cronicas.gif (3467 bytes) logjornal.gif (4234 bytes)
AnoVI - Nº 94 - Janeiro de 2005

 

Latas de menino
Maurício Cintrão    

maurcintrao.jpg (17474 bytes)

Em meus tempos de menino, chutávamos latas. Mas as latas eram outras, naquela época. O óleo era Maria e a propaganda vivia dizendo: Maria, sai da lata! Latas de óleo, de azeite, ou de manteiga. Talvez você não saiba, mas comia-se pão com manteiga Aviação, de lata. Lata era medida para grãos. Uma lata de feijão dava comida para toda a semana. Até sorvete era vendido em lata. E uma lata de sorvete custava um dinheirão.

Tinha lata de banha, de cola e de sabão. Todos os restinhos da casa iam parar na lata de sabão. Desperdiçava-se pouco em meus tempos de menino. Daí a grande utilidade das latas. Os biscoitos vinham em lata. Havia a Duchen e sua lata quadrada; os clássicos “Biscoutos” Jacareí, na lata retangular. E tantas outras que duravam muito tempo e adquiriam várias utilidades. Vem daí a lata de pregos, porcas e parafusos que hoje se guardam em potes de vidro. A lata de torradas também era muito comum. O pão amanhecido ia para o forno e ficava na lata para a sopa da noite. Era costume tomar sopa à noite, então. Até os filmes, olhe que incrível, eram guardados em latas.

Quando menino, os carrinhos de brinquedo eram feitos de lata. O velocípede, o cofrinho para as moedas e a lancheira da escola eram todos de lata. Os carrinhos de rolimã eram feitos de madeira mas tinham lata nos eixos para reforçar. E o telefone sem fio tinha que ter lata nas extremidades do barbante, o fio do telefone sem fio. Falávamos pelas mesmas latinhas que usávamos para transportar as minhocas nas pescarias.

Engraçado lembrar que meu herói de coração mole era o Homem de Lata, de “O Mágico de Oz”. Havia a turma do Manda-Chuva que morava no lixo, em latas. Mais tarde, o Peninha, primo do Pato Donald, usava uma lata de lixo para se transformar no Morcego Vermelho. Incrível, pois naquele tempo, ainda existia lata de lixo. Se fossem apelidados hoje, os cachorros de rua seriam chamados de rasga-sacos e não vira-latas.

Nas fábricas, príncipes, barões e baianas das escolas de samba comiam à paisana nas marmitas de lata. "Lata dágua na cabeça, lá vai Maria", cantavam à sobremesa. Quando faltava zinco, o barracão dos sambas da época era coberto com lata. Como era de lata a coroa do Rei Momo. Germano Mathias batucava seu samba na lata de engraxar sapatos. Tempos depois, a cerveja em lata virou chocalho. Mas isso foi muito tempo depois.

Tenho saudades das latas de chutar. Mas os anos se passaram e não há mais latas como antigamente. Nem eu sou mais menino para chutar, distraído, os pensamentos pela calçada.


*Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto
E-mail:
cintrao@uol.com.br


VEJA AQUI OUTRAS CRÔNICAS DO AUTOR PUBLICADAS
PELO AUTOR NO JORNAL DO SITE ODONTO

PRIMEIRA PÁGINA

EDIÇÕES ANTERIORES

ARQUIVO DE LEGISLAÇÃO

FALE CONOSCO