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Ano III - Nº 45 -Segunda quinzena de outubro de 2001

Uma questão de atitude

Melânia Fernandes* – Alemanha

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A cena se passa poucos dias após os ataques terroristas nos Estados Unidos:
numa sala de embarque do aeroporto de Hamburgo, norte da Alemanha, um funcionário do local verifica as portas das saídas de emergência. Dois passageiros, executivos, que passam pela área observam o trabalho, nem tanto pelo cuidado com que é feito, mas por quem o faz: um imigrante turco. Um dos executivos comenta com seu colega: "Humm.., eu queria saber o que ele está
fazendo". Seu companheiro dá de ombros e os dois encaram o funcionário quando passam por ele. O trabalhador não diz nada, mas percebe a suspeita dos passageiros. Mais tarde ele diz que nos dez anos em que trabalha no aeroporto nunca tinha sido olhado daquela maneira.

Relatada numa coluna de um jornal da Alemanha, ficção ou realidade, essa história mostra uma das seqüelas deixadas pela tragédia dos ataques terroristas na América. Foram-se as torres do World Trade Center, foi-se um pedaço do Pentágono e ficou uma paranóia. Será que de agora em diante, pelo menos até que os culpados pelos ataques sejam punidos, não haverá mais paz e
sossego para imigrantes árabes e muçulmanos?

A comunidade islâmica já se sente intimidada para sair na rua nos países onde seus seguidores são imigrantes. Embora atos de racismo sejam publicamente repudiados na Europa, a Alemanha ainda convive com o fantasma da intolerância racial que a levou aos horrores da 2a Guerra Mundial e hoje é encarnado pelos grupos neo-nazistas anti-imigrantes. Os ataques se deram do outro lado do Atlântico, quilômetros longe daqui, mas há o medo de que a Europa também venha a ser alvo de atentados. A situação atual inspira insegurança, é claro, porém não se deve aceitar atitudes de agressão a estrangeiros.

Depois da tragédia vieram demonstrações de paz e solidariedade. Grupos pacifistas marcharam contra uma eventual retaliação norte-americana. Organizadores de festivais, como a Oktoberfest no sul da Alemanha, até se dispuseram a cancelar seus eventos em respeito a dor de um povo. Então vamos torcer para que esses gestos humanitários sejam grande o suficiente também
para que se evite a marginalização de uma cultura e um credo.


* Melânia Fernandes é jornalista e correspondente do Jornal do Site Odonto na Europa

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