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AnoVII - Nº 98 - Maio de 2005

 

Ainda é tempo...
Beijos de Filho

Maurício Cintrão    

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Minha mãe está doente. Nem sei se vai registrar os cumprimentos pelo Dia das
Mães, no domingo. Sua memória anda pregando peças. Nós, os filhos,
passaremos por lá para cumprimentá-la, é claro. Eu nem vou ficar chateado se
ela me confundir com meu irmão. Isso acontece às vezes e faz parte da idade.
O importante é que ela estará por lá e teremos o privilégio de ficar ao seu
lado para homenageá-la, mimá-la e agradecê-la por tudo o que conseguimos
conquistar.

Se escrevo, devo muito a meu pai, um apaixonado pelo idioma. Mas foi minha
mãe quem me ensinou a não sofrer tanto com os grilhões da Gramática.
"Escreva de ouvido", brincava ela. Uma lição fundamental. Porque um texto
tem que soar correto. Tem que ser bonito. O mundo já está cheio de textos
corretos e feios. Esse, aliás, era um dos poucos motivos de briga entre ela
e papai, que prezava as regras da escrita como ninguém.

No último final de semana estive com a Velha Iza. Está caidinha, em uma
cadeira de rodas, desanimada. Mas seus olhos brilharam quando me viu. E ela
me viu mesmo. Me chamou pelo nome, me beijou e voltou a dizer que eu estava
lindo (coisa de mãe, compreendam). Fiquei duplamente feliz. Primeiro, porque
ela ainda está por aqui, para servir de Norte, de referência para todos nós
da família. Depois, porque é muito gostoso ainda ter mãe.

Pensando nela e em tantas outras mãezinhas é que eu dedico um enorme beijo de
Dia das Mães. Mamães que já não podem mais fazer os nossos pratos
prediletos, nem contar para os netos aquelas histórias que ouvimos quando
éramos crianças. Algumas nem têm filhos por perto. Pois há filhos que
abandonam as mães. Também há mães que abandonam filhos. Afinal, esse mundo é
cheio de incongruências. Mas não importa. Todas são mães e sempre serão, com
ou sem os chatos dos filhos por perto.

Se você tem mãe ainda viva, aproveite. Ela vai sempre cobrar alguma coisa,
reclamar de outras e eventualmente vai até lhe dar uns safanões. Não se
incomode. Mãe é assim mesmo. Se não fizer isso, ela fica triste, porque acha
que deixou de ser mãe. Aproveite bastante da companhia dessa mulher que é
única e intransferível. Você pode dividir a mesma mãe com irmãos (esses
intrusos!), mas jamais vai poder dividir-se em vários filhos de muitas mães.
Pode até amar e se deixar amar por outras mães. Mas ela sempre será a
titular.

Se você já não tem a mãezinha por perto porque ela virou estrela, aproveite
para olhar o céu com candura. Nem sei se é para lá que iremos todos, mas foi
assim que minha mãe ensinou e eu insisto em repetir a lição. Porque não tem
coisa mais gostosa do que imaginar que a mãe da gente vai para um lugar
bonito, longe das preocupações, dos aborrecimentos e da tristeza por não ter
alcançado algum sonho que se perdeu na noite dos tempos.

Enfim, no Dia das Mães, não desperdice seu amor. Seja filho, seja filha, por
mais que doa, por mais que entristeça. Pense nas noites em que ela passou em
claro por você, nas risadas escondidas por causa de alguma das suas
travessuras reprováveis e nas tantas vezes em que você conseguiu porque
ela torcia desesperadamente pela sua vitória.
 


*Maurício Cintrão - jornalista e cronista e escreve semanalmente para o Jornal do Site Odonto
E-mail:
cintrao@uol.com.br


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