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Ano VII- Nº 100 - Junho de 2005

Repúdio ao Ato Médico e Psicanálise: identidade ou identificação?

Nilson Galhanone de Calasans Rego*

 

Naturalmente, há de execrar e deter a onipotência, a arrogância e o corporativismo que se enceram na tentativa de se fazer valer uma supremacia, imaginária, da Medicina em relação às demais profissões de saúde.

Em 2001, à época a participar de atividades em excelente Escola de Psicanálise, tive a oportunidade de juntar-me aos ESTADOS GERAIS DA PSICANÁLISE, primeiro grupo a insurgir-se, em Brasília, junto ao Governo, no sentido de, em seu nascedouro, conter e banir tal despautério.

Há, entretanto, na clínica psicanalítica, um conceito deveras importante, sobre o qual convido-a (o) a refletir: o da "IDENTIFICAÇÃO COM O INIMIGO", muito mais usual do que supomos. Adveio da percepção de que, em certas ocasiões, seqüestrados se enamoram de seus seqüestradores. No passado, algumas escravas apaixonavam-se por seus amos, mesmo quando açoitadas. Eventualmente, molestados acabam por nutrir, secretamente, sentimentos desejosos por seus molestadores; da mesma forma que algumas vítimas acabam por emitir relatos excitados sobre seus estupradores. Isso existe, não nos iludamos!

Pois sob a égide desse conceito, gostaria que pensássemos o chamado Ato Médico. A insólita questão é mais ampla do que se possa imaginar. Observa-se, por exemplo, que as minorias tendem a reproduzir, entre e para além de si - e de forma amplificada -, os preconceitos dos quais são alvos, contra os quais, entretanto, tanto se insurgem. Observadores mais atentos constatam: alguns frentistas esnobam carros modestos, mesmo quando bem tratados e gratificados, ainda que bajulem os luxuosos, mesmo quando sequer cumprimentados. Negros, tão afinados em seus discursos humanísticos e igualitários, não raramente agem cruelmente com seus pares, ainda que, com prazer não sabido, comportem-se subjugadamente em relação aos seus supostos discriminadores. Existirá segmento mais reacionário e segregador do que o homossexual, tão queixoso, entretanto, da intolerância humana? Não bastasse, algumas ex-funcionárias tornam-se tiranas iradas quando empregadoras.

Novos exemplos, bastante prosaicos, mas que não devem passar despercebidos aos olhares mais sensibilizados. Pensemos a Odontologia brasileira. Adotamos, abraçamos, cultuamos e defendemos um modelo curativista, pouco eficaz, perpetuador de doenças, escravocrata para profissionais e pacientes e ainda nos transformamos em arremedos estéticos norte-americanos, que nos impingiram, úmidos, sob cálidas gravatas e sobretudos, nestas cearas tropicais.

 Dia desses, assisti a uma defesa de tese na qual uma veterana colega, que fizera seu doutorado com enormes e plurais dificuldades, massacrou arrogante e covardemente o dileto e perplexo candidato; como, possivelmente, temia enormemente que tivessem feito com ela mesma em sua banca.

A questão não se encerra absolutamente na Odontologia. Outros profissionais de saúde, tão críticos à ordem médica, ao invés de se ocuparem com esclarecimentos mais amplos acerca de Educação em Saúde à população - com os quais, inclusive, obteriam maior visibilidade e fortaleceriam a própria identidade -, em verdade clamam para si, ainda que de forma dissimulada, uma supremacia doutoral sem precedentes. A titulação, por exemplo, passou à arma de ostentação e intimidamento e reivindica-se direito à prescrição medicamentosa e requisição de exames - muitas vezes, igualmente desnecessários. Desta forma, talvez inconscientemente, buscam para si um lugar de poder, a incorporação de um habitus que lhes permitirão, sintomaticamente, reprimir, intimidar e ameaçar, exatamente como lhes reservou, em passado não muito distante, seus supostos algozes.

Pasme: hoje, muitos indivíduos, ainda estudantes de Graduação nas profissões outrora denominadas – curiosamente e equivocadamente - paramédicas -, são tão ou mais autoritários e pretensiosos quanto, no passado, alguns dos chamados "catedráticos" ou "medalhões" em Medicina!

Portanto, fica a questão: afinal, qual o real sentimento que sustenta o repúdio ao Ato Médico: dignidade e obstinação, em prol do ideal da construção de uma identidade profissional, ou inveja escamoteada, despeito, espécie de admiração às avessas; modelo que se refuta no outro, para, depois, se incorporar de maneira "aprimorada"?


 

Bibliografia

CORREIA, J. C. Pierre Bourdieu (1930 / 2002 ): sociólogo cidadão. Jornal de Letras, Artes e Idéias. Portugal. Ano XXI, nº 818, 6-19 de fevereiro de 2002. p. 38-39.

DOR, J.  O pai e sua função em psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996

_______. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus Ed, 1997

FERENCZI, S. (1931) Análises de crianças com adultos. São Paulo: Martins Fontes, v. 4, 1992

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2001

FREUD, A. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1986

FREUD, S. (1893) Sobre o mecanismo psíquico dos fenômenos histéricos. Edição Standard Brasileira da Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, v. 2, 1996

______. (1895d) Estudos sobre a histeria. Idem, v. 3

______. (1905) Os três ensaios sobre a sexualidade infantil. Idem, v. 7

______. (1913) Totem e Tabu. Idem, v. 13

______. (1921) Psicologia de grupo e a análise do Ego. Idem, v. 18

______. (1924) A dissolução do Complexo de Édipo. Idem, v. 19

______. (1930) O Mal-estar na civilização. Idem, v. 21

______. (1938) A divisão do ego no processo de defesa. Idem, v. 23.


* Cirurgião-dentista e escritor. Pós-graduado em Periodontia e Teoria Psicanalítica. Membro do Laboratório de Pesquisa de História da Enfermagem, EEAP/UNIRIO. www.periodontum.hpgvip.com.br.


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