Ano VI - Nº 93 - Dezembro  de 2004

Adeus ano velho, feliz ano novo…
Será que o Banco Central nos permitirá
um ano novo feliz?

Maria Cristina Sanches Amorim e Eduardo Perillo*

  

Tal como a tradicional canção, será que 2005 será um ano feliz? Relativamente à nossa vida profissional, dependeremos do que o Banco Central fará com as taxas de juros e do que seu “tio”, o Ministério da Fazenda, fará com os gastos públicos e a arrecadação de impostos.

Vamos à análise: o que esperar em 2005? No campo da política, o governo federal encontra-se mais fragilizado, relativamente ao início do mandato. Deveríamos considerar natural esta perda de poder e de popularidade à medida em que o tempo passa? Discordamos, o desgaste resulta de erros: o primeiro, propor com alarde um grande programa assistencial - o Fome Zero - no meio de políticas econômicas recessivas; o segundo, a incapacidade política e técnica de implementar taxas de juros decrescentes; o terceiro, abusar das medidas provisórias e outros oportunismos para levar adiante seus propósitos, arranhando a imagem do governo.

O Fome Zero é um programa necessário e importante, mas há muito a teoria econômica ensina a impossibilidade de implementar medidas para reduzir a pobreza, quando a política dos juros e impostos altos criam desemprego em massa. Prisioneiro dos interesses do setor financeiro, o governo não ousou reduzir os juros e a rentabilidade dos bancos. Envolvido em denúncias de corrupção de pessoas próximas ao primeiro escalão, o governo preferiu fazer de conta que nada de importante acontecia, propôs imunidade de ministro ao presidente do Banco Central justamente quando a sociedade pedia mais informações sobre este senhor.

No mundo da economia propriamente dito, 2004 foi um ano duro (restam poucos dias de dezembro, já podemos usar o verbo no passado): queda da renda média dos brasileiros (cujos níveis voltaram aos valores do final dos anos 70), interrupção da tendência de queda da taxa de juros, aumento dos preços dos combustíveis, desemprego elevado. O lado bom vem do setor externo: a combinação da imensa vantagem competitiva da agroindústria brasileira (temos terra, estrutura e gente talentosa) com a abertura de novos mercados, como a China e Índia (parabéns à turma do Ministério das Relações Exteriores), permitiu o crescimento das exportações. Quando o Brasil exporta mais, os exportadores empregam e investem mais, o governo arrecada mais imposto e pode acumular reservas para as emergências; quando as reservas são mais elevadas, há menores riscos dos agentes financeiros especularem contra o Real.

É justamente a combinação dos bons resultados da atividade agroexportadora que permite uma pequena recuperação do nível de emprego. E deste patamar, o mercado financeiro e as instituições oficiais têm previsto crescimento entre 3,5 e  4,5% para o PIB, em 2005. Dá para acreditar?

A taxa de crescimento do PIB dependerá de circunstâncias externas (por exemplo, a desvalorização do dólar frente ao euro) e das medidas de política econômica orquestradas pelo governo. No âmbito interno, se não houver redução das taxas de juros e dos spreads bancários (taxas outras cobradas pelos bancos pela prestação de serviço, inclusive do empréstimo de dinheiro), redução dos impostos e correção monetária dos valores de tributação/isenção do Imposto de Renda de pessoas físicas, se o Brasil não se livrar do FMI, é pouco provável que as estimativas de crescimento se materializem. É função do governo afirmar que tudo será melhor e mais fácil em 2005, pois a economia também se faz por expectativas - se todos os agentes acreditarem que será melhor, 2005, de fato, será melhor.

Mesmo que a economia cresça 4,5% ao ano, os juros de balcão continuarão muito elevados e o risco de desvalorização cambial sempre existe em um país como o Brasil. Portanto, melhor não contrair dívidas, principalmente se indexadas em dólar ou IGP-FGV; melhor não contar com aumento de procura pelos serviços, pois ainda falta muito para o recém-empregado ter renda para cuidar da saúde bucal.


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no Jornal do Site Odonto


*Maria Cristina S. Amorim – Economista, doutora em Política, coordenadora do MBA em Economia e Gestão das Organizações de Saúde da PUC-SP. cristina.amorim@attglobal.net

**Eduardo B. F. Perillo – Médico, mestre em Administração, coordenador técnico do MBA em Economia e Gestão das Organizações de Saúde da PUC-SP. eduardo@perillo.org

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