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AnoVI - Nº 93 - Dezembro de 2004

 

Mulher invisível
Maurício Cintrão    

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Amiga, se você está naquela fase em que nem peão de obra assobia, tenha
calma, não está invisível. É que chegou a sua vez de enfrentar a
entressafra. Você está na muda. É passageiro, pode confiar.

Lembra da adolescência, das espinhas horrendas e do nariz que parecia maior
que a cara? Foi muito pior. Porque você nem sabia se interessaria aos
homens. Hoje, bem vividos os anos, sabe direitinho qual é seu poder de fogo.
Neste momento, acontece o rearranjo das suas forças naturais. Seus jardins
preparam novas espécies de flores para embelezar os caminhos de quem tiver a
honra de vê-la passar. Nós, os homens, fomos educados a tratar você como
senhora. Acabe com isso logo!

E não me venha com essa história de ter virado vovozinha ou loba-má. Você
passa da desconfortável posição de presa à vantajosa situação de caçadora.
Afinal, já sabe o que deseja. É só utilizar sua 'expertise' no encantamento
do mundo. Para quê legar a meia dúzia de operários o direito de medir sua
beleza? Você não é dançarina de show de calouros.

Vá à luta, assuma a dianteira. Não é hora de ser vista e virar alvo de
assobios. Ser mais um bumbum rebolante na calçada não significa nada. Ao
contrário, é até contraproducente. Aproveite das camuflagens dessa fase de
mudanças e avance. Lance mão das armas apropriadas e saia a campo com
determinação.

Mas não confunda. Não é para sair por aí gritando: "ô, gostosão!", a cada
vez que passar por uma obra. Não, não, não! Use sua classe e seu charme para
arrebentar os corações masculinos. Nós, os homens, desaprendemos a avaliar o
mundo por meio dos instintos.

Seja professora, ensine. Salte da cristaleira social e deixe de ser um
bibelô. Seja fêmea, avance. Seja mais mulher, esbalde-se. E quando menos
esperar, ao invés de assobios você receberá, enfim, as flores que nunca
mandaram.


*Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto
E-mail:
cintrao@uol.com.br


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