Ano VII nº 101 -

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Infertilidade e acesso
ao tratamento
 

Newton Eduardo Busso*

Jonathas Borges Soares*

A reprodução humana ganhou, na última década, aliados sem precedentes na medicina. Novas técnicas de fertilização foram implementadas, profissionais se reciclaram, pesquisas foram bem sucedidas e novas substâncias passaram a integrar o dia-a-dia de clínicas, hospitais e profissionais de saúde.

Hoje, a realidade é um pouco mais reconfortante para as mulheres que pretendem engravidar. Tratamentos à base de hormônios, a revolucionária fertilização in vitro (FIV) e novas técnicas cirúrgicas, são alternativas viáveis e, porque não dizer, vitoriosas, pois trazem chances reais a grupo selecionado de casais.

Apenas como exemplo, a técnica de fertilização in vitro já possibilitou o nascimento de mais de um milhão de bebês, nos últimos 27 anos. Os casais que não tinham nenhuma possibilidade de ter um filho, atualmente têm mais de 50% de chances, quando se oferece a eles mais de uma tentativa de tratamento.

Se de um lado a medicina avançou, aumentando as chances de gravidez dos casais com problemas de infertilidade, por outro, ainda há entraves sociais, burocráticos e financeiros que precisam ser melhor equacionados, tanto pela rede pública de saúde, quanto pela medicina privada e até pelos planos de saúde.

O Sistema Único de Saúde (SUS), que determina o acesso universal dos brasileiros a exames, consultas, cirurgias e assistência farmacêutica, engatinha nesses quesitos elementares e ainda deixa a desejar sob diversos pontos de vista. O principal problema é econômico: não há recursos suficientes.

Na seqüência, vem o aspecto social: cada vez mais brasileiros migram para a rede pública, acuados pelo desemprego e pelo achatamento dos salários. Quando conseguem um convênio, por vezes acabam descobrindo que o plano não contempla a infertilidade conjugal nas coberturas de seus tratamentos.

Por esses e outros motivos, seria inimaginável, neste momento, que o sistema público pudesse direcionar seus recursos ao incentivo de programas e métodos de fertilização. No Estado de São Paulo, que detém uma das maiores receitas orçamentárias do país, poucos são os hospitais que oferecem tratamentos gratuitos. Embora haja espaço para avanços, existe uma lacuna significativa entre o real e o ideal.

A solução mais eficaz, sob o aspecto de urgência que o assunto suscita, é a organização da medicina privada em torno de estratégias que facilitem o acesso a tratamentos de infertilidade. E aí entra a necessária dose de criatividade, bom senso administrativo e união entre os especialistas que atuam na área, aliada à responsabilidade social das clínicas e dos profissionais de saúde.

Faz-se necessário ampliar o debate e quebrar as reservas de mercado, uma vez que é possível oferecer tratamentos a custos mais acessíveis, beneficiando maior número de casais. Há clínicas brasileiras que já disponibilizam alternativas menos onerosas e mais de acordo com o nível de renda dos casais, obviamente, dentro dos limites éticos da medicina, das normas de vigilância sanitária e com rígidos padrões de qualidade, em termos de laboratório.

Por fim, nunca é demais ressaltar a importância da atualização científica necessária ao tratamento em medicina reprodutiva. Não é difícil encontrar, hoje, profissionais sem a necessária atualização científica, por vezes prescrevendo tratamentos ultrapassados e até sem indicação, que causam somente transtornos e frustrações ao casal, que muitas vezes acaba investindo “tempo” e esperança quando já não tinham nem um nem outro para “gastar”. Em outras palavras, se o sonho de décadas passadas já se tornou realidade, está mais do que na hora de aprimorá-lo e estendê-lo a todas as classes sociais deste país.
aaa

** Newton Eduardo Busso e Jonathas Borges Soares são médicos especialistas em reprodução humana e diretores do Projeto Beta - Medicina Reprodutiva com Responsabilidade Social.

PubE101092005





 

 


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