![]() |
![]() |
| Ano VI - Nº 93 - Dezembro de 2004 |
|
Educação ou
“deseducação” em Saúde Bucal? Eis a questão... Natan Guterman* |
|
|
Há tempos muitos programas preventivos e educativos têm sido criados com o intuito de reduzir a doença bucal nas várias faixas etárias, nos vários grupos sociais e em distintas realidades, sendo que alguns deles obtiveram sucesso, enquanto outros, nem tanto. Sobre estes últimos, conjeturou-se a respeito de possíveis causas (variáveis) relacionadas ao insucesso: nível sócio-econômico, escolaridade, diferenciação cultural, etc. Porém, ao que parece, nos esquecemos de uma hipótese sequer pensada ou mesmo aceita por nosso ego. A possibilidade de que não estaríamos tecnicamente capacitados a educar em Saúde. Todos nós, quando fizemos nossa graduação, recebemos um banho de linguagem técnico-científica e isso nos encharcou de tal forma que passou a ser imperceptível. Esse é nosso modo “natural” de falar, mas será que algum mortal comum entende? Quase todos nós já passamos pela experiência de explicar a alguém algo de sua imensa sabedoria dental. Dizer o porque de estar com essa ou outra doença bucal. Todavia, nunca, em hipótese alguma, questionou-se acerca de sua própria capacidade de educar alguém, com a finalidade de evitar com que essa pessoa adoeça! Nunca se parou para pensar: será que fui claro o bastante? O cirurgião-dentista sabe quase tudo acerca das doenças que atingem a cavidade bucal e, assim, está capacitado a orientar seus pacientes em prevenção/promoção de saúde. Porém questiono: orientar seria suficiente? Haveria diferença entre orientar e educar para a Saúde Bucal? Num dicionário, encontra-se que orientar seria “determinar a posição de um lugar em relação ao oriente; guiar; dirigir; encaminhar; informar; esclarecer; reconhecer a situação em que se encontra; reconhecer”. Educar, por sua vez, significaria “desenvolver as faculdades físicas, intelectuais e morais a; aclimatar; adquirir dotes intelectuais, instruir-se”. Palavras e conceitos diferentes. COSTA e FUSCELLA (1999) falam do valor da Educação na vida do homem. Segundo eles, “a importância da Educação na existência do ser humano, suas relações com a área de saúde, onde os conhecimentos de ambas as áreas se integram, se inter-relacionam e se articulam, é de fato promover transformações na vida das pessoas e conseqüentemente, na realidade da sociedade.” O grifo é nosso. Assim, percebe-se a enorme distância entre simplesmente orientar e educar para a saúde. Vista de tal forma, a Educação (ou a capacidade para educar alguém) não se revela como algo simples, banal, ao alcance de qualquer um. Não é à toa que o processo de formação de um educador conta com disciplinas de natureza própria, anos de formação, leitura, técnicas didáticas específicas, Pedagogia, Estudo de Teorias Pedagógicas, etc. Muito embora a Educação esteja atualmente passando por processo de banalização, isto é, qualquer pessoa, uma vez possuidora de determinado conhecimento, julga-se capaz de educar outra, percebe-se que há uma concreta necessidade de ser educador para se estar capacitado a educar alguém! Visto por esse prisma, se recordarmos o conteúdo de nossos currículos de graduação (e mesmo da pós!), pode-se perceber a quase completa inexistência de disciplinas, conteúdos, matérias diretamente ligadas à formação de educadores em Saúde Bucal. Não quero ser extremista (ou alarmista, como alguns o são) em pensar que, daqui por diante, sejamos todos educadores e dentistas. Não se trata de mudar radicalmente o conteúdo disciplinar dos currículos, mas a questão que incomoda, que perturba mesmo, é essa prepotência de todo profissional de Saúde em achar que o conhecimento de algo automaticamente capacita para educar alguém em Saúde. Não há relação direta entre essas duas situações. Se houvesse, bastariam os conteúdos específicos de cada matéria para se capacitar professores educadores. Pedagogia e Didática seriam desnecessárias em sua formação. Mas não o são! Há muito mais coisa entre se conhecer e se educar do que pensa nossa vã filosofia. Só para polemizar mais um pouquinho, um educador necessita ser antes um comunicador. Saber comunicar é diferente de saber educar. Existem professores de Odontologia que não se comunicam. Simplesmente não sabem falar, têm péssima dicção, impostação, inflexão, pouco ou nenhum domínio de expressão corporal, facial ou simplesmente falam rápido ou devagar demais. Ao fim desse passeio, é possível perceber claramente que, diante das atuais exigências no perfil profissional – e o Programa Saúde da Família (PSF) está aí, caros colegas, necessitando de cada vez mais gente capacitada (incluindo-se Cirurgiões-Dentistas) para educar em saúde – nada ou quase nada está se fazendo em termos curriculares, visando a capacitar graduados para educar em Saúde. Alívio ou não, esse não é definitivamente problema encontrado apenas na Odontologia. Tangencia a formação de todos os profissionais na Área de Saúde. E o que falar dos garranchos? Escrever legível também é educar! Para não cair em tentação, tive de mergulhar na Educação para melhor compreender o fenômeno educativo. Para procurar respostas às minhas indagações, inquietações acerca dos fracassos de programas ditos educativos, preventivos, promocionais em Saúde Bucal. Às vezes essa viagem fora de área é sumamente necessária, até para que se possa tentar olhar a Odontologia de fora dela e ver o conjunto de coisas mais claramente... Mas não se trata de viagem sem lenço, nem documento. Já que estamos ousando tantas coisas, por que não ousar também ir mais além de nós mesmos? * Natan Guterman é especialista em Odontologia em Saúde Coletiva/UnB e mestre em Odontologia Social/UFRN. E-mail: n.guterman@tecnolink.com.br. |