tecnologia nos consultórios, é impressionante que ainda se utilize aquela agulhinha para extrair o nervo do dente. É coisa de torturador medieval. Vocês não acham?
Pois bem, eu achava que a agulhinha fosse a mais-mais em termos de coisa antiga. Conceito revisto hoje, quando fui obrigado a recolher material para o rudimentar exame de... como dizer... fezes.
O potinho melhorou. Não é mais aquela latinha que parece embalagem de rapé. É de plástico resistente, “cristal” como dizem os vendedores de copos descartáveis. E tem tampa de rosca, coisa bem conveniente. O invólucro de papelão até facilita o transporte da farmácia à casa. Indica que o recipiente pode servir para vários fins, que vão da coleta de esperma à deposição de líquor. Mas a pazinha...
Amigos, aquela pazinha ganhou de todos os objetos antiquados em uso na área da saúde. Porque ela dá o requinte supremo à humilhação do candidato a examinado. Vocês dessa área de ciências médicas podem achar absurdo o que digo. Mas eu sou um pobre amador na área. Quase desisti do exame.
Pois as dificuldades são imensas. A primeira, psicológica eu concordo, refere-se à produção do material (exame combina com prisão de ventre). A outra remete-se à logística da operação. Como sou péssimo de mira, abandonei de cara a transferência direta. Optei por uma plataforma intermediária. Ótima escolha. mas e aí? A tarefa é mais apropriada a um acrobata (não tem bidê em casa).
Todos os obstáculos iniciais foram superados. Foi aí que surgiu o desafio maior: a coleta em si é arte para poucos. Só nessa hora que você realiza a necessidade de usar a neolítica pazinha. É quando o constrangimento do incauto candidato multiplica-se por mil. E o enjôo ameaça falir o empreendimento. Porque é impossível não lembrar de sorvete de massa.
Rindo histericamente e sem muita habilidade para tarefas delicadas em situações nojentas, sofri como um confeiteiro em começo de carreira. Imaginem a cena (e era isso que mais me fazia rir): um homão deste tamanho com um arremedo de baixela da Barbie nas pontas dos dedos, manipulando a indizível. Por sorte, a Física me ajudou. Massa, densidade e gravidade agiram a meu favor. Mas foi terrível imaginar que poderia ter acontecido um acidente de percurso.
Depois de tudo isso, meus amigos, seguir até o laboratório carregando a amostra no potinho em um saco de supermercado foi fácil. Moleza! Até lembrei da agulhinha de tratamento de canal com certa admiração. *Maurício Cintrão - jornalista e cronista
e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto |