Ano VII nº 101 -

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  Genealogia da dissonância
na MPB: de Nonô a Jobim - Gênese de uma Bossa renovada
[1]

Nilson Galhanone de Calasans Rego*

Sinopse

Este ensaio tenciona ratificar que as notas e os acordes dissonantes, emblemáticos da BOSSA-NOVA, estiveram, na realidade, presentes na Música Popular Brasileira desde o final dos anos 10 do século XX; sobreviveram aos modismos e tendências de se banalizar este rico e primoroso cancioneiro, a despeito das múltiplas dificuldades de várias ordens – políticas, culturais e mercadológicas.

Palavras-chave: história, música popular brasileira, nota e acorde dissonante.

Abstract

This paper intends to point out that the dissonant notes and accords inherent to BOSSA-NOVA, have been played at Brazilian Popular Music since the 10´s in the century XX, survived all trials to trivialize it, despite of the political, cultural and economical difficulties.

Key words: history, Brazilian popular music, note and dissonant accord.


DE CONVERSA EM CONVERSA [3] - Introdução

Há, no Brasil, forte emergência modernista nos anos 20 do século passado. DI CAVALCANTI retorna do Velho Continente, miscigenado em criatividade. Imigrantes, oriundos de rincões destruídos pela Primeira Guerra, buscam reconstruir suas vidas; aos milhares, a mesclar culturas. Navios são os grandes meios de transporte internacionais e realizam-se os primeiros vôos Europa – América do Sul. O Atlântico é pioneiramente sobrevoado. O sanitarismo de CRUZ ganha seguidores convictos. Ergue-se a Coluna PRESTES no Rio Grande do Sul.

A Semana de Arte Moderna, em São Paulo, implode, nas telas, a estética morta vigente. Em telas outras, o cinema populariza-se gradativamente e o humanismo de CHAPLIN emociona o mundo. AL JOHNSON suscita polêmica ao brilhar, travestido de negro, no primeiro filme sonoro, O Cantor de Jazz.

No Rio de Janeiro, em um quase deserto oceânico, é construído o Copacabana Palace. O Largo do Rossio, atual Praça Tiradentes, cintila e resplandece com a consolidação da indústria do entretenimento. Espetáculos eruditos são apresentados no jovem Teatro Municipal, em um Passeio parisiense. Os bondes movimentam a Galeria Cruzeiro - hoje, Edifício Avenida Central - coração do Carnaval carioca. EPITÁCIO PESSOA ascende à Presidência da República.

Na música, a popularização do Carnaval e o aparecimento do gramofone foram decisivos para o aparecimento da canção popular no Brasil. Jovens instrumentistas profissionais adaptam ritmos europeus ao gosto brasileiro e criam uma forma peculiar de se tocar essas construções, dando origem ao choro e sua expressão dançante, o maxixe.

DONGA grava o primeiro samba em 1917, Pelo telefone, e no mesmo ano, a genialidade do compositor, arranjador e instrumentista PIXINGUINHA comparece ao disco. Em meio a tal miscelânea de ritmos e tendências afro-européias, os pioneiros esboçam um novo – e revolucionário – tratamento ao ritmo, melodia e harmonia da nossa música, que lhe conferiria qualidade e sofisticação, instituindo o que seria espécie de matriz para a vindoura BOSSA-NOVA décadas mais tarde. Que, por sua vez, mudaria a estética música popular mundial.

DO – RÉ – MI [4] – Glossário

Uma nota musical é o som obtido quando apertamos, por exemplo, uma única tecla no piano ou quando tocamos uma única corda no violão, independentemente de qual tecla foi apertada ou qual corda foi tocada.

Acordes são formados a partir de um conjunto de notas de determinadas escalas.Quando falamos em acordes, dissemos que um acorde maior é formado por três notas. A voz humana, um instrumento, emite notas, não acordes.

Escala musical é um conjunto de notas musicais combinadas de uma maneira padrão. As escalas musicais são essenciais para a formação dos mais diversos tipos acordes . A escala de Dó é a mais comum: Dó - Ré - Mi - Fá - Sol - Lá - Si.

A escala convencional possui apenas sete notas e é conhecida como escala diatônica. No entanto, essa escala, a partir de um certo momento na história da música, foi dividida em doze notas e passou a se chamar escala cromática.

Um tom pode ser compreendido como sendo a "distância" – sonora - que separa duas notas consecutivas.

O símbolo # ou sustenido, que aparece escrito depois de uma nota musical e é bastante comum nas músicas cifradas, significa que a nota que o antecede foi aumentada em meio-tom. As notas Mi e Si não possuem sustenido, pois essas notas correspondem, respectivamente, ao Fá e ao Dó. Essa variação ocorre devido à mudanças da freqüência sonora de uma nota para outra.

O símbolo "b", ou bemol, que aparece depois de uma nota musical, significa que essa nota foi reduzida em meio tom.

Um som dissonante, nota ou acorde, seria, como o próprio nome diz, um acorde que dissona ou, grossomodo, “não soa bem”. Fere. Difere. Faz corte na hegemonia, na repetição. Entretanto, eis sua peculiaridade: quando utilizado harmonicamente, com talento, técnica, arte e sensibilidade, é enormemente enriquecedor e constituinte de um efeito sonoro primoroso.

Os acordes dissonantes são formados de quatro ou mais notas. Tomamos as notas normais do acorde, maior ou menor, e adicionamos uma nota da escala cromática.

A dissonância porta estatuto estético, histórico e/ou cultural; eco de um tempo, cultura ou intenção.

RAPAZ FOLGADO [5] - Pioneiros: NONÔ, NOEL,
CUSTÓDIO & REIS

Na Música popular Brasileira, o ritmo brejeiro, a sinceridade sublime, as melodias impregnantes e as harmonias singelamente sofisticadas de NOEL ROSA fundam um novo paradigma no samba. Sofre influência de pianista niteroiense NONÔ (Romualdo Peixoto) –, autodidata e denominado Chopin do Samba, a privilegiar a sincopa e a acentuar os tempos fracos do fraseado musical, delegando ao estilo um estatuto harmônico qualitativamente diferenciado. O artista, nascido em 1901 e, mais tarde, tio de CYRO MONTEIRO e tio-avô de CAUBY PEIXOTO, apresenta-se em clubes desde o final da década de 10 e chama a atenção pelo seu fraseado ímpar. O cantor MÁRIO REIS, discípulo de SINHÔ – músico e compositor de brasilidade genuína -, faz escola em emissão e divisão, com o “canto falado”. Reis é introvertido, misterioso, perfeccionista, visionário – polêmico por demonstrar consciência de sua função transformadora.

No final da década de 20, CUSTÓDIO MESQUITA, inicialmente baterista e, posteriormente, pianista virtuoso, admirador incondicional de ERNESTO NAZARETH, já se apresenta na rádio carioca. Construtor de melodias e harmonias refinadas e versáteis,  compositor de notas diferenciadas, em 1933, traz à cena o canto igualmente peculiar e atípico da notável ARACY DE ALMEIDA.

Grossomodo, são as centelhas embrionárias populares que fomentariam, inspirariam e norteariam aqueles que viriam  buscar qualidade na Música Brasileira, ao longo do século XX.

As mortes prematuras de Noel e Sinhô e a voluntária - e precoce - retirada de cena de Reis, concomitantemente ao início da Era Vargas, marcam a inibição do processo criativo, lúdico e primoroso na Música Popular Brasileira, enorme hiato, a ser retomado, parcialmente e com meandros sinuosos, apenas décadas depois. Entretanto, ainda que com menor visibilidade e popularidade, mas com prestígio imaculado, a excelência dos ourives da primorosa MPB não adormeceu.

Acompanhe nas próximas edições:

“CONVERSA DE BOTEQUIM” - “Canários” X Harmonizadores

“RAPAZ DE BEM” – JOHNNY ALF

“DESAFINADO” – TOM JOBIM

“PRA QUE DISCUTIR COM MADAME?“ - JOÃO GILBERTO

“CAMINHOS CRUZADOS” – ENFIM BOSSA-NOVA!


REFERÊNCIAS

[1] Ensaio dedicado a JOHNNY ALF, LENY ANDRADE e MILTINHO, alguns mais esmerados, refinados e dissonantes artistas da Música Popular Brasileira em todos os tempos. Agradeço a dileta leitura crítica do maestro JOÃO CARLOS COUTINHO, o mais fidedigno discípulo de NONÔ em sua maneira requintada, legítima e criativa de tratar o ritmo brasileiro.

[. [3] De Haroldo Barbosa e Lúcio Alves, 1947

[4] De Fernando César, 1955

[5] De Noel Rosa, 1932

* Cirurgião-dentista e escritor. Pós-graduado em Periodontia e Teoria Psicanalítica. www.periodontum.hpgvip.com.br.

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PubE101092005



 

 


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