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Sinopse
Este ensaio tenciona ratificar que as notas e os acordes dissonantes,
emblemáticos da BOSSA-NOVA, estiveram, na realidade, presentes na
Música Popular Brasileira desde o final dos anos 10 do século XX;
sobreviveram aos modismos e tendências de se banalizar este rico e
primoroso cancioneiro, a despeito das múltiplas dificuldades de várias
ordens – políticas, culturais e mercadológicas.
Palavras-chave:
história, música popular brasileira, nota e acorde dissonante.
Abstract
This paper intends to point out that the dissonant notes and accords
inherent to BOSSA-NOVA, have been played at Brazilian Popular Music
since the 10´s in the century XX, survived all trials to trivialize
it, despite of the political, cultural and economical difficulties.
Key words:
history, Brazilian popular music, note and dissonant accord.
“DE
CONVERSA EM CONVERSA”
-
Introdução
Há,
no Brasil, forte emergência modernista nos anos 20 do século passado.
DI CAVALCANTI retorna do Velho Continente, miscigenado
em
criatividade. Imigrantes,
oriundos de rincões destruídos pela Primeira Guerra, buscam
reconstruir suas vidas; aos milhares, a mesclar culturas. Navios são
os grandes meios de transporte internacionais e realizam-se os
primeiros vôos Europa – América do Sul. O Atlântico é pioneiramente
sobrevoado. O sanitarismo de CRUZ ganha seguidores convictos. Ergue-se
a Coluna PRESTES no Rio Grande do Sul.
A
Semana de Arte Moderna,
em
São Paulo,
implode, nas telas, a estética morta vigente. Em telas outras, o
cinema populariza-se gradativamente e o humanismo de CHAPLIN emociona
o mundo. AL JOHNSON suscita polêmica ao brilhar, travestido de negro,
no primeiro filme sonoro, O Cantor de Jazz.
No
Rio de Janeiro, em um quase deserto oceânico, é construído o
Copacabana Palace. O Largo do Rossio, atual Praça Tiradentes, cintila
e resplandece com a consolidação da indústria do entretenimento.
Espetáculos eruditos são apresentados no jovem Teatro Municipal,
em
um Passeio
parisiense. Os bondes movimentam a Galeria Cruzeiro - hoje, Edifício
Avenida Central - coração do Carnaval carioca. EPITÁCIO PESSOA ascende
à Presidência da República.
Na
música, a popularização do Carnaval e o aparecimento do gramofone
foram decisivos para o aparecimento da canção popular no Brasil.
Jovens instrumentistas profissionais adaptam ritmos europeus ao gosto
brasileiro e criam uma forma peculiar de se tocar essas construções,
dando origem ao choro e sua expressão dançante, o maxixe.
DONGA
grava o primeiro samba em 1917, Pelo telefone, e no mesmo ano, a
genialidade do compositor, arranjador e instrumentista PIXINGUINHA
comparece ao disco. Em meio a tal miscelânea de ritmos e tendências
afro-européias, os pioneiros esboçam um novo – e revolucionário –
tratamento ao ritmo, melodia e harmonia da nossa música, que lhe
conferiria qualidade e sofisticação, instituindo o que seria espécie
de matriz para a vindoura BOSSA-NOVA décadas mais tarde. Que, por sua
vez, mudaria a estética música popular mundial.
DO – RÉ – MI
– Glossário
Uma
nota musical é o som obtido quando apertamos, por exemplo, uma única
tecla no piano ou quando tocamos uma única corda no violão,
independentemente de qual tecla foi apertada ou qual corda foi tocada.
Acordes
são formados a partir de um conjunto de notas de determinadas
escalas.Quando falamos em acordes, dissemos que um acorde maior é
formado por três notas. A voz humana, um instrumento, emite notas, não
acordes.
Escala musical
é um conjunto de notas musicais combinadas de uma maneira padrão. As
escalas musicais são essenciais para a formação dos mais diversos
tipos acordes . A escala de Dó é a mais comum: Dó - Ré - Mi - Fá - Sol
- Lá - Si.
A
escala convencional possui apenas sete notas e é conhecida como escala
diatônica. No entanto, essa escala, a partir de um certo momento na
história da música, foi dividida em doze notas e passou a se chamar
escala cromática.
Um
tom pode ser compreendido como sendo a "distância" – sonora - que
separa duas notas consecutivas.
O
símbolo # ou sustenido, que aparece escrito depois de uma nota musical
e é bastante comum nas músicas cifradas, significa que a nota que o
antecede foi aumentada
em
meio-tom. As
notas Mi e Si não possuem sustenido, pois essas notas correspondem,
respectivamente, ao Fá e ao Dó. Essa variação ocorre devido à mudanças
da freqüência sonora de uma nota para outra.
O
símbolo "b", ou bemol, que aparece depois de uma nota musical,
significa que essa nota foi reduzida em meio tom.
Um
som dissonante, nota ou acorde, seria, como o próprio nome diz, um
acorde que dissona ou, grossomodo, “não soa bem”. Fere. Difere. Faz
corte na hegemonia, na repetição. Entretanto, eis sua peculiaridade:
quando utilizado harmonicamente, com talento, técnica, arte e
sensibilidade, é enormemente enriquecedor e constituinte de um efeito
sonoro primoroso.
Os
acordes dissonantes são formados de quatro ou mais notas. Tomamos as
notas normais do acorde, maior ou menor, e adicionamos uma nota da
escala cromática.
A
dissonância porta estatuto estético, histórico e/ou cultural; eco de
um tempo, cultura ou intenção.
“RAPAZ
FOLGADO”
-
Pioneiros: NONÔ, NOEL,
CUSTÓDIO & REIS
Na
Música popular Brasileira, o ritmo brejeiro, a sinceridade sublime, as
melodias impregnantes e as harmonias singelamente sofisticadas de NOEL
ROSA fundam um novo paradigma no samba. Sofre influência de pianista
niteroiense NONÔ (Romualdo Peixoto) –, autodidata e denominado Chopin
do Samba, a privilegiar a sincopa e a acentuar os tempos fracos do
fraseado musical, delegando ao estilo um estatuto harmônico
qualitativamente diferenciado. O artista, nascido em 1901 e, mais
tarde, tio de CYRO MONTEIRO e tio-avô de CAUBY PEIXOTO, apresenta-se
em clubes desde o final da década de 10 e chama a atenção pelo seu
fraseado ímpar. O cantor MÁRIO REIS, discípulo de SINHÔ – músico e
compositor de brasilidade genuína -, faz escola em emissão e divisão,
com o “canto falado”. Reis é introvertido, misterioso, perfeccionista,
visionário – polêmico por demonstrar consciência de sua função
transformadora.
No
final da década de 20, CUSTÓDIO MESQUITA, inicialmente baterista e,
posteriormente, pianista virtuoso, admirador incondicional de ERNESTO
NAZARETH, já se apresenta na rádio carioca. Construtor de melodias e
harmonias refinadas e versáteis, compositor de notas diferenciadas,
em 1933, traz à cena o canto igualmente peculiar e atípico da notável
ARACY DE ALMEIDA.
Grossomodo,
são as centelhas embrionárias populares que fomentariam, inspirariam e
norteariam aqueles que viriam buscar qualidade na Música Brasileira,
ao longo do século XX.
As mortes prematuras de Noel e Sinhô e a voluntária - e precoce -
retirada de cena de Reis, concomitantemente ao início da Era Vargas,
marcam a inibição do processo criativo, lúdico e primoroso na Música
Popular Brasileira, enorme hiato, a ser retomado, parcialmente e com
meandros sinuosos, apenas décadas depois.
Entretanto, ainda que com menor visibilidade e popularidade, mas com
prestígio imaculado, a excelência dos ourives da primorosa MPB não
adormeceu.
Acompanhe nas próximas edições:
“CONVERSA DE BOTEQUIM” - “Canários” X Harmonizadores
“RAPAZ DE BEM” – JOHNNY ALF
“DESAFINADO” – TOM JOBIM
“PRA QUE DISCUTIR COM MADAME?“ - JOÃO GILBERTO
“CAMINHOS CRUZADOS” – ENFIM BOSSA-NOVA!
REFERÊNCIAS
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