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Em meus tempos de menino, chutávamos latas.
Mas as latas eram outras, naquela época. O óleo era Maria e a
propaganda vivia dizendo: Maria, sai da lata! Latas de óleo, de azeite, ou
de manteiga. Talvez você não saiba, mas comia-se pão com manteiga Aviação,
de lata. Lata era medida para grãos. Uma lata de feijão dava comida para
toda a semana. Até sorvete era vendido em lata. E uma lata de sorvete
custava um dinheirão.
Tinha lata de banha, de cola e de sabão. Todos os restinhos da casa iam
parar na lata de sabão. Desperdiçava-se pouco em meus tempos de menino. Daí
a grande utilidade das latas. Os biscoitos vinham em lata. Havia a Duchen e
sua lata quadrada; os clássicos “Biscoutos” Jacareí, na lata retangular. E
tantas outras que duravam muito tempo e adquiriam várias utilidades. Vem daí
a lata de pregos, porcas e parafusos que hoje se guardam em potes de vidro.
A lata de torradas também era muito comum. O pão amanhecido ia para o forno
e ficava na lata para a sopa da noite. Era costume tomar sopa à noite,
então. Até os filmes, olhe que incrível, eram guardados em latas.
Quando menino, os carrinhos de brinquedo eram feitos de lata. O velocípede,
o cofrinho para as moedas e a lancheira da escola eram todos de lata. Os
carrinhos de rolimã eram feitos de madeira mas tinham lata nos eixos para
reforçar. E o telefone sem fio tinha que ter lata nas extremidades do
barbante, o fio do telefone sem fio. Falávamos pelas mesmas latinhas que
usávamos para transportar as minhocas nas pescarias.
Engraçado lembrar que meu herói de coração mole era o Homem de Lata, de “O
Mágico de Oz”. Havia a turma do Manda-Chuva que morava no lixo, em latas.
Mais tarde, o Peninha, primo do Pato Donald, usava uma lata de lixo para se
transformar no Morcego Vermelho. Incrível, pois naquele tempo, ainda existia
lata de lixo. Se fossem apelidados hoje, os cachorros de rua seriam chamados
de rasga-sacos e não vira-latas.
Nas fábricas, príncipes, barões e baianas das escolas de samba comiam à
paisana nas marmitas de lata. "Lata dágua na cabeça, lá vai Maria", cantavam
à sobremesa. Quando faltava zinco, o barracão dos sambas da época era
coberto com lata. Como era de lata a coroa do Rei Momo. Germano Mathias
batucava seu samba na lata de engraxar sapatos. Tempos depois, a cerveja em
lata virou chocalho. Mas isso foi muito tempo depois.
Tenho saudades das latas de chutar. Mas os anos se passaram e não há mais
latas como antigamente. Nem eu sou mais menino para chutar, distraído, os
pensamentos pela calçada.
*Maurício Cintrão - jornalista e cronista
e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto
E-mail: cintrao@uol.com.br
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